Brindemos aos 64 anos de Psicologia no Brasil?

Por Dra. Julita Sena*

Parte desse escrito foi elaborada em agosto de 2024, para uma das ocasiões celebrativas dos 62 anos de regulamentação da Psicologia no Brasil. Estive em um auditório falando para um público majoritariamente de estudantes de Psicologia, bem como psicólogos e psicólogas. Interesses e abordagens diversas, mas talvez com um ponto em comum a todos e todas: saber e/ou discutir sobre os desdobramentos do exercício da nossa profissão.

Como inicio a minha coluna no mesmo mês, considerei mais do que pertinente acessar os pensamentos, ideias, (in)compreensões e devaneios que me ocorreram há dois anos atrás. Seriam as mesmas inquietudes? Adiciono novas questões? Sigo determinada a servir ao meio com o que esses saberes me suscitam? O que espero de mim e dos meus pares e dos que podem se beneficiar com as nossas práticas?

Quero desde já registrar a satisfação sentida com a proposta deste espaço. Que o mesmo possa ser de trocas e via de produção de novas coisas. Aceitei de imediato o convite para ter acesso ao público que está fora dos espaços por onde circulo e para desbravar realidades diversas às que se passam dentro das quatro paredes do meu consultório.

Chegamos ao 64º aniversário da regulamentação da Psicologia enquanto profissão no nosso país. Dedos apontados para os conselhos federal e regionais, queixas, insatisfações, muitas críticas e demandas infinitas. Sem titubear, acredito que a maioria são pertinentes… Outras nem tanto, pois se perdem quando invalidam ou subestimam a história de luta que se tornou marca dessa categoria!

Antes de nós, muitos lutaram pelos lugares que hoje ocupamos, pelo reconhecimento científico que a tantos e tantas envaidece, dedicação à causas sociais, combatentes das diferenças e preconceitos, em defesa das diversidades, respeito à pluralidade. Ressaltemos que a nossa pauta no que há de mais subjetivo em cada um, entre as diretrizes pelas quais a Psicologia se fez focada na saúde mental, emocional, psíquica; no direito de ser singular.

Foi assim que ao longo de mais de 6 décadas passamos a abranger nos campos e mostramos a que viemos. Do consultório clínico às escolas, dos hospitais às organizações, dos esportes às universidades, dos livros aos artigos, dos nossos estudos aos nossos feitos. São orientações – ou se preferirem- abordagens também diversas. São possibilidades de condução teórica e prática que se diversificam entre congruências e cisões. Diante desse panorama, mostramos que tem sido feito um necessário trabalho! Com falhas, faltas, desejo de mais e levantamentos de interrogações.

Atenção! Para além disso, está a pertinência em olhar para o que nos cabe de um modo mais íntimo, mas também ético com o propósito. Quem está em curso nos seus processos e acompanhamentos pessoais? Não falo sobre “terapia em dia”, mas sim em responsabilidade sobre o manejo daquilo que lhe pertence irrefutavelmente. O que tem levado a adotar determinada “abordagem” como sendo a de interesse? Por gentileza, se inteire bem sobre.

Na sua época e em nosso tempo, Freud faz a sua história, resistindo às críticas apelativas, como nos diria Elisabeth Roudinesco (2014).  É a Psicanálise freudiana que fundamenta o meu percurso de vida. Contudo, diferentemente de alguns psicanalistas, não me ocupo em deturpar outros saberes, “quiçá” a Psicologia. Me dedico com o afinco que posso às vias de conhecimento que ampliam o meu campo de percepção, leitura, conhecimento e interpretação de mundo e do homem. Atenta ao que há de específico em cada área, aos meus interesses e àquilo em que acredito.

Como vocês identificam aqueles ou aquelas que têm se tornado referências no campo de atuação? Vocês se permitem olhar para tais com respeito, mas também com o senso crítico necessário? Como vocês veem o uso e abuso das redes sociais na contemporaneidade? Dá para ter acesso à coisas interessantíssimas, mas também nos colocam diante de uma série de distorções e conflitos éticos.

