Cordel transforma vidas

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Muitos me perguntam: de onde vem o gosto pelo cordel?

Essa história, até pouco tempo, não tinha uma resposta pronta! Só recentemente, eu parei para pensar sobre o assunto. Fui fazer uma regressão mental! Risos!

Lembrei que, quando criança, de uma história que meu avô materno contou pela metade, mas que só foi possível entender a partir de outros dois fatos: a prática de leitura mediada por ele; e as pesquisas com a literatura de cordel que começara a fazer muitos anos depois, sem a lúcida referência de que as coisas estavam interligadas.

“Vamos por parte”, como diria um clássico clichê cinematográfico.

Meu primeiro contato ocorreu quando criança, ele, o vô João, aos domingos, juntava todos os netos sobre uma esteira de palha após o almoço. Depois que todos estavam acomodados, em forma de círculo ou semicírculo, ele abria a sua surrada mala de madeira e dali ia fazendo a mágica. Retirava dela os seus folhetos e nos mostrava orgulhosamente o seu pequeno acervo.

Na sequência, escolhia um cordel que julgava ser mais impactante, abria-o e começava a folheá-lo. Folha a folha, ele ia narrando a história que estava em suas mãos. Sua capacidade de contar a história nos prendia profundamente, mas não só pela forma de narrar e sim pelo que envolvia a história em si. Mas para nós o que mais importava, talvez fosse o momento, não o objeto.

Ao contrário do que imaginava, foi justamente o objeto, o folheto, que, inconscientemente, me fez mudar de vida em um futuro distante. A figura do contador, a mediação, a apropriação, o cenário e a prática foram importantes, mas não como o objetivo, porque na realidade, foi o objetivo que conseguiu garantir aquele momento.

Dizendo isso, parece que tenho a intenção de inferiorizar o restante, inclusive o meu querido vô João, mas não é o desejo, ao contrário, ele foi o principal ator para que houvesse esse contato.

Temos o primeiro ato.

Um segundo aspecto, ouvi em uma conversa com ele, quando já era adolescente, em uma das minhas muitas visitas de férias a sua casa. As boas prosas aconteciam bem nos finais de tardes, no momento do chá/jantar das 5 horas, onde não poderia faltar peixe grelhado com batata doce. Ele fez a seguinte revelação:

– Meu filho: Uma das coisas que eu mais desejava fazer quando moço era em primeiro lugar, ir à feira no sábado. Lá comprava de um tudo; depois, era o momento para ouvir os poetas e os cantadores. Por causa deles, dava muitas gargalhadas e ficava sabendo das notícias, onde fazia questão de vos agradecer comprando folhetos. Ouvi tudo aquilo e calei. Gostava muito de ouvir as suas inúmeras histórias. Achava que seria só mais uma. Comemos e depois esqueci de tudo! Parece que não!

De forma complementar a este fato, lembrei que em um certo dia a minha mãe relatou o seguinte cenário: Seu avô era muito vaidoso, antes de ir a feira, seu maior evento social, ele fazia toda uma preparação. Colocava a sua melhor roupa, impecavelmente engomada, ficava todo cheiroso e de barba feita. Seus sapatos brilhavam. Ele parecia com aqueles homens bem vestidos de samba de gafieira. Só para ter uma ideia, o seu sapato dava para espelhar o próprio rosto!

Ele saia com as mãos vazias e retornava com a fartura para a nossa casa. De tudo trazia: se realizava, dentre muitas coisas, com o que o célebre Sivuca cantou, com a “Feira de Mangaio”. Dessa feira vinham as bugigangas, o remédio caseiro, as especiarias, roupas, comidas… Eram sacos e mais sacos de ráfia, inclusive com cordéis, esses não poderiam faltar.

Esse relato passou como uma informação aleatória, assim como foi a que ouvi em outra oportunidade, onde mamãe sinalizou: apenas mamãe lia, seu avô era analfabeto! Sua leitura era a do mundo! Não entendi a segunda parte da informação. Mas tudo bem, ouvi aquilo e calei. Naquele momento não me parecia ser algo relevante para a minha vida.

