Uma outra literatura é possível?

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

O texto escrito pelo Jornal El País por António Jimenez Barca intitulado “A literatura brasileira muito além do futebol e do samba”, nos provoca a fazer várias reflexões, dentre elas, está a necessidade de nos perguntar para quem escrevemos e que tipo de literatura precisamos oportunizar.

Muitas vezes, ficamos “amarrados” a ideia de uma literatura “erudita”, seletiva e bairrista que é destinada a poucos, seja por questões de classe, pessoal ou de limitação do pensamento editorial.

Mesmo após 500 anos da invasão portuguesa ao Brasil, continuamos visualizando que o acesso ao conhecimento é limitado e personificado de intenções ideológicas que ainda estão distantes para integrar de fato o país.

O Estado continua aprofundando dividendos históricos que dificilmente serão equacionados, seja por uma questão conjuntural ou por ausência de motivação política.

É preciso que sejam criadas verdadeiras políticas literárias de inclusão, tanto voltadas aos escritores quanto aos leitores. É preciso favorecer uma escrita literária plural, onde os mais diversos rostos da sociedade tenham espaço na cadeia produtiva da dinâmica artística nacional.

Estas barreiras refletem a estrutura educacional e cultural vigente, onde poucos podem escrever e/ou ter acesso as produções artísticas.

Portanto, enquanto não for promovida uma política literária expansiva, integradora e incluidora, não teremos um país plural e que consiga expressar o pensamento da coletividade brasileira. Precisamos de escolas, bibliotecas, universidades, centros culturais, ONGs e outras que respeitem a diversidade nacional, fazendo com que a criação intelectual seja de fato de e para todas e todos.

Texto inspirado na reportagem de António Jimenez Barca, no Jornal El País. O artigo está disponível para leitura na íntegra. Acesse.

REFERÊNCIA

BARCA, António Jimenez. A Literatura brasileira muito além do futebol e do samba. Jornal El País, 31 jul. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html>. Acesso em: 01 ago. 2016.

Biblioteca Nacional publica edital para coedições

por Mário Gaudêncio

A Fundação Biblioteca Nacional lançou edital para estabelecimento de parcerias e coedições.

Segundo a Biblioteca Nacional (2015, online), “O edital visa a formação de parcerias para desenvolvimento de projetos editoriais sob a forma de coedição, para promover publicações de relevância para a cultura brasileira, na forma de livro ou revista, impresso e/ou digital. O propósito é divulgar, valorizar e ampliar o acesso ao patrimônio bibliográfico, iconográfico, sonoro e digital da Fundação Biblioteca Nacional, além da produção intelectual produzida sobre práticas laborais, de pesquisa e acervos sob a guarda da instituição”.

Baixe o edital para analisar as peculiaridades desta chamada pública.

Para informações, acesse a site da BN.

A Terra dos meninos pelados – Graciliano Ramos: uma releitura do texto literário em realção à sociedade

Sale Mário Gaudêncio
Marcel Lúcio Matias Ribeiro

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Segundo Ramos (apud Lajolo e Zilberman, 2005, p.44) “não tentei cair em três armadilhas comuns nas histórias infantis de que me lembro: na de tom piegas ou sentimental; nenhuma referência concreta ao chamado mundo real (é um conto ‘maravilhoso’); nenhuma distinção precisa entre crianças e adultos”. Graciliano promove olhares infanto-juvenis a partir de inquietações que precisam ser comungadas. Às vezes, leituras ficam sobre as cortinas de fumaça que impregnam o viver nordestino, sufocando as entrelinhas que devem ser regojizadas. De acordo com Lajolo e Zilberman (2005, p.67) “De um modo ou de outro se enraíza uma tradição – a de proposição de um universo inventado, fruto, sobretudo da imaginação, ainda quando esta tem um fundamento social e político”. Para tanto, por que escrever uma obra infante onde tem como protagonista do enredo um menino da cabeça pelada, com olhos de cores díspares? Por que um menino diferente de todos? Por que a vergonha para uma criança? Assim, é Raimundo “pelado”.

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REFERÊNCIA

GAUDÊNCIO, S. M. ; RIBEIRO, M. L. M. . ‘A Terra dos Meninos Pelados’ – Graciliano Ramos: uma releitura do texto literário em relação à sociedade, 1., In: COLÓQUIO NACIONAL DE LINGUAGEM E DISCURSO, 2008, Mossoró-RN. Anais… Mossoró-RN: UERN, 2008. p. 1-10. Disponível em: <http://anaisdoconlid1.blogspot.com.br/2011/09/grupos-de-trabalho-gts-gt-1.html>. Acesso em: 14 jul. 2013.

Cai à chuva, desaba Mossoró

Chuva que cai em Mossoró,
é torrencial.
Um toró,
infinitamente descomunal.

A realidade da terra do sol e do sal
Deixa de ser incandescente
A mente, de quente
a uma opacidade estridente.

Névoa, cegueira e buracos.
Presenciamos uma insanidade aquática,
amarga que deixa a cidade aos trapos.

Se chuva é entendida como benção,
Em Mossoró é concebida como maldição,
Os governantes delas não gostam, fica a destruição.

Mário Gaudêncio e Hiara Câmara
Lampejos tardios de um inverno invisível.
Mossoró, 20 de abril de 2013.

Representar

Representar a informação,
é uma arte, uma disciplina ou técnica?
Na verdade, é magia.
É uma forma de manifestação.

A representação transforma
Linguagem natural
numa surpreendente
Forma de Linguagem artificial.

Linguagem que se transforma,
Em tesauros e vocabulários
em glossários e classificações bibliotecárias.

Representar é organização,
favorece a preservação da memória
e potencializa a disseminação.

Mário Gaudêncio
Parnamirim, 25 de outubro de 2011
Homenagem a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)

NUTSECA

NUTSECA
Nutre-se da seca
Seca que nutre
Núcleo de seca.

Sertão semiárido
Que serpenteia a vida
Aperreia a fome
E entristece a lida.

Sertão que alegra o povo
E é alegria do novo
Quando o grande verde é vigoroso.

Sertão de bela cor
De grandes chamegos
E de infinitos juninos festejos.

Mário Gaudêncio (24 de outubro de 2011).
“Escrito dentro do ônibus com trajeto de João Pessoa para Natal”.
Homenagem ao Núcleo Temático da Seca da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Escrito para as comemorações da Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, 2011.