Cordel transforma vidas

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Muitos me perguntam: de onde vem o gosto pelo cordel?

Essa história, até pouco tempo, não tinha uma resposta pronta! Só recentemente, eu parei para pensar sobre o assunto. Fui fazer uma regressão mental! Risos!

Lembrei que, quando criança, de uma história que meu avô materno contou pela metade, mas que só foi possível entender a partir de outros dois fatos: a prática de leitura mediada por ele; e as pesquisas com a literatura de cordel que começara a fazer muitos anos depois, sem a lúcida referência de que as coisas estavam interligadas.

“Vamos por parte”, como diria um clássico clichê cinematográfico.

Meu primeiro contato ocorreu quando criança, ele, o vô João, aos domingos, juntava todos os netos sobre uma esteira de palha após o almoço. Depois que todos estavam acomodados, em forma de círculo ou semicírculo, ele abria a sua surrada mala de madeira e dali ia fazendo a mágica. Retirava dela os seus folhetos e nos mostrava orgulhosamente o seu pequeno acervo.

Na sequência, escolhia um cordel que julgava ser mais impactante, abria-o e começava a folheá-lo. Folha a folha, ele ia narrando a história que estava em suas mãos. Sua capacidade de contar a história nos prendia profundamente, mas não só pela forma de narrar e sim pelo que envolvia a história em si. Mas para nós o que mais importava, talvez fosse o momento, não o objeto.

Ao contrário do que imaginava, foi justamente o objeto, o folheto, que, inconscientemente, me fez mudar de vida em um futuro distante. A figura do contador, a mediação, a apropriação, o cenário e a prática foram importantes, mas não como o objetivo, porque na realidade, foi o objetivo que conseguiu garantir aquele momento.

Dizendo isso, parece que tenho a intenção de inferiorizar o restante, inclusive o meu querido vô João, mas não é o desejo, ao contrário, ele foi o principal ator para que houvesse esse contato.

Temos o primeiro ato.

Um segundo aspecto, ouvi em uma conversa com ele, quando já era adolescente, em uma das minhas muitas visitas de férias a sua casa. As boas prosas aconteciam bem nos finais de tardes, no momento do chá/jantar das 5 horas, onde não poderia faltar peixe grelhado com batata doce. Ele fez a seguinte revelação:

– Meu filho: Uma das coisas que eu mais desejava fazer quando moço era em primeiro lugar, ir à feira no sábado. Lá comprava de um tudo; depois, era o momento para ouvir os poetas e os cantadores. Por causa deles, dava muitas gargalhadas e ficava sabendo das notícias, onde fazia questão de vos agradecer comprando folhetos. Ouvi tudo aquilo e calei. Gostava muito de ouvir as suas inúmeras histórias. Achava que seria só mais uma. Comemos e depois esqueci de tudo! Parece que não!

De forma complementar a este fato, lembrei que em um certo dia a minha mãe relatou o seguinte cenário: Seu avô era muito vaidoso, antes de ir a feira, seu maior evento social, ele fazia toda uma preparação. Colocava a sua melhor roupa, impecavelmente engomada, ficava todo cheiroso e de barba feita. Seus sapatos brilhavam. Ele parecia com aqueles homens bem vestidos de samba de gafieira. Só para ter uma ideia, o seu sapato dava para espelhar o próprio rosto!

Ele saia com as mãos vazias e retornava com a fartura para a nossa casa. De tudo trazia: se realizava, dentre muitas coisas, com o que o célebre Sivuca cantou, com a “Feira de Mangaio”. Dessa feira vinham as bugigangas, o remédio caseiro, as especiarias, roupas, comidas… Eram sacos e mais sacos de ráfia, inclusive com cordéis, esses não poderiam faltar.

Esse relato passou como uma informação aleatória, assim como foi a que ouvi em outra oportunidade, onde mamãe sinalizou: apenas mamãe lia, seu avô era analfabeto! Sua leitura era a do mundo! Não entendi a segunda parte da informação. Mas tudo bem, ouvi aquilo e calei. Naquele momento não me parecia ser algo relevante para a minha vida.

Tempos depois vieram as pesquisas com cordéis. Foi assim na graduação, no mestrado e no doutorado. O estranho é que só após o doutorado eu tenha lembrado com mais detalhes desses momentos. Parecia que eu tinha tido um bloqueio temporal e cognitivo, que por muito tempo me fez esquecer, mas não perder o que estava guardado nas profundezas do cérebro. Parece que ficou guardado em uma caixa preta, esperando que eu chegasse a uma espécie de tempo de ebulição, fazendo emergir aquele silêncio estrondoso, que aconteceu perto dos quarenta anos.