Tempos depois vieram as pesquisas com cordéis. Foi assim na graduação, no mestrado e no doutorado. O estranho é que só após o doutorado eu tenha lembrado com mais detalhes desses momentos. Parecia que eu tinha tido um bloqueio temporal e cognitivo, que por muito tempo me fez esquecer, mas não perder o que estava guardado nas profundezas do cérebro. Parece que ficou guardado em uma caixa preta, esperando que eu chegasse a uma espécie de tempo de ebulição, fazendo emergir aquele silêncio estrondoso, que aconteceu perto dos quarenta anos.

Acredito que dois textos foram relevantes para este destravamento mental, “Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem, de Liêdo Maranhão” e “A importância do ato de ler, de Paulo Freire”, fazendo com eu passasse a me sentir mais perto daquele esquecimento, permitindo que o sentimento de pertença aflorasse como nunca aquelas “pontas soltas”. Aquelas peças de quebra-cabeças aleatórias eram na verdade “migalhas” informacionais que juntas poderiam ser um significado fundamental para a vida, como agora passou a ter.

Liêdo Maranhão traz um profundo retrato do funcionamento das feiras públicas e dos comportamentos e das práticas dos poetas populares nas mesmas.

Paulo Freire fará uma reflexão sobre o papel e importância da leitura de mundo antes mesmo da leitura das palavras.

Essas duas obras irão dialogar intimamente com a representação de mundo percebida e exercida sobre e para o meu avô.

Ele, a partir da sua leitura de mundo e de suas práticas socioculturais, mesmo analfabeto, se apropriou das leituras declamadas e dos repentes cantados e imprimiu ali a sua personalidade, seus anseios, sonhos e desejos, fazendo com que a sua mediação junto aos seus netos, fosse em essência, o resultado das suas experiências com as feiras, a percepção de mundo e a vontade incansável de socializar a sua relação com a leitura na sua forma mais singela, mas não menos triste de contar histórias.

O Contador de histórias, João, que conheci tardiamente, não está mais entre nós para provar as junção de “cacos cognitivos” que fiz e que aqui relatei, mas certamente Liêdo Maranhão e Paulo Freire, assim como Eu, estamos muito felizes o que se pode tirar deste traço de história cultural e dessa literatura, que a longo dos três últimos séculos tem transformado pessoas e presenteado ao Brasil uma estética única e complexa, onde o ser é a história e a história se constrói com rostos, inclusive, os mais humildes e marginais.

O cordel transforma o ser e a vida de quem dele se alimenta e compartilha.

Referências

FREIRE, Paulo. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

MARANHÃO, Liêdo. Classificação popular da literatura de cordel, Que só e Marketing dos camelôs de remédio ou o mundo da camelotagem. Cepe: Recife, 2015.

Entrevista com a Dra. Maria Elizabeth B. C. Albuquerque (UFPB)

A nossa convidada é a profa. Dra. Maria Elizabeth B. C. Albuquerque, do curso de Biblioteconomia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O encontro tem como finalidade, discutir a relação interdisciplinar da Ciência com a Literatura de Cordel, patrimônio imaterial brasileiro.

A entrevista ao vivo acontece no dia 7 de jun. 2023, 18:00, no nosso Canal do YouTube. Para acessar, clique no link abaixo:

A enterevista por sua vez, será mediada pelo editor @bibnewsbr e bibliotecário, o Dr. Mário Gaudêncio.

Sintam-se convidados e convidadas a fazer parte dessa rede.

O que é cibercordel

Coluna escrita por Mário Gaudênci

O folheto tem proporcionado profundas ressignificações artísticas capazes de colocar o cordel como uma referência na cultura brasileira, formando novos produtores, autores e um público consumidor cada vez mais diversificado. Isso é possível de perceber, por exemplo, através das artes plásticas, artes cênicas, da literatura, da música e da internet.

No caso da internet, esse processo de ressignificação poética tem ocorrido em toda estrutura web, seja por meio de sites, portais, das mídias sociais ou da blogosfera, esta última a maior e mais forte fonte de divulgação e disseminação da informação poética do cordelista. Isso faz com que as temáticas, ou mesmo os motes, estejam transitando e emergindo em outros suportes que não sejam exclusivamente os folhetos impressos.

Ao tentar apresentar o cordel nos dias atuais, convém antes entender a necessidade de observar os espaços nos quais estão inseridos e foram consolidados.

Mesmo os autores respeitando a métrica e a rima, hoje podemos encontrar estabelecidos três formatos de cordéis: impresso, digitalizado e digital.

