Dica de Livro de fevereiro

Trata-se da obra do jornalista, Max Fisher, que tem como título, “A máquina do caos: como as redes sociais reprogramam nossa mente e nosso mundo”. A obra foi editada pela editora Todavia em 2023.

Fonte: canva.com, com edição bibnews.bib.br.

Veja o resumo publicado no site da editora:

As redes sociais são provavelmente o maior experimento coletivo da humanidade. Mas qual o impacto delas no mundo? São ferramentas que apenas refletem a natureza das pessoas, ou estimulam comportamentos extremistas e a disseminação de notícias falsas? A partir dessas perguntas, o repórter investigativo Max Fisher disseca a história e o funcionamento das grandes empresas de tecnologia, e o impacto global das redes na nossa vida. Com um elenco de cientistas, delatores, políticos, teóricos da conspiração e bilionários misantropos, A MÁQUINA DO CAOS derruba a cortina dos likes e compartilhamentos e mostra uma sociedade perigosamente à mercê de forças contrárias a seus interesses.

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Leitura, antídoto para a desinformação

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Em terra de não leitores, temos um terreno fértil para a desinformação.

O cenário do “mundo da leitura” no Brasil não é animador e causa preocupação.

Ao contrário do que revelam os dados na Europa e na Espanha, onde por exemplo, a média de leitores é de 80 a 90% em alguns países da União Europeia e de 65,5% na Espanha (El Espanol, 2025, tradução nossa, online), no Brasil, na última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, demonstrou ser um país de não leitores.

Segundo o Instituto Pró-Livro (2024, p. 15, online) e a Academia Brasileira de Letras (2025), “[…] 53% das pessoas ouvidas admitiram, que […] não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

“53% das pessoas ouvidas admitiram, que não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

Este dado é ainda mais alarmante se considerarmos a situação da região Nordeste e do Rio Grande do Norte, áreas de onde escreve este editor. Nessa região, apenas 43% das pessoas são considerados leitoras. Já o RN amarga a última posição no ranking entre todos os estados da federação, com um triste percentual de 33% de pessoas que leem.

Na prática, significa que são dados estatísticos estarrecedores, aqui demonstrados pelo Instituto Pró-Livro (2014, p. 21).

Revelados esses dados e cruzados com o cenário global e local do fenômeno da desinformação, essa terra de não leitores, o Brasil, abre margem para um “terreno fértil para a produção e propagação de notícias mentirosas” e do esgarçamento das relações sociais, potencializando o surgimento de cenários de infodemias.

O não acesso a leitura, e por ela a leitura crítica, faz do cidadão um ser vulnerável a consumir registros informacionais e objetos digitais sem tratamento, filtro ou relevância. Isso é piorado se observarmos que a maior parte da população tem planos de dados de internet limitados. Muitos têm apenas condições de abrir pequenos volumes de dados de mensageiros, implicando, caso queiram, a impossibilidade de checar os dados recebidos.

Ter competência crítica para a análise da informação não é uma tarefa trivial, porém, é cada vez mais necessária e urgente, só que para ser favorecido é preciso que as pessoas tenham acesso ao conhecimento registrado confiável. Isso passa necessariamente pelo acesso à leitura, formação de leitores e pela consolidação de comunidades de leitores.

Paulo Freire (1989), em “A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam”, já sinalizava o quão é importante a leitura para transformar pessoas. Mas não apenas uma leituras das palavras. Também seria fundamental uma leitura de mundo.

Paulo Freire, nos conduzia para uma leitura encarnada, uma práxis leitora que levava o ser humano a transformação, induzindo a uma militância intelectual, podendo alterar a mentalidade em direção a um novo compromisso humanitário e formação de uma nova intelectualidade (Gramsci, 1982).

Somos chamados a olhar a leitura para além da leitura, como um antídoto possível para frear esse “mar de desinformação” com o qual estamos imersos.

Vale lembrar que a desinformação não é um fenômeno novo, mas impulsionada pelas milícias digitais que promovem guerras culturais, ela tem alcançado proporções inimagináveis, como a violência simbólica e a física. Para além do cancelamento, as mentiras digitais têm levado a morte.

E de forma dicotômica, os envolvidos diretamente não têm sofrido as sanções devidas, onde já é sabido que o primeiro passo é a regulamentação das mídias digitais, que está nas mãos de grandes conglomerados internacionais e que tem resistido a se adequarem as leis das nações e de suas soberanias.

Se por um lado, temos grupos que estão lutando pela soberania digital, por outro, vemos cada vez mais grupos de pessoas desinformadas, que sob o pretexto da “liberdade de expressão” tem causado medo e dor em milhares de pessoas.

Assim, percebe-se que um possível caminho a ser seguido, é o de pensar em estratégias Estatais que viabilizem práticas leitoras libertadoras, capazes de dar ao ser humano, as ferramentas e condições necessárias para emergirem ao estágio de leitores, primeiro passo de muitos que ainda são importantes para chegar ao nível de leitores críticos.

Ao chegar ao nível de leitores críticos, se permitirá suplantar o analfabetismo ideológico e compreender a importância de valorizar a ética do diálogo, conforme propõe Rocha (2021) na obra “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político”.

Tal importância ocorre no sentido de responder as preocupações expressas por Max Fisher (2023) e Miskolci (2021), respectivamente, com as suas obras “A Máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo” e “Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada”.

Portanto, vê-se que uma das formas de superar o fenômeno da desinformação é através da leitura e da formação de leitores. Apenas com uma forte comunidades de leitores críticos, teremos condição de minimizar os danos causados pelo distópico mundo da pós-verdade.


