Estudos Culturais, parte 1

por Mário Gaudêncio*

Comecei uma nova jornada. Agora como pesquisador do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cognição, Tecnologias e Instituições da Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

Nesse processo, assumi a tarefa de ser um dos mediadores docentes, ao lado da professora Sâmea, com quem tenho muita estima, provocando reflexões sobre o campo dos Estudos Culturais.

O caminhar pedagógico apenas iniciou, mas uma série de reflexões já se tornaram oportunas.

Penso que os Estudos Culturais podem nos ajudar a rever discursos e a ressignificar a lógica como vemos a sociedade e a maneira como nos relacionamos com ela.

O primeiro momento desse caminhar, ocorreu por meio do texto, “A Centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo”, escrito por Stuart Hall e publicado pela Revista Educação & Realidade, em 1997.

Stuart Hall em 1997, compreendia que era preciso observar o mundo através de múltiplos prismas, em especial, porque é configurado por meio de um regime de diferenças, mas tendo como horizonte, a cultura como uma engrenagem interseccional que busca-se potenciais olhares sob a ótica de uma multiculturalidade encarnada.

O pesquisador de primeira viagem ou mesmo aquele mais maturado no cotidiano acadêmico, encontra no pensar de Hall a possibilidade de construir um caminho mais humano e construtivista.

Somos ajudados a pensar a sociedade a partir de processos de representações, onde, ao mesmo tempo, são contornados e costurados por discursos notadamente intencionais ou difusos, que são alimentados pelas mais diversas forma de ideologias.

Vamos aprendendo que é preciso superar o status quo, mas é necessário perguntar: como construir um cenário que seja ao mesmo de ruptura, mas também de aglutinação.

Se por um lado o processo de representação da mente e do corpo, podem transfigurar o poder simbólico e hegemônico, pois em linhas gerais é sinônimo de ratificação institucional e objetivação do pensar hegemônico, por outro, somos provocados a superá-lo, de permitir que a ciência normal (Kuhn, 2000) possa dar espaço para um pensar alternativo de valorização de uma práxis orgânica, onde permita surgir uma nova intelectualidade orgânica (Gramsci, 1980), mas não apenas para suplantar o modelo dominante, e sim para se colocar como uma engrenagem que postule um saber amplo e articulador de conhecimentos marginais.

É preciso reconstruir os discursos, não como narrativas falaciosas, mas como possibilidade altera, onde as pessoas, comunidades e saberes são respeitados em suas plenitudes, conforme as suas peculiaridades. É preciso buscar reconhecer e respeitar o outro, conforme suas potencialidades e dilemas, reconhecendo os seus valores e maneiras de ser.

As linhas que contornam o seus escritos, encontramos a incansável busca pela empatia e equidade, reconhecendo no outro, não apenas uma estatística, mas um ser capaz de mostrar que um sujeito para além de um produto universal e padronizado como uma embalagem produzido por uma máquina etiquetadora.

Ao nos recolher no texto, é possível compreender que é preciso desconfiar de tudo e de todos, mas advirto, desconfie com humanidade e de forma afetuosa. Favoreça a dialética e se permita a construção de um pensar, os possíveis opostos, em algum momento podem se aproximar.

Por esse motivo, o campo dos Estudos Culturais vai se mostrar como sendo essencialmente interdisciplinar, fazendo com que pensamentos distintos se aproximem em torno do mesmo objeto ou objetivo comum.

Ao buscar transparecer um caminho comum, irei lembrar de um ditado popular derivado do cristianismo, onde diz que é preciso favorecer a unidade na diversidade. Em linhas gerais, é o que queremos buscar na construção interdisciplinar, mas será que estamos preparados para este movimento de ressignificação e realinhamento cognitivo e das práticas culturais. Até que ponto já nos libertamos dos nossos preconceitos e ajudamos a construir a sociedade de bem-estar social capaz de inserir, positivamente, no centro do debate aquele que está a margem e é considerado um favelado do conhecimento?

Pensar a partir desse viés, não seria um movimento de, de fato, desregular a sociedade? Mas não sob um interesse do mercado, mas de inclusão sociocultural e de oxigenação cerebral do ser na sociedade contemporânea.

Portanto, a cultura não deve ser usada como instrumento de dominação e controle. Ela deve na verdade, ser a potência máxima de libertação da sociedade. A cultura é a alma e quando ela roubada, o ser, em toda a sua complexidade, deixa de existir. Perde-se a identidade e a essência que constitui o espírito se esvai.

