Maria das Neves Batista Pimentel: a mulher por trás de Altino Alagoano

por Dra. Sandra Lage*

Nascida em 2 de agosto de 1913 e registrada em 12 de agosto do mesmo ano, data associada à celebração de Nossa Senhora das Neves, Maria das Neves Batista Pimentel ocupa posição relevante na história da literatura de cordel brasileira. Em 1938, publicou o folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade sob o pseudônimo masculino Altino Alagoano, tornando-se uma das pioneiras da autoria feminina no gênero.

Maria das Neves Batista Pimentel integra o grupo das primeiras mulheres a publicar literatura de cordel no Brasil, em um período em que essa produção era predominantemente masculina. Seu folheto O violino do diabo ou o valor da honestidade é considerado, pela bibliografia especializada, o primeiro cordel impresso de autoria feminina de que se tem registro. A adoção do pseudônimo Altino Alagoano possibilitou a publicação da obra em um contexto editorial que restringia a participação das mulheres.

Filha do poeta, editor e tipógrafo Francisco das Chagas Batista, Maria das Neves cresceu em um ambiente diretamente ligado à produção, à impressão e à comercialização de folhetos. Essa convivência favoreceu seu contato com a literatura de cordel e com as práticas editoriais desde a infância.

Sua atuação ocorreu em uma sociedade marcada por normas patriarcais que limitavam a participação feminina nas atividades intelectuais e editoriais. Nesse contexto, a publicação de obras por mulheres encontrava resistência, levando algumas autoras a adotar pseudônimos masculinos para ampliar as possibilidades de circulação de seus textos. O uso do nome Altino Alagoano evidencia essas restrições no mercado editorial do cordel durante a primeira metade do século XX.

Os folhetos de Maria das Neves abordam temas recorrentes da literatura de cordel, como religiosidade, honra, valores morais e relações familiares. Sua obra caracteriza-se pela adaptação de romances, contos e narrativas tradicionais para a linguagem do cordel, preservando elementos formais do gênero, como a organização em versos, a métrica, as rimas e a estrutura narrativa. Essas características refletem as práticas editoriais e o perfil do público leitor da época.

Embora seus textos não apresentem contestação explícita à ordem social vigente, sua atuação possui relevância histórica por representar uma das primeiras experiências de autoria feminina na literatura de cordel impressa. Sua produção demonstra que mulheres participaram desse campo desde as primeiras décadas do século XX, ainda que tenham permanecido por longo período com reduzida visibilidade na historiografia literária.

Nas últimas décadas, estudos sobre literatura de cordel, autoria feminina e história editorial ampliaram o conhecimento sobre a obra de Maria das Neves Batista Pimentel. Essas pesquisas contribuíram para consolidar sua importância na história do cordel brasileiro e ampliar o reconhecimento de sua contribuição para o gênero.

A participação feminina na produção de cordéis tem crescido nas últimas décadas, especialmente após o reconhecimento da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo IPHAN, em 2018. Atualmente, mulheres atuam na produção de folhetos, na pesquisa, na formação de leitores e na difusão do cordel em escolas, universidades, eventos culturais e ambientes digitais.

As cordelistas contemporâneas preservam características estruturais do gênero, como métrica, rima e oralidade, ao mesmo tempo que diversificam os temas e os espaços de circulação de suas obras. Esse movimento evidencia a ampliação da participação feminina na produção e na difusão da literatura de cordel.

Nesse contexto, Maria das Neves Batista Pimentel permanece como uma referência para os estudos sobre a história da literatura de cordel. Sua trajetória documenta uma das primeiras experiências de autoria feminina no gênero e contribui para compreender a participação das mulheres na formação, na preservação e na continuidade dessa tradição literária brasileira.


* Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Londrina (UEL).


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