Acredito que dois textos foram relevantes para este destravamento mental, “Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem, de Liêdo Maranhão” e “A importância do ato de ler, de Paulo Freire”, fazendo com eu passasse a me sentir mais perto daquele esquecimento, permitindo que o sentimento de pertença aflorasse como nunca aquelas “pontas soltas”. Aquelas peças de quebra-cabeças aleatórias eram na verdade “migalhas” informacionais que juntas poderiam ser um significado fundamental para a vida, como agora passou a ter.

Liêdo Maranhão traz um profundo retrato do funcionamento das feiras públicas e dos comportamentos e das práticas dos poetas populares nas mesmas.

Paulo Freire fará uma reflexão sobre o papel e importância da leitura de mundo antes mesmo da leitura das palavras.

Essas duas obras irão dialogar intimamente com a representação de mundo percebida e exercida sobre e para o meu avô.

Ele, a partir da sua leitura de mundo e de suas práticas socioculturais, mesmo analfabeto, se apropriou das leituras declamadas e dos repentes cantados e imprimiu ali a sua personalidade, seus anseios, sonhos e desejos, fazendo com que a sua mediação junto aos seus netos, fosse em essência, o resultado das suas experiências com as feiras, a percepção de mundo e a vontade incansável de socializar a sua relação com a leitura na sua forma mais singela, mas não menos triste de contar histórias.

O Contador de histórias, João, que conheci tardiamente, não está mais entre nós para provar as junção de “cacos cognitivos” que fiz e que aqui relatei, mas certamente Liêdo Maranhão e Paulo Freire, assim como Eu, estamos muito felizes o que se pode tirar deste traço de história cultural e dessa literatura, que a longo dos três últimos séculos tem transformado pessoas e presenteado ao Brasil uma estética única e complexa, onde o ser é a história e a história se constrói com rostos, inclusive, os mais humildes e marginais.

O cordel transforma o ser e a vida de quem dele se alimenta e compartilha.

Referências

FREIRE, Paulo. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

MARANHÃO, Liêdo. Classificação popular da literatura de cordel, Que só e Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem. Cepe: Recife, 2015.

10 livros de ficção mais vendidos em janeiro de 2022

por Mário Gaudêncio, Bib. Dr.

Seu consumo literário está baseado na lista dos livros mais vendidos?

Então você veio ao lugar certo! Preparados uma lista especial com os 10 livros de ficção mais vendidos no Brasil, em janeiro de 2022.

Veja abaixo o vídeo que produzimos sobre o assunto

Adicionalmente, incluímos um bônus com uma reflexão a partir dos resultados da lista.

Fonte consultada:

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Jiboia leitora

por Mário Gaudêncio

Naquela penumbra de final de tarde,
momento que os livros iniciavam um repentino descanso literário
e as estantes tendiam a ficar menos ouriçadas,
algo parecia estar fora daquele ritmo que principiava a calmaria...
era algo inesperado que ali apareceria!

Em todo aquele acervo de 1 milhão de livros,
avistávamos a frente... no final do corredor, 
na classe de literatura, algo estranho, estarrecedor.

As pessoas que ali estavam, aparentemente calmas,
na prática, se comportavam com apreensão e ansiedade.
Havia um balanço constante que ninguém imaginara o que seria.

Cada vez mais encucados, estávamos.
Alguns poucos aventureiros se arvoraram a se aproximar
pelo lado oposto da coleção a que presenciávamos aquele balanço marítimo.

Era um caminhar ritmado e silencioso...
De repente, cai! Uma grande pancada! 
Era o livro "A Biblioteca" de Lima Barreto.
Na sequência, vai ao chão, "Libertinagem" de Manoel Bandeira.
Um segundo de calmaria e...
Esmaece "A Hora Azul do Silêncio" do poeta Marcos Ferreira.

Não dava mais para ter medo! 
Já estávamos indignados!
Quem ousaria derrubar tais belezas literárias?

A chateação se mistura ao medo e a curiosidade,
Mesmo assim, nós tínhamos que arranjar uma forma de se aproximar.
Não podíamos mais esperar.

Chegamos a dois metros de distância
daquela coisa que nos deixara inquietos.
Ao olhar atentamente,
não acreditamos no que se apresentara
as novas enganosas pupilas cansadas.

Olhamos uma para outra...
As únicas corajosas remanescentes 
[daquele bonde,
as escolhidas "dedocraticamente" para resolver aquela querela.

Seria verdade o que avistávamos?
ou teria sido algo fabricado pela "Revolução dos Bichos" de George Orwell?