Daí é preciso pensar a centralidade da cultura para além das artes. É preciso construir o pensamento cultural considerando-o como sendo a engrenagem interseccional que cruza as mais distintas categorias da civilização, como o fermento necessário para unir e dar sentido a vida e as pessoas. Ela é resistência, mas também esperança para construção de uma sociedade menos desigual.


*Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Tempos de Cólera – Release

O Projeto BIBNEWS em parceria com a Um Livro, está lançando a obra Tempos de Cólera*. O momento também marca o lançamento do projeto editorial Flor de Sabugueiro.

O livro de Crônicas Tempos de Cólera, foi idealizado e escrito no contexto pandêmico da Covid-19, entre março de 2020 e novembro de 2021.

A obra Tempos de Cólera se deu a partir de textos que representam o cotidiano brasileiro, publicados inicialmente no blog do projeto BibNews. Os textos que lá estão são parte do que encontramos aqui, todavia, com a evolução do material e recepção de várias pessoas a estas produções, me senti na obrigação de que deveria compilar os posts e transformar em um livro.

Nesta obra, foram reunidas 20 Crônicas com diversas temáticas, que em algum momento, influenciaram o meu olhar enquanto pessoa. Aqui será possível encontrar temas que foram sensíveis ao meu mundo subjetivo, especialmente da forma como vejo a sociedade e a vida cotidiana, sem necessariamente estarem presentes nos trending topics de determinada mídia social.

Este livro tem a pretensão de ser o primeiro volume da Trilogia Mundo em Movimento, que também incluirá as obras: Tempos de Esperança (volume 2) e Tempos de Resistência (volume 3).

Assim, leia a obra com carinho e fique a vontade para conversar sobre os motes presentes no livro.

Caso queira adquirir a obra, clique aqui.

Programação de Lançamento**

20ª Feira do Livro de Mossoró, Faculdade de Educação da UERN, 12 a 14 de agosto de 2026.

Créditos do Livro

Projeto Editorial: Flor de Sabugueiro

Projeto Gráfico e Capa: Levore Atelier

Xilogravura da Capa: George Wagner (Mestre Cebolinha)

Imagem de Inspiração da Xilogravura: pixabay.com

Prefácio: Ailton Siqueira de Sousa Fonseca

Revisão Ortográfica: Hionne Câmara e Marcleane Cruz

Marketing Editorial e Literário: bibnews.bib.br

Ficha Catalográfica: Câmara Brasileira do Livro (Aline Graziele Benitez – Bibliotecária – CRB-1/3129)


**Parte deste texto está presente no livro como Apresentação.

*O dia e horário do lançamento ainda serão definidos pela organização do evento.

Mercado editorial independente

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

É complexo analisar o mercado editorial independente, contudo, irei tecer alguns comentários que permitam nos direcionar a uma reflexão mais abrangente e profunda.

Meu olhar dar-se-á através do “quadrado mágico”: Criação, Produção, Política e Mercado.

A primeira categoria, Criação, leva em consideração o processo idealista de pensar, o cenário cognitivo e a materialização do espírito criativo.

O processo de criar envolve alma, afeto e transpiração.

Ao longo da minha trajetória como editor científico e um curioso do mercado de livros comerciais, tenho percebido que, da mesma forma que se tem facilitado o acesso aos meios que auxiliam a trajetória criadora de um potencial escritor, também é cada vez mais difícil ter o conhecimento suficiente ou tempo necessário para transformar ideias em produtos que atendam os interesses da sociedade de consumo. Bem! se é que esse é o interesse do autor!

Muitos acreditam que a tarefa de escrever um livro é uma prática cultural trivial, que não é necessário dedicar uma grande energia para materializar uma criação, seja qual for a finalidade.

Apesar de gostar de contar histórias e se interessar em revelar as fantasias literárias das pessoas, não é todo relato de experiência que pode se transformar em um livro. Não existe uma varinha de condão ou poção mágica que eu manipule e dali saia um livro. Também incluo a isso a controversa Inteligência Artificial Generativa. O processo de criar envolve alma, afeto e transpiração.

Dito isso e percebendo um crescimento vertiginoso do número de pessoas que começaram a rabiscar os seus primeiros inscritos, tem surgido um quantitativo substancial de plataformas que prometem disponibilizar textos ou imprimi-los em um tempo surreal, algo que muitas vezes se torna preocupante, seja do ponto de vista dos direitos autorais ou da distribuição.

Chegamos assim, a nossa segunda categoria, Produção. O processo de produção está diretamente atrelado ao anterior. É parte parte do processo extremamente relevante, mas que também se manifesta como um “gargalo” substancial.