O primeiro é conhecido como “folheto de cordel”, “folheto” ou “cordel”, que são textos produzidos em folhas impressas, normalmente com tamanho 11×16 cm, utilizando papel jornal, tendo suas capas xilogravadas em talhas de madeiras ou metodicamente idealizadas por meio da computação gráfica. Tem como autores potenciais, em sua maioria, pessoas semialfabetizadas e que, em muitos casos, sobrevivem em função das produções poéticas. Na visão de Nascimento (2011)

[…] o folheto de cordel – é um produto que se situa contiguamente entre a oralidade e a escrita, representa, numa grande faixa de produção, a fusão de três componentes: 1) O texto oral, tradicional, guardado na memória do poeta/narrador, com vida milenar ou mesmo relativamente recente, aceita pela tradição; 2) A notícia do acontecido, um aproveitamento imediato do fato cotidiano; e 3) O trabalho do xilógrafo, que apresenta, no pequeno espaço da xilogravura, a sua visão, o seu ponto de vista do universo do folheto e que passa a integrar-se à obra literária, ligados intrinsicamente pela semântica do texto. (NASCIMENTO, 2011, p. 225).

Contudo, nos últimos anos, em função da cibercultura, da sociedade em rede e da blogosfera, houve uma mutação iniciada com o hibridismo da transposição do impresso para o eletrônico.

Neste cenário de transposição em relação ao suporte, já são vistas algumas iniciativas que disponibilizam, na web, dois outros traços bem definidos de cordéis na rede. Um é o cordel digitalizado, fruto da transposição do impresso para o eletrônico. O outro pode ser definido como o cordel que é exclusivamente virtual e produzido por meio de posts (texto, imagem, áudio ou vídeo), sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda uma dinâmica da forma como a sociedade em rede se organiza. Surge, então, o cibercordel.

O ciber-cordel [sic], nesse sentido, constitui-se como a sinergia entre as formas de narrar do cordel com a interatividade e conectividade desterritorializada e simultânea do ciberespaço. É, dessa forma, um cordel produzido em rede, impondo a autoria coletiva como forma de produção da obra. O ciber-cordel (sic) não é, portanto, a simples transposição do cordel feito off-line para o nível on-line. Além disso, é a efetivação de uma obra de literatura popular em verso sob as possibilidades de comunicação horizontal e simultânea que a plataforma comunicacional do ciberespaço oferece. (SOUSA, 2007, p. 6, grifo nosso).

Após surgir o cordel eletrônico, conhecido e definido embrionariamente de cibercordel na primeira década do século XXI, observa-se que estes,

[…] incorporados pela Internet, os cordéis adquirem característica de hipertexto, e passam a ser reconhecidos pelo nome de “cibercordel” que é uma forma de cordel que incorpora as mídias oferecidas pela web. Além de estar no ciberespaço, é um hipertexto que utiliza os recursos da web, como animações, podcasts, links, comércio online, etc. (FONSECA; ALVES; CAVALCANTE, 2010, p. 7, grifo nosso).

Utilizando como parâmetro o posicionamento acima e relacionando com os postulados da Ciência da Informação, percebe-se que o cibercordel encontra amparo acadêmico nos postulados de Rafael Capurro, especialmente com base nos seus paradigmas, que trazem à tona os aspectos físicos, cognitivos e sociais.

Para Capurro (2003, p. 8), o paradigma físico “[…] em essência […] postula que há algo, um objeto físico, que um emissor transmite a um receptor.” Esse objeto que é emitido nesse contexto é o cibercordel. O mesmo não só transita de forma dinâmica na relação emissor e receptor, mas também vai além. Na maioria das vezes essa informação transmitida é realimentada, proporciona de forma quase que imediata um feedback. Tem-se, assim, uma informação que é exclusivamente virtual, e enquanto objeto físico promove uma prática cíclica entre o processo de recepção e mediação poética.