Disso nunca saberemos,
mas o que acabamos tendo certeza,
era que entre todos aqueles livros de literatura,
estava uma Jiboia Leitora,
que por cansada de ler,
tirou alguns segundinhos para dar uma pequena e agitada cochilada.
Naquela penumbra de final de tarde,
momento que os livros iniciavam um repentino descanso literário
e as estantes tendiam a ficar menos ouriçadas,
algo parecia estar fora daquele ritmo que principiava a calmaria...
era algo inesperado que ali apareceria!

Em todo aquele acervo de 1 milhão de livros,
avistávamos a frente... no final do corredor, 
na classe de literatura, algo estranho, estarrecedor.

As pessoas que ali estavam, aparentemente calmas,
na prática, se comportavam com apreensão e ansiedade.
Havia um balanço constante que ninguém imaginara o que seria.

Cada vez mais encucados, estávamos.
Alguns poucos aventureiros se arvoraram a se aproximar
pelo lado oposto da coleção a que presenciávamos aquele balanço marítimo.

Era um caminhar ritmado e silencioso...
De repente, cai! Uma grande pancada! 
Era o livro "A Biblioteca" de Lima Barreto.
Na sequência, vai ao chão, "Libertinagem" de Manoel Bandeira.
Um segundo de calmaria e...
Esmaece "A Hora Azul do Silêncio" do poeta Marcos Ferreira.

Não dava mais para ter medo! 
Já estávamos indignados!
Quem ousaria derrubar tais belezas literárias?

A chateação se mistura ao medo e a curiosidade,
Mesmo assim, nós tínhamos que arranjar uma forma de se aproximar.
Não podíamos mais esperar.

Chegamos a dois metros de distância
daquela coisa que nos deixara inquietos.
Ao olhar atentamente,
não acreditamos no que se apresentara
as novas enganosas pupilas cansadas.

Olhamos uma para outra...
As únicas corajosas remanescentes 
[daquele bonde,
as escolhidas "dedocraticamente" para resolver aquela querela.

Seria verdade o que avistávamos?
ou teria sido algo fabricado pela "Revolução dos Bichos" de George Orwell?

Disso nunca saberemos,
mas o que acabamos tendo certeza,
era que entre todos aqueles livros de literatura,
estava uma Jiboia Leitora,
que por cansada de ler,
tirou alguns segundinhos para dar uma pequena e agitada cochilada.
Naquela penumbra de final de tarde,
momento que os livros iniciavam um repentino descanso literário
e as estantes tendiam a ficar menos ouriçadas,
algo parecia estar fora daquele ritmo que principiava a calmaria...
era algo inesperado que ali apareceria!

Em todo aquele acervo de 1 milhão de livros,
avistávamos a frente... no final do corredor, 
na classe de literatura, algo estranho, estarrecedor.

As pessoas que ali estavam, aparentemente calmas,
na prática, se comportavam com apreensão e ansiedade.
Havia um balanço constante que ninguém imaginara o que seria.

Cada vez mais encucados, estávamos.
Alguns poucos aventureiros se arvoraram a se aproximar
pelo lado oposto da coleção a que presenciávamos aquele balanço marítimo.

Era um caminhar ritmado e silencioso...
De repente, cai! Uma grande pancada! 
Era o livro "A Biblioteca" de Lima Barreto.
Na sequência, vai ao chão, "Libertinagem" de Manoel Bandeira.
Um segundo de calmaria e...
Esmaece "A Hora Azul do Silêncio" do poeta Marcos Ferreira.

Não dava mais para ter medo! 
Já estávamos indignados!
Quem ousaria derrubar tais belezas literárias?

A chateação se mistura ao medo e a curiosidade,
Mesmo assim, nós tínhamos que arranjar uma forma de se aproximar.
Não podíamos mais esperar.

Chegamos a dois metros de distância
daquela coisa que nos deixara inquietos.
Ao olhar atentamente,
não acreditamos no que se apresentara
as novas enganosas pupilas cansadas.

Olhamos uma para outra...
As únicas corajosas remanescentes 
[daquele bonde,
as escolhidas "dedocraticamente" para resolver aquela querela.

Seria verdade o que avistávamos?
ou teria sido algo fabricado pela "Revolução dos Bichos" de George Orwell?

Disso nunca saberemos,
mas o que acabamos tendo certeza,
era que entre todos aqueles livros de literatura,
estava uma Jiboia Leitora,
que por cansada de ler,
tirou alguns segundinhos para dar uma pequena e agitada cochilada.
Naquela penumbra de final de tarde,
momento que os livros iniciavam um repentino descanso literário
e as estantes tendiam a ficar menos ouriçadas,
algo parecia estar fora daquele ritmo que principiava a calmaria...
era algo inesperado que ali apareceria!