Após finalizarmos e revisarmos o texto, para quem vamos entregar o texto? Em quem confiar? O que fazer com aquele trabalho fruto de suor, insônia, desgaste físico e mental, além da presente ansiedade? Como edito o material? Posso publicar como autoria própria ou terei que mendigar que algum agente literário tenha a sensibilidade de ler?

São muitas perguntas com as quais as respostas não fáceis de se conseguir.

Notadamente, o caminho, supostamente mais adequado é o de ir pela linha editorial independente, alternativa ou mesmo da autopublicação, que guardadas as devidas proporções, todas ainda demandam de uma convenção terminológica para tratar da editoração editorial fora do mainstream literário.

Leitura, antídoto para a desinformação

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Em terra de não leitores, temos um terreno fértil para a desinformação.

O cenário do “mundo da leitura” no Brasil não é animador e causa preocupação.

Ao contrário do que revelam os dados na Europa e na Espanha, onde por exemplo, a média de leitores é de 80 a 90% em alguns países da União Europeia e de 65,5% na Espanha (El Espanol, 2025, tradução nossa, online), no Brasil, na última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, demonstrou ser um país de não leitores.

Segundo o Instituto Pró-Livro (2024, p. 15, online) e a Academia Brasileira de Letras (2025), “[…] 53% das pessoas ouvidas admitiram, que […] não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

“53% das pessoas ouvidas admitiram, que não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

Este dado é ainda mais alarmante se considerarmos a situação da região Nordeste e do Rio Grande do Norte, áreas de onde escreve este editor. Nessa região, apenas 43% das pessoas são considerados leitoras. Já o RN amarga a última posição no ranking entre todos os estados da federação, com um triste percentual de 33% de pessoas que leem.

Na prática, significa que são dados estatísticos estarrecedores, aqui demonstrados pelo Instituto Pró-Livro (2014, p. 21).

Revelados esses dados e cruzados com o cenário global e local do fenômeno da desinformação, essa terra de não leitores, o Brasil, abre margem para um “terreno fértil para a produção e propagação de notícias mentirosas” e do esgarçamento das relações sociais, potencializando o surgimento de cenários de infodemias.

O não acesso a leitura, e por ela a leitura crítica, faz do cidadão um ser vulnerável a consumir registros informacionais e objetos digitais sem tratamento, filtro ou relevância. Isso é piorado se observarmos que a maior parte da população tem planos de dados de internet limitados. Muitos têm apenas condições de abrir pequenos volumes de dados de mensageiros, implicando, caso queiram, a impossibilidade de checar os dados recebidos.

Ter competência crítica para a análise da informação não é uma tarefa trivial, porém, é cada vez mais necessária e urgente, só que para ser favorecido é preciso que as pessoas tenham acesso ao conhecimento registrado confiável. Isso passa necessariamente pelo acesso à leitura, formação de leitores e pela consolidação de comunidades de leitores.

Paulo Freire (1989), em “A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam”, já sinalizava o quão é importante a leitura para transformar pessoas. Mas não apenas uma leituras das palavras. Também seria fundamental uma leitura de mundo.

Paulo Freire, nos conduzia para uma leitura encarnada, uma práxis leitora que levava o ser humano a transformação, induzindo a uma militância intelectual, podendo alterar a mentalidade em direção a um novo compromisso humanitário e formação de uma nova intelectualidade (Gramsci, 1982).

Somos chamados a olhar a leitura para além da leitura, como um antídoto possível para frear esse “mar de desinformação” com o qual estamos imersos.

Vale lembrar que a desinformação não é um fenômeno novo, mas impulsionada pelas milícias digitais que promovem guerras culturais, ela tem alcançado proporções inimagináveis, como a violência simbólica e a física. Para além do cancelamento, as mentiras digitais têm levado a morte.

E de forma dicotômica, os envolvidos diretamente não têm sofrido as sanções devidas, onde já é sabido que o primeiro passo é a regulamentação das mídias digitais, que está nas mãos de grandes conglomerados internacionais e que tem resistido a se adequarem as leis das nações e de suas soberanias.

Se por um lado, temos grupos que estão lutando pela soberania digital, por outro, vemos cada vez mais grupos de pessoas desinformadas, que sob o pretexto da “liberdade de expressão” tem causado medo e dor em milhares de pessoas.

Assim, percebe-se que um possível caminho a ser seguido, é o de pensar em estratégias Estatais que viabilizem práticas leitoras libertadoras, capazes de dar ao ser humano, as ferramentas e condições necessárias para emergirem ao estágio de leitores, primeiro passo de muitos que ainda são importantes para chegar ao nível de leitores críticos.