No que diz respeito ao paradigma cognitivo, Brookes (apud CAPURRO 2003, p. 10) observa que este modelo acontece por meio dos “[…] conteúdos intelectuais que formam uma espécie de rede”. Para o mesmo autor, é necessário também, “[…] ver de que forma os processos informativos transformam ou não o usuário […]”, o sujeito cognoscente. Percebe-se, em virtude deste posicionamento, que o cibercordel não pode ser visto apenas como um “objeto insignificante”. É preciso que seja percebido como uma linguagem informacional de densidade de conteúdos singulares, fruto do processo de idealização, pensamento e construção intelectual que geram não apenas poesias, mas em especial informações configuradas através de cenários, casos, vivências ou relações sociais. Podem ter sido concebidas, por certa medida, de forma individual ou influenciada por agentes ou ambientes de sua área de domínio ou até externas a elas. Essas idealizações intelectuais particulares por influências avessas proporcionam novos cenários e conjunturas das mais díspares e inesperadas fazendo com que a realimentação literária transforme as relações entre o autor (cordelista) e o leitor (usuário e receptor). Deste modo, a partir do momento que a informação poética é disseminada, aquele que poderia ser apenas um leitor, também poderá assumir o papel de escritor, autor, comunicador ou blogueiro. A informação poética circula através do blogueiro primário, contudo, possibilita a terceiros também terem crédito sob a obra, pois a mesma, ao ser comentada e muito provavelmente até reescrita, produzirá uma poesia popular híbrida fazendo com que o texto seja ressignificado a todo o momento e tornando o processo cognitivo único, algo vibrante e de fato poético, sem limites ou barreiras para trabalhar os conteúdos intelectuais na web.

Para o paradigma social, Capurro (2003, p. 14) comenta que esta dimensão deve ir “[…] para além do conhecimento humano, relacionando-o a todo tipo de processo seletivo […]”. Percebe-se então que este último paradigma também dialoga com a poética criada em torno das relações culturais e sociais e pode estar diretamente inserido no contexto dos cibercordéis, não apenas pela sua configuração, mas em especial pela forma como estes textos informacionais são produzidos, por quem são idealizados, assim como, como são escritos e interpretados. O habitat no qual os cibercordéis transitam, favorecem relações além da sua própria área de domínio, possibilitando o diálogo, criando e promovendo relações sociais com outros. São produções horizontais que se dão de dentro para fora e de fora para dentro (input e output), numa relação contínua e adaptável. O conhecimento humano produzido pela via do cibercordel se entrelaça naturalmente em teias complexas. Isso fica nítido na relação emissor e receptor. Capurro (2003, doc. não paginado), por sua vez, chama isso de informação que deve “[…] entrecruzar ou, por assim dizer, enredar ou tramar […] mostrando a tessitura complexa da linguagem comum […] em torno […] de sua relação com a realidade social e natural”.

Diante disso, o cibercordel sob a perspectiva da Ciência da Informação é todo e qualquer objeto informacional amparado pelas regras poéticas construídas através do clássico cordel e produzido exclusivamente na internet. Sua construção, independente do momento, será materializada sob um esteio físico, cognitivo e social.

Sua exclusividade virtual permitirá produções poéticas através de postagens ou publicações que possibilitem comentários, imagens, áudios, vídeos ou qualquer outro tipo de manifestação pública, anônima ou identificada sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda dinâmica e hibridação da forma como a sociedade em rede se organiza. São percebidos que os ciberespaços que melhor acolhem os cibercordéis são os blogs; ambientes adaptáveis, personalizados, de fácil acesso, utilização e comunicação.

Dois outros fatos que estão por trás desta nova forma de escrever a poesia popular é a elevação do nível de formação acadêmica dos poetas e o alto grau de rapidez no processo de mediação informacional e formação potencial de um novo público leitor.

Esta conjuntura poética faz do folheto um artefato de ressignificação informacional e memorialista que viabiliza uma percepção multifacetada, tanto para o produtor quanto para o consumidor ou leitor de poesia popular. Entretanto, o processo de ressignificação do cordel não se deu exclusivamente através dos cibercordéis, tampouco iniciou com eles. Pelo contrário, desde o século XX, em especial a poesia popular, tem passado por diversas transformações literárias, sejam por incorporar novos elementos às suas concepções, como tipologias de capas, criptografias por meio de acrósticos, ou surgimento de poetas das mais diversas classes sociais. Isso proporcionou à literatura de cordel influenciar e transitar por diversos “mundos” poéticos e literários, fazendo com que se tenha atualmente consolidado esta nova forma de fazer cordel a partir da internet, ou seja, o cibercordel, sem ser necessariamente um “neocordel” como tem sido propagado por um pequeno grupo da poesia popular. O fato é que se consolida apenas o surgimento de uma nova forma de escrever e registrar a poesia popular, o cibercordel. Mesmo assim, apesar dos cibercordéis serem produzidos na internet, todas as características básicas do cordel impresso são preservadas (técnica, concepção, poética, temática, etc.). As ressignificações que buscaram e buscam apoio ou inspiração na literatura de cordel se dão, muitas vezes, com base nos motes que “iluminam” a escrita dos folhetos pelos poetas de bancada ou cordelistas.

