Mal-estar na contemporaneidade

por Dra. Julita Sena*

“As formas do hoje que fascinam nossas mentalidades, é por espelharem o horizonte cultural que ambiciona “neutralizar moralmente” as penosas experiências que temos diante do sofrimento humano” (Jurandir Freire costa).

Certa vez, escutei do professor e amigo querido, Ailton Siqueira, que lemos o mundo e a vida dos outros a partir de nós mesmos. Foi com ele que dividi uma disciplina no mestrado em Ciências Sociais e Humanas na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, na qual abordamos os mal-estares que incidem na nossa contemporaneidade e que, partindo da concepção inicial exposta aqui no texto diz algo sobre quem e como somos. Então, entendo que é fundamental denunciar, provocar, fazer pensar e repensar os modus operandi da humanidade que se desdobra nas manifestações de sintomas diversos. E aqui estamos encerrando setembro e suas representações com o amarelo; torcendo eu para que não se resuma a um fator mercadológico.

Somos marcados pela resolutividade, produtividade, aparências do belo, corpos saudáveis e bem-estar desmedidos. Frente à isso, Leônia Teixeira, psicóloga e psicanalista, enfatiza o trabalho do analista que não foca apenas no campo biológico e físico, mas que se dá através das palavras sobre a história do sujeito. Ainda bem que aposto na Psicanálise e saberes afins porque não consigo compatuar com as tratativas mecânicas do que há de mais humano.

Os elementos destacados por Leônia, muitas vezes vejo sendo levados em desconsideração para que se atenda as esquivas ao que faz sofrer, poupando-nos (ou não) de elaborar as nossas faltas, sentir as ausências, sofrer com as nossas perdas, viver os nossos lutos e nos encarar como seres finitos. Para Christian Dunker, as tratativas atuais de manejar as angústias comprometem até o entendimento de que há coisas das quais não temos como escapar e, assim, não sabemos lidar sequer com o que é propriamente nosso.

Elisabeth Roudinesco ressalta que na sua época e em nosso tempo, Freud faz a sua história, resiste às críticas apelativas. Talvez seja isso que me proponho a fazer dia-a-dia: resistir às medidas duvidosas travestidas de cuidado.

Afinal, todos somos afetados por isso em alguma medida, uma vez imersos nesses tempos de vida prática e aparentemente feliz, no qual o show business acontece de um modo descompromissado com as nossas questões mais subjetivas e nossa intimidade. Sobre o meu campo especial de atuação, infelizmente, são muitos os ditos e ditas psis que corroboram com esse movimento. E ainda assim, as críticas se voltam para os que se preocupam e se ocupam da subjetividade humana.

O trabalho de Freud no âmago do seu início, discute o adoecimento através do embate entre o homem e a sua cultura, percebendo a etiologia das doenças com raízes entre a constituição do sujeito e as exigências civilizatórias. Os nossos trabalhos ocorrem simultaneamente à luta contra o racismo, crimes de lgbtfobia, discursos de ódio jogados ao vento, feminicídio expresso, loucura ainda encarcerada, pessoas com a vida em risco pela fome e pobreza, ascensão dos pensamentos que embasam atitudes fascistas, sobrevivência à pandemia, muitas perdas, incontáveis mortes e lutos mais do que difíceis.

Resgato o setembro amarelo e pontuo: a nossa contemporaneidade se caracteriza por querermos ser melhores, mais ágeis, fecundos e, ao mesmo tempo, livres, leves e soltos; apesar de tudo isso mencionado e bem mais. Daí, o choque! Do estímulo elétrico ao entendimento… Haja psicofármacos, trópicos e outras coisitas más (mais em espanhol e más do adjetivo) para sobreviver à imensa confusão de anseios.

O nosso meio se apresenta mais ocupado com as diretrizes classificatórias pela ótica do adoecimento a serem sanadas e pouco preocupado com as tantas demandas de cunho social e coletivo que desembocam na subjetivação e isso desqualifica o que podem vir com o tempo, elaborações e dizeres. Inclusive, Alfredo Simonetti diz que adoecer também oportuniza novas formas de ver o mundo através da possibilidade de destrinchar essa experiência, produzindo portanto, resultados diversos. Quem estaria disposto a isso diante das facilidades do “hoje em dia”? Adoecer pra quê?

