Blog chega a 200 mil acessos

por Mário Gaudêncio

É com muito orgulho que informamos que o blog bibnewsbr chegou a 200 mil acessos.

Significa dizer que apesar de ser um blog de nicho, ele tem prestado um importante serviço à sociedade, que é onde informar com zelo, esmero, cuidado e sensibilidade.

Vamos em frente!

Bicharada

Cachorros latem,
gatos miam,
corujas chirriam
e sapos coacham.

Parece que estamos falando da fazenda,
mas tratamos é da biblioteca,
pois aqui, a diversidade vai além da imagem letrada.
Deles, temos um coro animal, como num conto de fadas.

Todos, mais cedo ou mais tarde,
encontram pai, mãe, padrasto ou madrasta,
padrinho, madrinha, compadre e comadre.

Ganham nomes e sobrenome,
tem Orlando Teixeira, She-Ra e Amarelão,
morando numa mansão e adquirindo status de madame.

Mário Gaudêncio, 04 set. 2019.

Olhar indiscreto

Quando a visão se permitiu
o murmurar iniciou
uma gralha surgiu
e a fofoca emergiu.

Se ele apenas tivesse se contentado
com àquela visão individual
e fechado a para boca para tal
ninguém teria ficado afetado.

Brotou um olhar teleguiado
junto a um cochicho para o colega do lado,
fazendo com que todos ficassem ouriçados.

Ninguém mais trabalhou
olhando para àquela cena
por causa de um indivíduo que a provocou.

Mário Gaudêncio, 04 set. 2019.

Abuso de pudor

Quando no nada
não se ouve fala,
surgem pessoas
que me calam.

Se paz eu esperava,
tudo a frente se mostrava.
Pensei: De boca aberta babando ficava
ou: discreta ou indiscretamente atuava?

Eles, eroticamente queriam se mostrar
por um copioso e abusado momento atuar.
onde: sem lenço nem documento queriam se apresentar.

Êxtase e ousadia,
na maior tranquilidade,
eles, em um grande affair se entrelaçariam.

Mário Gaudêncio, 03 set. 2019.

Literatura de cordel: patrimônio cultural brasileiro

por Mário Gaudêncio

É sabido que historicamente a literatura de cordel emerge e se consolida no Brasil a partir da região nordeste, seja em virtude da conjuntura social que se tinha na época ou pela lacuna cultura que se fortalecia cotidianamente em virtude do que se vinha sendo produzido no país em certa medida não refletir os anseios do povo do nordeste.

Ao longo de todo esse tempo, especificamente a partir do final do século XIX, a literatura de cordel tem passado por inúmeras transformações, sejam elas estéticas ou editoriais. Viveu o momentos de ascensão, declínio e adaptação ao mundo pós-moderno.

Hoje, ao olhar para o passando, percebe que a sua natureza simbólica e estética evoluiu como uma possibilidade cultural que transcende a discurso raso a respeito do seu lugar na memória coletiva do povo brasileiro.

O cordel tem se mostrado como uma forma de expressão contemporânea que transcende limites ou barreiras. É um instrumento que a todo momento interage com a cultura e a sociedade. Influencia e é influenciado. Não é a toa que o traços da literatura de cordel podem ser encontrados na nas mais diversas manifestações de arte.

Neste sentido, isso nos leva a considerar que a literatura de cordel chegou a um patamar onde não se tem mais espaço para estigmatizá-la como subliteratura ou que ela produz apenas artefatos rudimentares de uma tradição iletrada.

Ao contrário disso, ela vai muito mais além, mas que em essência, sempre esbarrou no poder simbólico nas relações institucionalizadas que, de maneira sectária segregou a literatura de cordel a uma cultura que deveria ser entendida no máximo como popular.

Isso vai de encontro ao que se entende por cultura, onde o ato de hierarquizar contribui diretamente para segregar, um povo, uma forma de pensar, um meio de manifestar.