Percebe-se que, ao longo de mais de um século, o cordel tem se inspirado em vários motes e que, dependendo das temáticas abordadas, os cordelistas eram até conhecidos como poetas-repórter. Um dos mais famosos é o José Soares, que ficou conhecido pelo cordel sobre a morte de Getúlio Vargas, em 1954, com tiragem de 100 mil exemplares. Isso para dizer que nenhum assunto escapa para ser tema de um cordel (O CORDEL…, 2003, doc. não paginado).

Todos os assuntos são de interesse do cordelista, poeta de bancada ou poeta-repórter. Os temas que inspiram os poetas foram reclassificados recentemente em pesquisa doutoral, num total de 27 (vinte e sete) classes temáticas, quais sejam: (1) Agricultura; (2) Biografias e Personalidades; (3) Bravura e Valentia; (4) Cidade e Vida Urbana; (5) Ciência; (6) Contos; (7) Crime; (8) Cultura; (9) Educação; (10) Esporte; (11) Erotismo; (12) Feitiçaria; (13) Fenômeno Sobrenatural; (14) História; (15) Homossexualismo; (16) Humor; (17) Intempéries; (18) Justiça; (19) Meio Ambiente; (20) Moralidade; (21) Morte; (22) Peleja; (23) Poder; (24) Político e Social; (25) Religião; (26) Romance; (27) Saúde e Doença. (ALBUQUERQUE, 2011).

A partir disso, percebe-se o quão imensas são as possibilidades de escrever textos sob as mais variadas temáticas. Os textos produzidos nos folhetos conseguem descrever realidades, fatos históricos, retratar personalidades, motivar o ativismo ambiental, entre outros.

Portanto, o cenário demonstrado nesta cessão leva a poesia popular a uma “Virada Cordelista”, ou seja, a uma mudança na forma de conduzir a literatura de cordel, retomando o seu curso normal a partir do declínio pós 1950, abrindo novas possibilidades de produção, divulgação, acesso, pensamento, reorganização, postura, espaços, enfim, de um realinhamento que se aproveita da inserção do cordel no ambiente escolar, das novas descobertas científicas e da adoção da internet como forma comunicar o cordel, descobrir novos poetas e de preservar a sua memória coletiva.

¹ Recorte extraído do artigo “Representação semântico-discursiva de cibercordéis”, escrito por Mário Gaudêncio e Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque na Revista Em Questão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2017.

REFERÊNCIA

CIBERCORDEL. Conceito. Disponível em: https://wp.me/P1PaDd-1F.

GAUDÊNCIO, M.; ALBUQUERQUE, M. E. B. C. de. Representação semântico-discursiva de cibercordéis. Em Questão, Porto Alegre, v. 23, n. 1, jan./ abr. 2017.  Disponível em: https://goo.gl/SuQvuZ>.

Literatura de cordel: patrimônio cultural brasileiro

por Mário Gaudêncio

É sabido que historicamente a literatura de cordel emerge e se consolida no Brasil a partir da região nordeste, seja em virtude da conjuntura social que se tinha na época ou pela lacuna cultura que se fortalecia cotidianamente em virtude do que se vinha sendo produzido no país em certa medida não refletir os anseios do povo do nordeste.

Ao longo de todo esse tempo, especificamente a partir do final do século XIX, a literatura de cordel tem passado por inúmeras transformações, sejam elas estéticas ou editoriais. Viveu o momentos de ascensão, declínio e adaptação ao mundo pós-moderno.

Hoje, ao olhar para o passando, percebe que a sua natureza simbólica e estética evoluiu como uma possibilidade cultural que transcende a discurso raso a respeito do seu lugar na memória coletiva do povo brasileiro.