Se, para Dunker, cada época tem a sua própria visão de mundo e de homem, com seus valores ídolos e demônios; interrogo quais seriam os nossos atravessamentos; dada as exigências de superprodução e superdesempenho, as quais não permitem sequer falar sobre as nossas aflições; como pontua Byung-Chul Han.

Consequentemente, estamos mergulhados em TDAH, entalados de Burnout, afundados em depressão e generalizados na ansiedade. Perdemos nossas singularidades, pois esquereçam-se do que é próprio de cada um. E então, Caetano interroga: “existirmos, a que será que se destina?”.

A quem atendemos? Estamos a serviço do quê e de quem? Moretto, questiona as técnicas de cuidados em evidência; destacando que priorizar diagnósticos e nomear sintomas nos leva a correr o risco de ficar sem saber sobre o sofrimento e sobre o que ocorre com nós mesmos (grifos meus). Coloco em primeira pessoa do plural e ressalto que essas colocações são pensadas e feitas a partir do meu lugar na Psicologia e na Psicanálise, mas principalmente no mundo enquanto pessoa.

O curioso é que o advento da inteligência artificial mostrou que esta consegue até dar um sopro de vida os mortos, mas não nos reuniria nos mais diversos sentidos. Pois não alcança o que não é computável, o que não é baseado em evidências, o que não é transparente. A I.A. não escuta os silêncios e nem destrincha as entrelinhas; esse trabalho é puramente humano; me atrevi a fazer esse arranjo entre uma fala recente de Marcelo Veras com outra de Luc Ferry.

É o que está no cerne do ser humano que desbanca muitos dos ideais contemporâneos… Rosa Montero coloca a morte como “companheira silenciosa que nos devora pelas costas” e é o inevitável da vida que vai descortinando a nossa fragilidade, não somente por reafirmar que somos finitos e sim por também destacar as impossibilidades das ciências e tecnologias que desenvolvemos mais e mais, mostrando que elas também fracassam; despertando os nossos pavores mais imaginários, como coloca Del-Volgo. Ou seja, o que é nosso, I.A. nenhuma dá jeito.

Há circunstâncias que não permitem outra opção, muito menos outra chance. Mariotto escreve que o ano de 2020 marcou a ferro quente a carne da civilização. A trama da pandemia da Covid-19 escancarou a morte e a batalha coletiva pela sobrevivência. Morte e lutos para todos. O implacável deixou impotente as maiores das potências. Enterros em valas comuns, rituais sem contato e talvez sem despedidas, medidas para tornar as coisas menos impessoais na empreitada de oportunizar alguma coisa para os humanos que somos. Tantas ausências, tantas privações, a violência do negacionismo e a agressividade da sensação de estar em risco que talvez não saibamos ainda onde isso realmente vai dar.

E por falar em fins; Contardo insinua: “O ideal seria que alguém pudesse viver sem dor a sua morte. Porque, afinal de contas, é uma coisa que vai acontecer com você só uma vez na vida.”.

Então, façamos algo interessente com aquilo que nos é único.

*Psicóloga clínica (CRP-17/2145) e psicanalista. Doutora em Psicologia com pós-doutorado em Ciências Sociais e Humanas.

Estudos Culturais, parte 1

por Dr. Mário Gaudêncio*

Comecei uma nova jornada. Agora como pesquisador do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cognição, Tecnologias e Instituições da Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

Nesse processo, assumi a tarefa de ser um dos mediadores docentes, ao lado da professora Sâmea, com quem tenho muita estima, provocando reflexões sobre o campo dos Estudos Culturais.

O caminhar pedagógico apenas iniciou, mas uma série de reflexões já se tornaram oportunas.

Penso que os Estudos Culturais podem nos ajudar a rever discursos e a ressignificar a lógica como vemos a sociedade e a maneira como nos relacionamos com ela.

O primeiro momento desse caminhar, ocorreu por meio do texto, “A Centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo”, escrito por Stuart Hall e publicado pela Revista Educação & Realidade, em 1997.

