O Pomar das almas perdidas: quando outras mulheres se tornam abrigo

Por Dra. Zildenice Guedes*

Chego à esse espaço com muita alegria e responsabilidade, afinal, a leitura e escrita ocupam um lugar especial e singular em minha vida. Sendo assim, muito me honra estar aqui e compartilhar com vocês leituras, textos, escritas, retalhos e mosaicos do que sou e do que me tece enquanto ser humano. 

Em minha coluna vou procurar trazer sempre sugestões de leituras e literaturas que possam ser um farol em tempos tão difíceis e desafiadores como esses que estamos vivendo. Se me permitem, vou falar um pouco de mim para que entendam a dimensão que a leitura e a escrita têm em minha vida. Sou uma mulher que quando criança, fui criada por uma mãe solo em condições socioeconômicas muito difíceis, então, mesmo a minha mãe sendo uma mulher analfabeta, ela trazia para mim os livros e cadernos que as patroas (ela era empregada doméstica) iam jogar fora. Então, mesmo com muitas dificuldades, eu sempre tinha livros à minha volta e eu sempre gostei muito de ler. Então, a leitura foi se tornando um hábito e uma tábua de salvação em minha vida. Foi graças à leitura que eu me permitir sonhar e imaginar outros mundos. Conto essa história para que vocês entendam que tenho prazer pelos livros, de praticamente todos os gêneros, desde os literários (afinal, literatura e arte sempre nos salvarão em meios ao caos), até os acadêmicos. E é essa paixão pelos livros que me colocaram diante do livro que sugiro hoje para vocês. Encontrei o “Pomar das almas perdidas” em uma feira de livros, se não me engano ele custou apenas R$15,00, mas, acreditem, é uma das melhores literaturas femininas que já li esse ano. 

A história se passa na Somália e conta sobre os efeitos da guerra civil iniciada em 1991 e o que esse evento vai provocar na vida de três personagens mulheres que se entrelaçam em decorrência da violência e da barbárie que se abate sobre esse povo. A escritora de origem somali-britânica, Nadifa Mohamed é precisa e assertiva na escrita e profundidade dos personagens. Ela traz em sua obra, mulheres de diferentes contextos e variadas condições socioeconômicas, mas todas, atravessadas pela violência de gênero e pela banalidade da extrema crueldade. Ao ler nos deparamos com o fato de que para muitas de  nós mulheres nos momentos mais difíceis, só teremos outras mulheres que também estão aos cacos, mas deixar a outra para trás não é uma opção. Ao mesmo tempo, em que outras mulheres serão capazes de reproduzir atos de violência e extrema desumanidade que muitas de nós julgávamos impossível. Uma menina órfã, sem lar, sem referências, completamente abandonada à própria sorte, uma mulher viúva e sem filhos, a sua filha foi vítima da violência militar e uma soldado desertora se encontrarão de uma forma inimaginável e conseguirão mesmo aos retalhos e em pedaços, se agarrarem umas às outras para formarem a única família possível, a que nasce do caos da guerra, de perdas e ausência, dos destroços que uma guerra deixa no solo, no ar, nas cidades e na alma de todos os que são vítimas de conflitos e guerras que quase sempre, não escolheram trilhar, mas têm suas vidas arrebatadas, tomadas pela violência e pelo ódio ao outro. 

A menina que não teve infância, afeto e segurança, a viúva que foi muito amada pelo marido e que ao perder a filha, perde completamente o sentido da vida e a soldado que foi criada para obedecer aos homens e lutar pela guerra que eles escolhem, têm suas vidas entrelaçadas em um enredo fantástico, muito humano e emocionante. A escritora explora com muita maestria as contradições do humano em suas personagens. Mesmo essas mulheres tendo ao longo de suas vidas passado por experiências de trauma profundo, encontram uma na outra esperança, coragem e afeto. Para elas, a vida é possível mesmo diante dos escombros em termos materiais e emocionais. 

Espero que leiam o Pomar das almas perdidas e se permitam ser tocados por Nadifa Mohamed, e suas personagens incríveis Deqo, Kawsar e Filsan!


*Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).