Ao chegar ao nível de leitores críticos, se permitirá suplantar o analfabetismo ideológico e compreender a importância de valorizar a ética do diálogo, conforme propõe Rocha (2021) na obra “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político”.

Tal importância ocorre no sentido de responder as preocupações expressas por Max Fisher (2023) e Miskolci (2021), respectivamente, com as suas obras “A Máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo” e “Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada”.

Portanto, vê-se que uma das formas de superar o fenômeno da desinformação é através da leitura e da formação de leitores. Apenas com uma forte comunidades de leitores críticos, teremos condição de minimizar os danos causados pelo distópico mundo da pós-verdade.


Referências

CASTRO, Ruy. O país dos não leitores. Rio de Janeiro: ABL, 2025. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 16 jan. 2025. Disponível em: https://www.academia.org.br/artigos/o-pais-dos-nao-leitores#:~:text=S%C3%A3o%20n%C3%BAmeros%20terr%C3%ADveis%2C%20deprimentes%2C%20divulgados,livro%2C%20nem%20mesmo%20em%20parte. Acesso em: 31 jan. 2025.

FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. São Paulo: Todavia, 2023.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51. ed. Cortez: São Paulo, 2017.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. (Coleção Perspectivas do Homem Série Filosofia, 48).

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. 6. ed. São Paulo: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/. Acesso em: 31 jan. 2025.

MISKOLCI, Richard. Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

QUIJANO. F. D. Récord de lectura: los españoles que leen libros en su tiempo libre superan el 65% por primera vez. El espanol, 22 ene. 2025. Disponible en: https://www.elespanol.com/el-cultural/letras/20250122/record-lectura-espanoles-leen-libros-tiempo-libre-superan-primera-vez/918408302_0.html. Consultado en: 30 ene. 2025.

ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos, 2021.

Venha para o BIBNEWS

O BIBNEWS é um projeto que busca refletir, de maneira integrada, a cultura informacional e a história cultural a luz da sociedade contemporânea, a partir de seus potenciais, dilemas e desafios do século XXI.

Nossa intenção é a de produzir conteúdos que provoquem o pensamento crítico, levando às pessoas a superarem os desafios postos pelo fenômeno da guerra cultural, faceta geradora da desinformação, das notícias falsas e do analfabetismo ideológico.

Queremos produzir conteúdos que fortaleçam a integridade da informação, fazendo com que o ser humano, sinta-se no BIBNEWS, confiança informacional e um espaço aberto para promoção da ética do diálogo.

Cordel transforma vidas

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Muitos me perguntam: de onde vem o gosto pelo cordel?

Essa história, até pouco tempo, não tinha uma resposta pronta! Só recentemente, eu parei para pensar sobre o assunto. Fui fazer uma regressão mental! Risos!

Lembrei que, quando criança, de uma história que meu avô materno contou pela metade, mas que só foi possível entender a partir de outros dois fatos: a prática de leitura mediada por ele; e as pesquisas com a literatura de cordel que começara a fazer muitos anos depois, sem a lúcida referência de que as coisas estavam interligadas.

“Vamos por parte”, como diria um clássico clichê cinematográfico.

Meu primeiro contato ocorreu quando criança, ele, o vô João, aos domingos, juntava todos os netos sobre uma esteira de palha após o almoço. Depois que todos estavam acomodados, em forma de círculo ou semicírculo, ele abria a sua surrada mala de madeira e dali ia fazendo a mágica. Retirava dela os seus folhetos e nos mostrava orgulhosamente o seu pequeno acervo.

Na sequência, escolhia um cordel que julgava ser mais impactante, abria-o e começava a folheá-lo. Folha a folha, ele ia narrando a história que estava em suas mãos. Sua capacidade de contar a história nos prendia profundamente, mas não só pela forma de narrar e sim pelo que envolvia a história em si. Mas para nós o que mais importava, talvez fosse o momento, não o objeto.

Ao contrário do que imaginava, foi justamente o objeto, o folheto, que, inconscientemente, me fez mudar de vida em um futuro distante. A figura do contador, a mediação, a apropriação, o cenário e a prática foram importantes, mas não como o objetivo, porque na realidade, foi o objetivo que conseguiu garantir aquele momento.

Dizendo isso, parece que tenho a intenção de inferiorizar o restante, inclusive o meu querido vô João, mas não é o desejo, ao contrário, ele foi o principal ator para que houvesse esse contato.

Temos o primeiro ato.