Stuart Hall em 1997, compreendia que era preciso observar o mundo através de múltiplos prismas, em especial, porque é configurado por meio de um regime de diferenças, mas tendo como horizonte, a cultura como uma engrenagem interseccional que busca-se potenciais olhares sob a ótica de uma multiculturalidade encarnada.

O pesquisador de primeira viagem ou mesmo aquele mais maturado no cotidiano acadêmico, encontra no pensar de Hall a possibilidade de construir um caminho mais humano e construtivista.

Somos ajudados a pensar a sociedade a partir de processos de representações, onde, ao mesmo tempo, são contornados e costurados por discursos notadamente intencionais ou difusos, que são alimentados pelas mais diversas forma de ideologias.

Vamos aprendendo que é preciso superar o status quo, mas é necessário perguntar: como construir um cenário que seja ao mesmo de ruptura, mas também de aglutinação.

Se por um lado o processo de representação da mente e do corpo, podem transfigurar o poder simbólico e hegemônico, pois em linhas gerais é sinônimo de ratificação institucional e objetivação do pensar hegemônico, por outro, somos provocados a superá-lo, de permitir que a ciência normal (Kuhn, 2000) possa dar espaço para um pensar alternativo de valorização de uma práxis orgânica, onde permita surgir uma nova intelectualidade orgânica (Gramsci, 1980), mas não apenas para suplantar o modelo dominante, e sim para se colocar como uma engrenagem que postule um saber amplo e articulador de conhecimentos marginais.

É preciso reconstruir os discursos, não como narrativas falaciosas, mas como possibilidade altera, onde as pessoas, comunidades e saberes são respeitados em suas plenitudes, conforme as suas peculiaridades. É preciso buscar reconhecer e respeitar o outro, conforme suas potencialidades e dilemas, reconhecendo os seus valores e maneiras de ser.

As linhas que contornam o seus escritos, encontramos a incansável busca pela empatia e equidade, reconhecendo no outro, não apenas uma estatística, mas um ser capaz de mostrar que um sujeito para além de um produto universal e padronizado como uma embalagem produzido por uma máquina etiquetadora.

Ao nos recolher no texto, é possível compreender que é preciso desconfiar de tudo e de todos, mas advirto, desconfie com humanidade e de forma afetuosa. Favoreça a dialética e se permita a construção de um pensar, os possíveis opostos, em algum momento podem se aproximar.

Por esse motivo, o campo dos Estudos Culturais vai se mostrar como sendo essencialmente interdisciplinar, fazendo com que pensamentos distintos se aproximem em torno do mesmo objeto ou objetivo comum.

Ao buscar transparecer um caminho comum, irei lembrar de um ditado popular derivado do cristianismo, onde diz que é preciso favorecer a unidade na diversidade. Em linhas gerais, é o que queremos buscar na construção interdisciplinar, mas será que estamos preparados para este movimento de ressignificação e realinhamento cognitivo e das práticas culturais. Até que ponto já nos libertamos dos nossos preconceitos e ajudamos a construir a sociedade de bem-estar social capaz de inserir, positivamente, no centro do debate aquele que está a margem e é considerado um favelado do conhecimento?

Pensar a partir desse viés, não seria um movimento de, de fato, desregular a sociedade? Mas não sob um interesse do mercado, mas de inclusão sociocultural e de oxigenação cerebral do ser na sociedade contemporânea.

Portanto, a cultura não deve ser usada como instrumento de dominação e controle. Ela deve na verdade, ser a potência máxima de libertação da sociedade. A cultura é a alma e quando ela roubada, o ser, em toda a sua complexidade, deixa de existir. Perde-se a identidade e a essência que constitui o espírito se esvai.

Daí é preciso pensar a centralidade da cultura para além das artes. É preciso construir o pensamento cultural considerando-o como sendo a engrenagem interseccional que cruza as mais distintas categorias da civilização, como o fermento necessário para unir e dar sentido a vida e as pessoas. Ela é resistência, mas também esperança para construção de uma sociedade menos desigual.