Em todo aquele acervo de 1 milhão de livros,
avistávamos a frente... no final do corredor, 
na classe de literatura, algo estranho, estarrecedor.

As pessoas que ali estavam, aparentemente calmas,
na prática, se comportavam com apreensão e ansiedade.
Havia um balanço constante que ninguém imaginara o que seria.

Cada vez mais encucados, estávamos.
Alguns poucos aventureiros se arvoraram a se aproximar
pelo lado oposto da coleção a que presenciávamos aquele balanço marítimo.

Era um caminhar ritmado e silencioso...
De repente, cai! Uma grande pancada! 
Era o livro "A Biblioteca" de Lima Barreto.
Na sequência, vai ao chão, "Libertinagem" de Manoel Bandeira.
Um segundo de calmaria e...
Esmaece "A Hora Azul do Silêncio" do poeta Marcos Ferreira.

Não dava mais para ter medo! 
Já estávamos indignados!
Quem ousaria derrubar tais belezas literárias?

A chateação se mistura ao medo e a curiosidade,
Mesmo assim, nós tínhamos que arranjar uma forma de se aproximar.
Não podíamos mais esperar.

Chegamos a dois metros de distância
daquela coisa que nos deixara inquietos.
Ao olhar atentamente,
não acreditamos no que se apresentara
as novas enganosas pupilas cansadas.

Olhamos uma para outra...
As únicas corajosas remanescentes 
[daquele bonde,
as escolhidas "dedocraticamente" para resolver aquela querela.

Seria verdade o que avistávamos?
ou teria sido algo fabricado pela "Revolução dos Bichos" de George Orwell?

Disso nunca saberemos,
mas o que acabamos tendo certeza,
era que entre todos aqueles livros de literatura,
estava uma Jiboia Leitora,
que por cansada de ler,
tirou alguns segundinhos para dar uma pequena e agitada cochilada.

Morte

Mário Gaudêncio

Deitado com o esmaecer do sol, fulgurante como a chegança do aniversário. Ela é o momento da verdade e do entusiasmo que te leva do presente a transfiguração, ao encantamento que o deixará encapsulado como aquela pretensa borboleta amarela com traços enferrujados e fustigantes do sol doloroso do meio-dia.

A morte, quando chega, pode ser alegria, tristeza, libertação da angústia, do agouro ou da malcriação. Ela pode ser alívio ou álibi para os malfeitores, podem gerar dúvidas ou certezas cercadas por um ponto final, jamais vírgula ou ponto e vírgula, podendo talvez ser uma reticência.

O outrora apenas será como foi com muitos outros. O pretérito ficou e o futuro já não mais existirá. A dúvida que se tinha como seria, agora é a certeza de quê, de fato esta experiência pode ser mórbida, alegre ou fugaz.

O certo é que certeza não se tem e dúvida é só o que convém. Mas, advém pensar que, ao chegar, o ato te remeta a boas lembranças e te afaste dos fundamentalismos e dos mais cruéis tipos de intolerâncias e violências.

Botar

Os entendedores entenderão!

Ao verbo "botar", fui desafiado declamar.

Na vida que temos
e na que queremos ter
Somos convidados a fazer
e a "botar" com muito prazer.

No meu "botar",
irei te colocar,
com este "botar",
de você irei falar.

Bote fogo,
bote quente,
bote logo,
bote ardente.

Bote com gosto,
bote na vida,
bote do pé ao pescoço,
bote até na despedida.

Bote em casa,
bote na rua,
bote bem massa,
bote de alma nua.

Bote na paz,
bote sagaz,
bote na frente
e bote atrás.

Bote sem vergonha,
bote de forma medonha,
bote risonha,
bote, ponha.

Bote com carinho
bote com a amizade,
bote sem maldade,
bote com bondade.

Mário Gaudêncio
05 out. 2019.

Negação do humano

Na triste dor da angústia que o ser provoca ser,
causando a maldade da humanidade
e do enfado de se conceber
o ser sente vontade de maltratar
e maltratar-se pela eternidade.

De bondade se quer ver, é verdade,
mas de maldade se tem com regularidade,
passando muitas vezes, a sensação de inseguridade.

Se no ser se espera ter, indícios de amabilidade,
o que temos visto, com certo nível naturalidade
é o ser maldizer e malfazer,
o mundo com requintes de crueldade.

Mário Gaudêncio
25 set. 2019.