É esperado que, com o parecer do IPHAN, mesmo que tardiamente reconhecido, é importante a literatura de cordel enquanto patrimônio cultural brasileiro, que também sejam pensadas políticas públicas além da salvaguarda das produções intelectuais, mas que se tenha em vista solucionar questões ainda distantes de ser equacionadas, como:

a) Contrapor o discurso cristalizado de que o cordel é uma subliteratura;

b) Que sejam criadas políticas afirmativas econômicas de apoio a subsistência humana dos cordelistas, pois dificilmente estes conseguem viver das suas produções intelectuais;

c) Que se perceba a necessidade e importância de criar uma política cultural frente ao processo produtivo a partir de um mercado editorial capaz de editar, divulgar, distribuir e comercializar as obras intelectuais dos poetas com ética e lisura;

d) Que sejam definidas estratégias para que os familiares possam usufruir da propriedade intelectual dos cordelistas após seus falecimento.

É bem verdade que, a luta pela preservação da memória coletiva e democratização do acesso aos conteúdos originários dos cordéis alcançaram avanços significativos, seja em meio analógico (impresso) ou em ambiental digital (caso dos cibercordéis), contudo, ainda há um percurso longo a fazer, especialmente quando se remete a dar voz àqueles são silenciados, dentro ou fora do próprio domínio ou rede social.

Portanto, vê-se como salutar e necessário, o reconhecimento institucional do IPHAN para essa fonte informação (complexa e inesgotável), todavia, é de extrema importância que essa chancela seja o início de uma virada cultural no Brasil para um gênero que precisa ser antes de qualquer coisa, reconhecido como uma faceta literária sem insinuações de reducionismos positivistas ou relativismos que contribuem negativamente para uma retração e limitação na forma de vê o mundo a partir dos ditos cânones.

O momento é de oportunizar a diversidade e pluralidade cultural e estreitar os laços entre os mundos literários, podendo assim, vir a reduzir o frágil e limitado discurso em torno da relação, que ao meu ver é insipiente, entre a ideia de cultura erudita versus cultura popular.

Uma outra literatura é possível?

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

O texto escrito pelo Jornal El País por António Jimenez Barca intitulado “A literatura brasileira muito além do futebol e do samba”, nos provoca a fazer várias reflexões, dentre elas, está a necessidade de nos perguntar para quem escrevemos e que tipo de literatura precisamos oportunizar.

Muitas vezes, ficamos “amarrados” a ideia de uma literatura “erudita”, seletiva e bairrista que é destinada a poucos, seja por questões de classe, pessoal ou de limitação do pensamento editorial.

Mesmo após 500 anos da invasão portuguesa ao Brasil, continuamos visualizando que o acesso ao conhecimento é limitado e personificado de intenções ideológicas que ainda estão distantes para integrar de fato o país.

O Estado continua aprofundando dividendos históricos que dificilmente serão equacionados, seja por uma questão conjuntural ou por ausência de motivação política.

É preciso que sejam criadas verdadeiras políticas literárias de inclusão, tanto voltadas aos escritores quanto aos leitores. É preciso favorecer uma escrita literária plural, onde os mais diversos rostos da sociedade tenham espaço na cadeia produtiva da dinâmica artística nacional.

Estas barreiras refletem a estrutura educacional e cultural vigente, onde poucos podem escrever e/ou ter acesso as produções artísticas.

Portanto, enquanto não for promovida uma política literária expansiva, integradora e incluidora, não teremos um país plural e que consiga expressar o pensamento da coletividade brasileira. Precisamos de escolas, bibliotecas, universidades, centros culturais, ONGs e outras que respeitem a diversidade nacional, fazendo com que a criação intelectual seja de fato de e para todas e todos.

Texto inspirado na reportagem de António Jimenez Barca, no Jornal El País. O artigo está disponível para leitura na íntegra. Acesse.

REFERÊNCIA

BARCA, António Jimenez. A Literatura brasileira muito além do futebol e do samba. Jornal El País, 31 jul. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html>. Acesso em: 01 ago. 2016.