*Pós-Doutor em Ciências Sociais e Humanas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O Pomar das almas perdidas: quando outras mulheres se tornam abrigo

Por Dra. Zildenice Guedes*

Chego à esse espaço com muita alegria e responsabilidade, afinal, a leitura e escrita ocupam um lugar especial e singular em minha vida. Sendo assim, muito me honra estar aqui e compartilhar com vocês leituras, textos, escritas, retalhos e mosaicos do que sou e do que me tece enquanto ser humano. 

Em minha coluna vou procurar trazer sempre sugestões de leituras e literaturas que possam ser um farol em tempos tão difíceis e desafiadores como esses que estamos vivendo. Se me permitem, vou falar um pouco de mim para que entendam a dimensão que a leitura e a escrita têm em minha vida. Sou uma mulher que quando criança, fui criada por uma mãe solo em condições socioeconômicas muito difíceis, então, mesmo a minha mãe sendo uma mulher analfabeta, ela trazia para mim os livros e cadernos que as patroas (ela era empregada doméstica) iam jogar fora. Então, mesmo com muitas dificuldades, eu sempre tinha livros à minha volta e eu sempre gostei muito de ler. Então, a leitura foi se tornando um hábito e uma tábua de salvação em minha vida. Foi graças à leitura que eu me permitir sonhar e imaginar outros mundos. Conto essa história para que vocês entendam que tenho prazer pelos livros, de praticamente todos os gêneros, desde os literários (afinal, literatura e arte sempre nos salvarão em meios ao caos), até os acadêmicos. E é essa paixão pelos livros que me colocaram diante do livro que sugiro hoje para vocês. Encontrei o “Pomar das almas perdidas” em uma feira de livros, se não me engano ele custou apenas R$15,00, mas, acreditem, é uma das melhores literaturas femininas que já li esse ano. 

A história se passa na Somália e conta sobre os efeitos da guerra civil iniciada em 1991 e o que esse evento vai provocar na vida de três personagens mulheres que se entrelaçam em decorrência da violência e da barbárie que se abate sobre esse povo. A escritora de origem somali-britânica, Nadifa Mohamed é precisa e assertiva na escrita e profundidade dos personagens. Ela traz em sua obra, mulheres de diferentes contextos e variadas condições socioeconômicas, mas todas, atravessadas pela violência de gênero e pela banalidade da extrema crueldade. Ao ler nos deparamos com o fato de que para muitas de  nós mulheres nos momentos mais difíceis, só teremos outras mulheres que também estão aos cacos, mas deixar a outra para trás não é uma opção. Ao mesmo tempo, em que outras mulheres serão capazes de reproduzir atos de violência e extrema desumanidade que muitas de nós julgávamos impossível. Uma menina órfã, sem lar, sem referências, completamente abandonada à própria sorte, uma mulher viúva e sem filhos, a sua filha foi vítima da violência militar e uma soldado desertora se encontrarão de uma forma inimaginável e conseguirão mesmo aos retalhos e em pedaços, se agarrarem umas às outras para formarem a única família possível, a que nasce do caos da guerra, de perdas e ausência, dos destroços que uma guerra deixa no solo, no ar, nas cidades e na alma de todos os que são vítimas de conflitos e guerras que quase sempre, não escolheram trilhar, mas têm suas vidas arrebatadas, tomadas pela violência e pelo ódio ao outro. 

A menina que não teve infância, afeto e segurança, a viúva que foi muito amada pelo marido e que ao perder a filha, perde completamente o sentido da vida e a soldado que foi criada para obedecer aos homens e lutar pela guerra que eles escolhem, têm suas vidas entrelaçadas em um enredo fantástico, muito humano e emocionante. A escritora explora com muita maestria as contradições do humano em suas personagens. Mesmo essas mulheres tendo ao longo de suas vidas passado por experiências de trauma profundo, encontram uma na outra esperança, coragem e afeto. Para elas, a vida é possível mesmo diante dos escombros em termos materiais e emocionais. 

Espero que leiam o Pomar das almas perdidas e se permitam ser tocados por Nadifa Mohamed, e suas personagens incríveis Deqo, Kawsar e Filsan!


*Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Maria das Neves Batista Pimentel: a mulher por trás de Altino Alagoano

por Dra. Sandra Lage*

Nascida em 2 de agosto de 1913 e registrada em 12 de agosto do mesmo ano, data associada à celebração de Nossa Senhora das Neves, Maria das Neves Batista Pimentel ocupa posição relevante na história da literatura de cordel brasileira. Em 1938, publicou o folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade sob o pseudônimo masculino Altino Alagoano, tornando-se uma das pioneiras da autoria feminina no gênero.

Maria das Neves Batista Pimentel integra o grupo das primeiras mulheres a publicar literatura de cordel no Brasil, em um período em que essa produção era predominantemente masculina. Seu folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade é considerado, pela bibliografia especializada, o primeiro cordel impresso de autoria feminina de que se tem registro. A adoção do pseudônimo Altino Alagoano possibilitou a publicação da obra em um contexto editorial que restringia a participação das mulheres.

Filha do poeta, editor e tipógrafo Francisco das Chagas Batista, Maria das Neves cresceu em um ambiente diretamente ligado à produção, à impressão e à comercialização de folhetos. Essa convivência favoreceu seu contato com a literatura de cordel e com as práticas editoriais desde a infância.

Sua atuação ocorreu em uma sociedade marcada por normas patriarcais que limitavam a participação feminina nas atividades intelectuais e editoriais. Nesse contexto, a publicação de obras por mulheres encontrava resistência, levando algumas autoras a adotar pseudônimos masculinos para ampliar as possibilidades de circulação de seus textos. O uso do nome Altino Alagoano evidencia essas restrições no mercado editorial do cordel durante a primeira metade do século XX.

Os folhetos de Maria das Neves abordam temas recorrentes da literatura de cordel, como religiosidade, honra, valores morais e relações familiares. Sua obra caracteriza-se pela adaptação de romances, contos e narrativas tradicionais para a linguagem do cordel, preservando elementos formais do gênero, como a organização em versos, a métrica, as rimas e a estrutura narrativa. Essas características refletem as práticas editoriais e o perfil do público leitor da época.

Embora seus textos não apresentem contestação explícita à ordem social vigente, sua atuação possui relevância histórica por representar uma das primeiras experiências de autoria feminina na literatura de cordel impressa. Sua produção demonstra que mulheres participaram desse campo desde as primeiras décadas do século XX, ainda que tenham permanecido por longo período com reduzida visibilidade na historiografia literária.

Nas últimas décadas, estudos sobre literatura de cordel, autoria feminina e história editorial ampliaram o conhecimento sobre a obra de Maria das Neves Batista Pimentel. Essas pesquisas contribuíram para consolidar sua importância na história do cordel brasileiro e ampliar o reconhecimento de sua contribuição para o gênero.

A participação feminina na produção de cordéis tem crescido nas últimas décadas, especialmente após o reconhecimento da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo IPHAN, em 2018. Atualmente, mulheres atuam na produção de folhetos, na pesquisa, na formação de leitores e na difusão do cordel em escolas, universidades, eventos culturais e ambientes digitais.

As cordelistas contemporâneas preservam características estruturais do gênero, como métrica, rima e oralidade, ao mesmo tempo que diversificam os temas e os espaços de circulação de suas obras. Esse movimento evidencia a ampliação da participação feminina na produção e na difusão da literatura de cordel.

Nesse contexto, Maria das Neves Batista Pimentel permanece como uma referência para os estudos sobre a história da literatura de cordel. Sua trajetória documenta uma das primeiras experiências de autoria feminina no gênero e contribui para compreender a participação das mulheres na formação, na preservação e na continuidade dessa tradição literária brasileira.


* Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Londrina (UEL).

Brindemos aos 64 anos de Psicologia no Brasil?

Por Dra. Julita Sena*

Parte desse escrito foi elaborada em agosto de 2024, para uma das ocasiões celebrativas dos 62 anos de regulamentação da Psicologia no Brasil. Estive em um auditório falando para um público majoritariamente de estudantes de Psicologia, bem como psicólogos e psicólogas. Interesses e abordagens diversas, mas talvez com um ponto em comum a todos e todas: saber e/ou discutir sobre os desdobramentos do exercício da nossa profissão.