Um segundo aspecto, ouvi em uma conversa com ele, quando já era adolescente, em uma das minhas muitas visitas de férias a sua casa. As boas prosas aconteciam bem nos finais de tardes, no momento do chá/jantar das 5 horas, onde não poderia faltar peixe grelhado com batata doce. Ele fez a seguinte revelação:

– Meu filho: Uma das coisas que eu mais desejava fazer quando moço era em primeiro lugar, ir à feira no sábado. Lá comprava de um tudo; depois, era o momento para ouvir os poetas e os cantadores. Por causa deles, dava muitas gargalhadas e ficava sabendo das notícias, onde fazia questão de vos agradecer comprando folhetos. Ouvi tudo aquilo e calei. Gostava muito de ouvir as suas inúmeras histórias. Achava que seria só mais uma. Comemos e depois esqueci de tudo! Parece que não!

De forma complementar a este fato, lembrei que em um certo dia a minha mãe relatou o seguinte cenário: Seu avô era muito vaidoso, antes de ir a feira, seu maior evento social, ele fazia toda uma preparação. Colocava a sua melhor roupa, impecavelmente engomada, ficava todo cheiroso e de barba feita. Seus sapatos brilhavam. Ele parecia com aqueles homens bem vestidos de samba de gafieira. Só para ter uma ideia, o seu sapato dava para espelhar o próprio rosto!

Ele saia com as mãos vazias e retornava com a fartura para a nossa casa. De tudo trazia: se realizava, dentre muitas coisas, com o que o célebre Sivuca cantou, com a “Feira de Mangaio”. Dessa feira vinham as bugigangas, o remédio caseiro, as especiarias, roupas, comidas… Eram sacos e mais sacos de ráfia, inclusive com cordéis, esses não poderiam faltar.

Esse relato passou como uma informação aleatória, assim como foi a que ouvi em outra oportunidade, onde mamãe sinalizou: apenas mamãe lia, seu avô era analfabeto! Sua leitura era a do mundo! Não entendi a segunda parte da informação. Mas tudo bem, ouvi aquilo e calei. Naquele momento não me parecia ser algo relevante para a minha vida.

Tempos depois vieram as pesquisas com cordéis. Foi assim na graduação, no mestrado e no doutorado. O estranho é que só após o doutorado eu tenha lembrado com mais detalhes desses momentos. Parecia que eu tinha tido um bloqueio temporal e cognitivo, que por muito tempo me fez esquecer, mas não perder o que estava guardado nas profundezas do cérebro. Parece que ficou guardado em uma caixa preta, esperando que eu chegasse a uma espécie de tempo de ebulição, fazendo emergir aquele silêncio estrondoso, que aconteceu perto dos quarenta anos.

Acredito que dois textos foram relevantes para este destravamento mental, “Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem, de Liêdo Maranhão” e “A importância do ato de ler, de Paulo Freire”, fazendo com eu passasse a me sentir mais perto daquele esquecimento, permitindo que o sentimento de pertença aflorasse como nunca aquelas “pontas soltas”. Aquelas peças de quebra-cabeças aleatórias eram na verdade “migalhas” informacionais que juntas poderiam ser um significado fundamental para a vida, como agora passou a ter.

Liêdo Maranhão traz um profundo retrato do funcionamento das feiras públicas e dos comportamentos e das práticas dos poetas populares nas mesmas.

Paulo Freire fará uma reflexão sobre o papel e importância da leitura de mundo antes mesmo da leitura das palavras.

Essas duas obras irão dialogar intimamente com a representação de mundo percebida e exercida sobre e para o meu avô.

Ele, a partir da sua leitura de mundo e de suas práticas socioculturais, mesmo analfabeto, se apropriou das leituras declamadas e dos repentes cantados e imprimiu ali a sua personalidade, seus anseios, sonhos e desejos, fazendo com que a sua mediação junto aos seus netos, fosse em essência, o resultado das suas experiências com as feiras, a percepção de mundo e a vontade incansável de socializar a sua relação com a leitura na sua forma mais singela, mas não menos triste de contar histórias.

O Contador de histórias, João, que conheci tardiamente, não está mais entre nós para provar as junção de “cacos cognitivos” que fiz e que aqui relatei, mas certamente Liêdo Maranhão e Paulo Freire, assim como Eu, estamos muito felizes o que se pode tirar deste traço de história cultural e dessa literatura, que a longo dos três últimos séculos tem transformado pessoas e presenteado ao Brasil uma estética única e complexa, onde o ser é a história e a história se constrói com rostos, inclusive, os mais humildes e marginais.

O cordel transforma o ser e a vida de quem dele se alimenta e compartilha.

Referências

FREIRE, Paulo. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

MARANHÃO, Liêdo. Classificação popular da literatura de cordel, Que só e Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem. Cepe: Recife, 2015.