Referências

CASTRO, Ruy. O país dos não leitores. Rio de Janeiro: ABL, 2025. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 16 jan. 2025. Disponível em: https://www.academia.org.br/artigos/o-pais-dos-nao-leitores#:~:text=S%C3%A3o%20n%C3%BAmeros%20terr%C3%ADveis%2C%20deprimentes%2C%20divulgados,livro%2C%20nem%20mesmo%20em%20parte. Acesso em: 31 jan. 2025.

FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. São Paulo: Todavia, 2023.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51. ed. Cortez: São Paulo, 2017.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. (Coleção Perspectivas do Homem Série Filosofia, 48).

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. 6. ed. São Paulo: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/. Acesso em: 31 jan. 2025.

MISKOLCI, Richard. Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

QUIJANO. F. D. Récord de lectura: los españoles que leen libros en su tiempo libre superan el 65% por primera vez. El espanol, 22 ene. 2025. Disponible en: https://www.elespanol.com/el-cultural/letras/20250122/record-lectura-espanoles-leen-libros-tiempo-libre-superan-primera-vez/918408302_0.html. Consultado en: 30 ene. 2025.

ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos, 2021.

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Dica de Livro de janeiro

BIBNEWS divulga Dica de Livro para o mês de janeiro.

Trata-se da obra do historiador e professor, João Cezar de Castro Rocha, que tem como título, “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político”. A obra foi editada em Campinas pela editora Caminhos em 2021.

Fonte: canva.com, com edição bibnews.bib.br.

Veja o resumo publicado pela editora no site da amazon.com.

Guerra cultural e retórica do ódio é um ensaio escrito em prosa literária e que oferece uma descrição inovadora do bolsonarismo, entendido em sua dinâmica própria. Um dos pontos altos do livro é a análise da escalada golpista nos meses de abril e maio de 2020, assim como a previsão de novas tentativas, intrínsecas ao projeto autoritário.O bolsonarismo implica uma visão de mundo bélica, expressa numa linguagem específica, a retórica do ódio, e codificada numa estrutura de pensamento coesa, composta por labirínticas teorias conspiratórias. O livro desvenda cada um desses elementos.A visão de mundo bélica supõe a atualização da Lei de Segurança Nacional (LSN) em tempos democráticos – e são ameaçadoras as consequências desse gesto. Durante a formação do jovem militar Jair Messias Bolsonaro, estava vigente a LSN promulgada em 1969. Em seus 107 artigos, o substantivo morte aparece 32 vezes e 15 artigos prescreviam a pena de morte. O eixo dessa LSN era a identificação do inimigo interno e sua eliminação imediata. Eis aí o cerne da mentalidade bolsonarista.No entanto, como identificar com segurança o inimigo? Orvil, o projeto secreto do Exército, concluído em 1988, esclarece: trata-se do comunismo, do “perigo vermelho” e sua incomum capacidade de infiltração por meio do aparelhamento das instituições. No século XXI, a receita teve acréscimos com a pauta reacionária dos costumes, corporificada na crítica à “ideologia de gênero”. Daí, o modelo desastroso de um governo enquanto arquitetura da destruição, pois é como se destruir instituições “aparelhadas” fosse mais importante do que governar.Rumo à estação Brasília, o que faltava? Linguagem: a retórica do ódio; o idioma do sistema de crenças Olavo de Carvalho. A retórica do ódio é a mais completa tradução da LSN de 1969, limitando o outro ao papel de inimigo a ser destruído. É o reino desencantado do vale-tudo travestido de filosofices, xingamentos e desqualificações. O resultado: caos cognitivo, analfabetismo ideológico e a idiotia erudita: elementos que definem as massas digitais bolsonaristas, criadoras da pólis pós-política.O livro propõe uma série de conceitos novos, a fim de criar linguagem para dar conta da complexidade do agônico cenário contemporâneo. A produção da direita e da extrema-direita é analisada em detalhes, incluindo livros, artigos, textos de blogs, vídeos, documentários, postagens nas redes sociais, num esforço inédito para a caracterização da retórica extremista. O autor desenvolveu um método para lidar com esse material: a etnografia textual, com o objetivo de reconstruir a lógica própria a seus discursos. O olhar etnográfico se completa na proposta de uma ética do diálogo, que valoriza a diferença como fonte de enriquecimento.O autor formula o paradoxo que anuncia um colapso: o êxito do bolsonarismo significa o fracasso do governo Bolsonaro. Sem guerra cultural, não se mantém as massas digitais mobilizadas em constante excitação; contudo, a guerra cultural, pela negação de dados objetivos, não permite que se administre a coisa pública.Por fim, no post-scriptum o autor analisa a fracassada escalada golpista de Donald Trump, mostrando os limites dos “fatos alternativos” diante de um Judiciário independente; salvo engano, lição fundamental para o Brasil de Jair Messias Bolsonaro.O livro conta ainda com um posfácio do jovem editor e historiador Cláudio Ribeiro intitulado “‘Da urgência do agora à caracterização da ágora’: o momento etnográfico de João Cezar de Castro Rocha”, apresentando uma reflexão acerca da metodologia inovadora do autor em relação às preocupações desenvolvidas desde seu primeiro livro, Literatura e cordialidade: o público e o privado na cultura brasileira (1998).Guerra cultural e retórica do ódio é um livro que permitirá entender a cena brasileira atual com novos olhos: um ensaio urgente, no calor da hora.

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