Como inicio a minha coluna no mesmo mês, considerei mais do que pertinente acessar os pensamentos, ideias, (in)compreensões e devaneios que me ocorreram há dois anos atrás. Seriam as mesmas inquietudes? Adiciono novas questões? Sigo determinada a servir ao meio com o que esses saberes me suscitam? O que espero de mim e dos meus pares e dos que podem se beneficiar com as nossas práticas?

Quero desde já registrar a satisfação sentida com a proposta deste espaço. Que o mesmo possa ser de trocas e via de produção de novas coisas. Aceitei de imediato o convite para ter acesso ao público que está fora dos espaços por onde circulo e para desbravar realidades diversas às que se passam dentro das quatro paredes do meu consultório.

Chegamos ao 64º aniversário da regulamentação da Psicologia enquanto profissão no nosso país. Dedos apontados para os conselhos federal e regionais, queixas, insatisfações, muitas críticas e demandas infinitas. Sem titubear, acredito que a maioria são pertinentes… Outras nem tanto, pois se perdem quando invalidam ou subestimam a história de luta que se tornou marca dessa categoria!

Antes de nós, muitos lutaram pelos lugares que hoje ocupamos, pelo reconhecimento científico que a tantos e tantas envaidece, dedicação à causas sociais, combatentes das diferenças e preconceitos, em defesa das diversidades, respeito à pluralidade. Ressaltemos que a nossa pauta no que há de mais subjetivo em cada um, entre as diretrizes pelas quais a Psicologia se fez focada na saúde mental, emocional, psíquica; no direito de ser singular.

Foi assim que ao longo de mais de 6 décadas passamos a abranger nos campos e mostramos a que viemos. Do consultório clínico às escolas, dos hospitais às organizações, dos esportes às universidades, dos livros aos artigos, dos nossos estudos aos nossos feitos. São orientações – ou se preferirem- abordagens também diversas. São possibilidades de condução teórica e prática que se diversificam entre congruências e cisões. Diante desse panorama, mostramos que tem sido feito um necessário trabalho! Com falhas, faltas, desejo de mais e levantamentos de interrogações.

Atenção! Para além disso, está a pertinência em olhar para o que nos cabe de um modo mais íntimo, mas também ético com o propósito. Quem está em curso nos seus processos e acompanhamentos pessoais? Não falo sobre “terapia em dia”, mas sim em responsabilidade sobre o manejo daquilo que lhe pertence irrefutavelmente. O que tem levado a adotar determinada “abordagem” como sendo a de interesse? Por gentileza, se inteire bem sobre.

Na sua época e em nosso tempo, Freud faz a sua história, resistindo às críticas apelativas, como nos diria Elisabeth Roudinesco (2014).  É a Psicanálise freudiana que fundamenta o meu percurso de vida. Contudo, diferentemente de alguns psicanalistas, não me ocupo em deturpar outros saberes, “quiçá” a Psicologia. Me dedico com o afinco que posso às vias de conhecimento que ampliam o meu campo de percepção, leitura, conhecimento e interpretação de mundo e do homem. Atenta ao que há de específico em cada área, aos meus interesses e àquilo em que acredito.

Como vocês identificam aqueles ou aquelas que têm se tornado referências no campo de atuação? Vocês se permitem olhar para tais com respeito, mas também com o senso crítico necessário? Como vocês veem o uso e abuso das redes sociais na contemporaneidade? Dá para ter acesso à coisas interessantíssimas, mas também nos colocam diante de uma série de distorções e conflitos éticos.

Em tempos de vida prática e aparentemente feliz, o show business acontece de um modo descompromissado com as nossas questões e intimidade e, infelizmente, são muitos os ditos psis corroboram com esse movimento. Entregam promessas, propõem um serviço simplório, disponibilizam links nas redes que mais parecem um portal rumo ao paraíso. Isso seria mesmo fazer Psicologia?

Por falar em iniciativas apelativas, ressalto a minha preocupação e engodo com a dinâmica atual de psicólogos e psicólogas que enfatizam o viés capitalista e mercadológico, o qual me atrevo a relacionar com o entendimento de Christian Dunker e Cláudio Thebas (2017) de que estamos progredindo na nossa individualização com a busca desenfreada por resultados visíveis a olho nu e passíveis de mensuração, mas corremos o risco de comprometer até mesmo a nossa escuta e relação consigo e com o outro. No cuidado com os que chegam, o que importa é a reversão, resolução, diretrizes classificatórias e “engessamento” do ser?