Em tempos de vida prática e aparentemente feliz, o show business acontece de um modo descompromissado com as nossas questões e intimidade e, infelizmente, são muitos os ditos psis corroboram com esse movimento. Entregam promessas, propõem um serviço simplório, disponibilizam links nas redes que mais parecem um portal rumo ao paraíso. Isso seria mesmo fazer Psicologia?

Por falar em iniciativas apelativas, ressalto a minha preocupação e engodo com a dinâmica atual de psicólogos e psicólogas que enfatizam o viés capitalista e mercadológico, o qual me atrevo a relacionar com o entendimento de Christian Dunker e Cláudio Thebas (2017) de que estamos progredindo na nossa individualização com a busca desenfreada por resultados visíveis a olho nu e passíveis de mensuração, mas corremos o risco de comprometer até mesmo a nossa escuta e relação consigo e com o outro. No cuidado com os que chegam, o que importa é a reversão, resolução, diretrizes classificatórias e “engessamento” do ser?

Os CIDs estão tomando de conta dos relatórios e dos discursos. Parecem se sobrepor ao que se passa no íntimo, na vida própria e no inconsciente. Por isso, questiono: “Para onde estamos indo?”. Na lei da oferta e da procura, não podemos esquecer de que cada um é o verdadeiro protagonista do que lhe ocorre. A prosperidade está na completude, na integridade e nos elos que fazem com que sejamos quem somos.

Christian Dunker(2017), nos provoca a reconsiderar as tratativas atuais de manejo do sofrimento, para que possamos estar mais amadurecidos em relação às nossas habilidades e capacidades de lidar com o que é inexorável à existência e, assim, nos permitir a chorar, sentir, sofrer, adoecer e até mesmo morrer. Ou seja, para que se faça o bom exercício de ser totalmente honesto consigo mesmo, como já recomendava Sigmund Freud.

Isso nos permite refletir sobre a inserção do luto na Classificação Internacional de Doenças como um transtorno. Sofrer em um processo intensificado pela importância da pessoa perdida tem suas características elencadas como via de adoecimento. Longe de questionar os avanços médicos e científicos; apenas convoco psicólogos e psicólogas a assumirem os seus devidos lugares na construção de parcerias. Não somos submissos. O nosso dever requer insubmissão.  

Angústias não são homogêneas. Del-Volgo (1998), psiquiatra, psicanalista e professora da Universidade de Marselha (França), destaca a importância de se escutar o que está na fala do paciente, a singularidade do seu discurso e daquilo que acontece consigo. Sendo assim, é reduzido o risco de despojá-lo do que lhe pertence e minimizar o sujeito apenas à uma função epidemiológica. Somos todos e todas muitas coisas antes e apesar de.

Como trazia no início dessas colocações; hoje mais do que nunca, estamos em vários lugares, com afazeres múltiplos, entre equipes multiprofissionais e interdisciplinares. Assumimos a responsabilidade de avançar em nossos feitos. Portanto, é dever nosso atuar de forma que valide os alcances à base de muito suor que atravessam os anos. Confesso que ao mesmo tempo que entendo ser válido uma postagem no Instagram que nos relembre do sigilo como elemento de nossa prática, me assusta as tantas vezes que vejo e sinto que isso precisa ser reforçado. Um exemplo simples, recorrente e grave.

Não vamos esquecer dos fenômenos da existência, da multiplicidade dos comportamentos, do inconsciente peralta, da transpessoalidade do homem, das análises possíveis sobre o mesmo e, principalmente, do nosso compromisso de não privatizar a melhoria da alma, como falava Byung-Chul Han. Já nos basta a anestesia social que vem reprimir verdades e impedir conhecimentos. Encerro com essa recomendação para que seja possível ofertar e receber da Psicologia o que esta preconiza.


* Psicóloga clínica (CRP-17/2145) e psicanalista. Doutora em Psicologia com pós-doutorado em Ciências Sociais e Humanas.


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