O cordel tem se mostrado como uma forma de expressão contemporânea que transcende limites ou barreiras. É um instrumento que a todo momento interage com a cultura e a sociedade. Influencia e é influenciado. Não é a toa que o traços da literatura de cordel podem ser encontrados na nas mais diversas manifestações de arte.

Neste sentido, isso nos leva a considerar que a literatura de cordel chegou a um patamar onde não se tem mais espaço para estigmatizá-la como subliteratura ou que ela produz apenas artefatos rudimentares de uma tradição iletrada.

Ao contrário disso, ela vai muito mais além, mas que em essência, sempre esbarrou no poder simbólico nas relações institucionalizadas que, de maneira sectária segregou a literatura de cordel a uma cultura que deveria ser entendida no máximo como popular.

Isso vai de encontro ao que se entende por cultura, onde o ato de hierarquizar contribui diretamente para segregar, um povo, uma forma de pensar, um meio de manifestar.

É esperado que, com o parecer do IPHAN, mesmo que tardiamente reconhecido, é importante a literatura de cordel enquanto patrimônio cultural brasileiro, que também sejam pensadas políticas públicas além da salvaguarda das produções intelectuais, mas que se tenha em vista solucionar questões ainda distantes de ser equacionadas, como:

a) Contrapor o discurso cristalizado de que o cordel é uma subliteratura;

b) Que sejam criadas políticas afirmativas econômicas de apoio a subsistência humana dos cordelistas, pois dificilmente estes conseguem viver das suas produções intelectuais;

c) Que se perceba a necessidade e importância de criar uma política cultural frente ao processo produtivo a partir de um mercado editorial capaz de editar, divulgar, distribuir e comercializar as obras intelectuais dos poetas com ética e lisura;

d) Que sejam definidas estratégias para que os familiares possam usufruir da propriedade intelectual dos cordelistas após seus falecimento.

É bem verdade que, a luta pela preservação da memória coletiva e democratização do acesso aos conteúdos originários dos cordéis alcançaram avanços significativos, seja em meio analógico (impresso) ou em ambiental digital (caso dos cibercordéis), contudo, ainda há um percurso longo a fazer, especialmente quando se remete a dar voz àqueles são silenciados, dentro ou fora do próprio domínio ou rede social.

Portanto, vê-se como salutar e necessário, o reconhecimento institucional do IPHAN para essa fonte informação (complexa e inesgotável), todavia, é de extrema importância que essa chancela seja o início de uma virada cultural no Brasil para um gênero que precisa ser antes de qualquer coisa, reconhecido como uma faceta literária sem insinuações de reducionismos positivistas ou relativismos que contribuem negativamente para uma retração e limitação na forma de vê o mundo a partir dos ditos cânones.

O momento é de oportunizar a diversidade e pluralidade cultural e estreitar os laços entre os mundos literários, podendo assim, vir a reduzir o frágil e limitado discurso em torno da relação, que ao meu ver é insipiente, entre a ideia de cultura erudita versus cultura popular.

O Cordel como fonte de informação: a vivacidade dos folhetos de cordéis no Rio Grande do Norte

Sale Mário Gaudêncio
Maria do Socorro de Azevedo Borba

RESUMO

Apresenta uma caracterização geral da literatura popular (até 2005) objetivando analisar o nível de importância que vem sendo dada à literatura de cordel como fonte informacional no Rio Grande do Norte. Enfoca sua trajetória da Europa até o Brasil, levando em conta seu fortalecimento no nordeste brasileiro. Descreve o cordel a partir de um cenário que trata das décadas de ouro (1920-1950) do cordel e sua forma de classificar, de sua influência nas belas artes e do cordel no atual cenário potiguar. Mostra o que seja fonte de informação e a partir dessa ótica, o cordel como fonte de informação e o papel bibliotecário neste processo. Discorre sobre os procedimentos metodológicos trabalhados através uma discussão em torno da pesquisa, seu universo, seus atores, instrumentos (pesquisa bibliográfica, eletrônica e realização de entrevista focalizada) e seus procedimentos. Trabalha a análise dos dados a partir da relação cordel e cordelista e cordel e biblioteca. Com os dados, pôde-se fazer uma análise qualitativa dos resultados e identificar a atual situação do cordel no estado potiguar. Conclui apontando um parecer, as perspectivas e faz recomendações para a literatura de cordel no RN.

Para mais detalhes, acesse aqui.