Os CIDs estão tomando de conta dos relatórios e dos discursos. Parecem se sobrepor ao que se passa no íntimo, na vida própria e no inconsciente. Por isso, questiono: “Para onde estamos indo?”. Na lei da oferta e da procura, não podemos esquecer de que cada um é o verdadeiro protagonista do que lhe ocorre. A prosperidade está na completude, na integridade e nos elos que fazem com que sejamos quem somos.

Christian Dunker(2017), nos provoca a reconsiderar as tratativas atuais de manejo do sofrimento, para que possamos estar mais amadurecidos em relação às nossas habilidades e capacidades de lidar com o que é inexorável à existência e, assim, nos permitir a chorar, sentir, sofrer, adoecer e até mesmo morrer. Ou seja, para que se faça o bom exercício de ser totalmente honesto consigo mesmo, como já recomendava Sigmund Freud.

Isso nos permite refletir sobre a inserção do luto na Classificação Internacional de Doenças como um transtorno. Sofrer em um processo intensificado pela importância da pessoa perdida tem suas características elencadas como via de adoecimento. Longe de questionar os avanços médicos e científicos; apenas convoco psicólogos e psicólogas a assumirem os seus devidos lugares na construção de parcerias. Não somos submissos. O nosso dever requer insubmissão.  

Angústias não são homogêneas. Del-Volgo (1998), psiquiatra, psicanalista e professora da Universidade de Marselha (França), destaca a importância de se escutar o que está na fala do paciente, a singularidade do seu discurso e daquilo que acontece consigo. Sendo assim, é reduzido o risco de despojá-lo do que lhe pertence e minimizar o sujeito apenas à uma função epidemiológica. Somos todos e todas muitas coisas antes e apesar de.

Como trazia no início dessas colocações; hoje mais do que nunca, estamos em vários lugares, com afazeres múltiplos, entre equipes multiprofissionais e interdisciplinares. Assumimos a responsabilidade de avançar em nossos feitos. Portanto, é dever nosso atuar de forma que valide os alcances à base de muito suor que atravessam os anos. Confesso que ao mesmo tempo que entendo ser válido uma postagem no Instagram que nos relembre do sigilo como elemento de nossa prática, me assusta as tantas vezes que vejo e sinto que isso precisa ser reforçado. Um exemplo simples, recorrente e grave.

Não vamos esquecer dos fenômenos da existência, da multiplicidade dos comportamentos, do inconsciente peralta, da transpessoalidade do homem, das análises possíveis sobre o mesmo e, principalmente, do nosso compromisso de não privatizar a melhoria da alma, como falava Byung-Chul Han. Já nos basta a anestesia social que vem reprimir verdades e impedir conhecimentos. Encerro com essa recomendação para que seja possível ofertar e receber da Psicologia o que esta preconiza.


* Psicóloga clínica (CRP-17/2145) e psicanalista. Doutora em Psicologia com pós-doutorado em Ciências Sociais e Humanas.

Leitura, antídoto para a desinformação

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Em terra de não leitores, temos um terreno fértil para a desinformação.

O cenário do “mundo da leitura” no Brasil não é animador e causa preocupação.

Ao contrário do que revelam os dados na Europa e na Espanha, onde por exemplo, a média de leitores é de 80 a 90% em alguns países da União Europeia e de 65,5% na Espanha (El Espanol, 2025, tradução nossa, online), no Brasil, na última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, demonstrou ser um país de não leitores.

Segundo o Instituto Pró-Livro (2024, p. 15, online) e a Academia Brasileira de Letras (2025), “[…] 53% das pessoas ouvidas admitiram, que […] não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

“53% das pessoas ouvidas admitiram, que não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

Este dado é ainda mais alarmante se considerarmos a situação da região Nordeste e do Rio Grande do Norte, áreas de onde escreve este editor. Nessa região, apenas 43% das pessoas são considerados leitoras. Já o RN amarga a última posição no ranking entre todos os estados da federação, com um triste percentual de 33% de pessoas que leem.

Na prática, significa que são dados estatísticos estarrecedores, aqui demonstrados pelo Instituto Pró-Livro (2014, p. 21).

Revelados esses dados e cruzados com o cenário global e local do fenômeno da desinformação, essa terra de não leitores, o Brasil, abre margem para um “terreno fértil para a produção e propagação de notícias mentirosas” e do esgarçamento das relações sociais, potencializando o surgimento de cenários de infodemias.

O não acesso a leitura, e por ela a leitura crítica, faz do cidadão um ser vulnerável a consumir registros informacionais e objetos digitais sem tratamento, filtro ou relevância. Isso é piorado se observarmos que a maior parte da população tem planos de dados de internet limitados. Muitos têm apenas condições de abrir pequenos volumes de dados de mensageiros, implicando, caso queiram, a impossibilidade de checar os dados recebidos.

Ter competência crítica para a análise da informação não é uma tarefa trivial, porém, é cada vez mais necessária e urgente, só que para ser favorecido é preciso que as pessoas tenham acesso ao conhecimento registrado confiável. Isso passa necessariamente pelo acesso à leitura, formação de leitores e pela consolidação de comunidades de leitores.

Paulo Freire (1989), em “A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam”, já sinalizava o quão é importante a leitura para transformar pessoas. Mas não apenas uma leituras das palavras. Também seria fundamental uma leitura de mundo.

Paulo Freire, nos conduzia para uma leitura encarnada, uma práxis leitora que levava o ser humano a transformação, induzindo a uma militância intelectual, podendo alterar a mentalidade em direção a um novo compromisso humanitário e formação de uma nova intelectualidade (Gramsci, 1982).

Somos chamados a olhar a leitura para além da leitura, como um antídoto possível para frear esse “mar de desinformação” com o qual estamos imersos.

Vale lembrar que a desinformação não é um fenômeno novo, mas impulsionada pelas milícias digitais que promovem guerras culturais, ela tem alcançado proporções inimagináveis, como a violência simbólica e a física. Para além do cancelamento, as mentiras digitais têm levado a morte.

E de forma dicotômica, os envolvidos diretamente não têm sofrido as sanções devidas, onde já é sabido que o primeiro passo é a regulamentação das mídias digitais, que está nas mãos de grandes conglomerados internacionais e que tem resistido a se adequarem as leis das nações e de suas soberanias.

Se por um lado, temos grupos que estão lutando pela soberania digital, por outro, vemos cada vez mais grupos de pessoas desinformadas, que sob o pretexto da “liberdade de expressão” tem causado medo e dor em milhares de pessoas.

Assim, percebe-se que um possível caminho a ser seguido, é o de pensar em estratégias Estatais que viabilizem práticas leitoras libertadoras, capazes de dar ao ser humano, as ferramentas e condições necessárias para emergirem ao estágio de leitores, primeiro passo de muitos que ainda são importantes para chegar ao nível de leitores críticos.

Ao chegar ao nível de leitores críticos, se permitirá suplantar o analfabetismo ideológico e compreender a importância de valorizar a ética do diálogo, conforme propõe Rocha (2021) na obra “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político”.

Tal importância ocorre no sentido de responder as preocupações expressas por Max Fisher (2023) e Miskolci (2021), respectivamente, com as suas obras “A Máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo” e “Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada”.

Portanto, vê-se que uma das formas de superar o fenômeno da desinformação é através da leitura e da formação de leitores. Apenas com uma forte comunidades de leitores críticos, teremos condição de minimizar os danos causados pelo distópico mundo da pós-verdade.


Referências

CASTRO, Ruy. O país dos não leitores. Rio de Janeiro: ABL, 2025. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 16 jan. 2025. Disponível em: https://www.academia.org.br/artigos/o-pais-dos-nao-leitores#:~:text=S%C3%A3o%20n%C3%BAmeros%20terr%C3%ADveis%2C%20deprimentes%2C%20divulgados,livro%2C%20nem%20mesmo%20em%20parte. Acesso em: 31 jan. 2025.

FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. São Paulo: Todavia, 2023.

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