Leitura, antídoto para a desinformação

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Em terra de não leitores, temos um terreno fértil para a desinformação.

O cenário do “mundo da leitura” no Brasil não é animador e causa preocupação.

Ao contrário do que revelam os dados na Europa e na Espanha, onde por exemplo, a média de leitores é de 80 a 90% em alguns países da União Europeia e de 65,5% na Espanha (El Espanol, 2025, tradução nossa, online), no Brasil, na última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, demonstrou ser um país de não leitores.

Segundo o Instituto Pró-Livro (2024, p. 15, online) e a Academia Brasileira de Letras (2025), “[…] 53% das pessoas ouvidas admitiram, que […] não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

“53% das pessoas ouvidas admitiram, que não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte”.

Este dado é ainda mais alarmante se considerarmos a situação da região Nordeste e do Rio Grande do Norte, áreas de onde escreve este editor. Nessa região, apenas 43% das pessoas são considerados leitoras. Já o RN amarga a última posição no ranking entre todos os estados da federação, com um triste percentual de 33% de pessoas que leem.

Na prática, significa que são dados estatísticos estarrecedores, aqui demonstrados pelo Instituto Pró-Livro (2014, p. 21).

Revelados esses dados e cruzados com o cenário global e local do fenômeno da desinformação, essa terra de não leitores, o Brasil, abre margem para um “terreno fértil para a produção e propagação de notícias mentirosas” e do esgarçamento das relações sociais, potencializando o surgimento de cenários de infodemias.

O não acesso a leitura, e por ela a leitura crítica, faz do cidadão um ser vulnerável a consumir registros informacionais e objetos digitais sem tratamento, filtro ou relevância. Isso é piorado se observarmos que a maior parte da população tem planos de dados de internet limitados. Muitos têm apenas condições de abrir pequenos volumes de dados de mensageiros, implicando, caso queiram, a impossibilidade de checar os dados recebidos.

Ter competência crítica para a análise da informação não é uma tarefa trivial, porém, é cada vez mais necessária e urgente, só que para ser favorecido é preciso que as pessoas tenham acesso ao conhecimento registrado confiável. Isso passa necessariamente pelo acesso à leitura, formação de leitores e pela consolidação de comunidades de leitores.

Paulo Freire (1989), em “A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam”, já sinalizava o quão é importante a leitura para transformar pessoas. Mas não apenas uma leituras das palavras. Também seria fundamental uma leitura de mundo.

Paulo Freire, nos conduzia para uma leitura encarnada, uma práxis leitora que levava o ser humano a transformação, induzindo a uma militância intelectual, podendo alterar a mentalidade em direção a um novo compromisso humanitário e formação de uma nova intelectualidade (Gramsci, 1982).

Somos chamados a olhar a leitura para além da leitura, como um antídoto possível para frear esse “mar de desinformação” com o qual estamos imersos.

Vale lembrar que a desinformação não é um fenômeno novo, mas impulsionada pelas milícias digitais que promovem guerras culturais, ela tem alcançado proporções inimagináveis, como a violência simbólica e a física. Para além do cancelamento, as mentiras digitais têm levado a morte.

E de forma dicotômica, os envolvidos diretamente não têm sofrido as sanções devidas, onde já é sabido que o primeiro passo é a regulamentação das mídias digitais, que está nas mãos de grandes conglomerados internacionais e que tem resistido a se adequarem as leis das nações e de suas soberanias.

Se por um lado, temos grupos que estão lutando pela soberania digital, por outro, vemos cada vez mais grupos de pessoas desinformadas, que sob o pretexto da “liberdade de expressão” tem causado medo e dor em milhares de pessoas.

Assim, percebe-se que um possível caminho a ser seguido, é o de pensar em estratégias Estatais que viabilizem práticas leitoras libertadoras, capazes de dar ao ser humano, as ferramentas e condições necessárias para emergirem ao estágio de leitores, primeiro passo de muitos que ainda são importantes para chegar ao nível de leitores críticos.

Ao chegar ao nível de leitores críticos, se permitirá suplantar o analfabetismo ideológico e compreender a importância de valorizar a ética do diálogo, conforme propõe Rocha (2021) na obra “Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político”.

Tal importância ocorre no sentido de responder as preocupações expressas por Max Fisher (2023) e Miskolci (2021), respectivamente, com as suas obras “A Máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo” e “Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada”.

Portanto, vê-se que uma das formas de superar o fenômeno da desinformação é através da leitura e da formação de leitores. Apenas com uma forte comunidades de leitores críticos, teremos condição de minimizar os danos causados pelo distópico mundo da pós-verdade.


Referências

CASTRO, Ruy. O país dos não leitores. Rio de Janeiro: ABL, 2025. Publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 16 jan. 2025. Disponível em: https://www.academia.org.br/artigos/o-pais-dos-nao-leitores#:~:text=S%C3%A3o%20n%C3%BAmeros%20terr%C3%ADveis%2C%20deprimentes%2C%20divulgados,livro%2C%20nem%20mesmo%20em%20parte. Acesso em: 31 jan. 2025.

FISHER, Max. A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo. São Paulo: Todavia, 2023.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51. ed. Cortez: São Paulo, 2017.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. (Coleção Perspectivas do Homem Série Filosofia, 48).

INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil. 6. ed. São Paulo: IPL, 2024. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/. Acesso em: 31 jan. 2025.

MISKOLCI, Richard. Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizada. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

QUIJANO. F. D. Récord de lectura: los españoles que leen libros en su tiempo libre superan el 65% por primera vez. El espanol, 22 ene. 2025. Disponible en: https://www.elespanol.com/el-cultural/letras/20250122/record-lectura-espanoles-leen-libros-tiempo-libre-superan-primera-vez/918408302_0.html. Consultado en: 30 ene. 2025.

ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos, 2021.

Esquecimento cultural: o Museu Nacional é a ponta do iceberg

por Mario Gaudêncio

Historicamente a cultura sempre foi relegada a segundo plano, seja por meio das suas políticas públicas ou através dos seus direcionamentos enquanto valorização às suas práticas.

O Brasil é um país pluricultural, mas que em essência suas maneiras de expressão, quando não são do interesse do poder hegemônico e da comunicação de massa, tende a cair em um silenciamento e consequentemente em um potencial esquecimento direcionado e proposital.

Vale salientar que, o que vivenciamos hoje de prejuízos à cultura brasileira, são acontecimentos que desdobraram por meio de uma complexa rede de inaptidão política e administrativa, aliado ao plano de deixar na penumbra tudo o que é originariamente nascido no Brasil.

Desde a ocupação do Brasil em 1500, que a prioridade é valorizar e importar o que vem fora ou ir em busca dos valores aos grandes centros além-mar. Foi assim no período colonial, no momento da velha e da nova república, na ditadura militar, na redemocratização após 1984 com as Diretas Já, com a abertura comercial a partir de 1992 e por com o início do século vigente.

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, o Tropicalismo e o Movimento Armorial no Brasil? Em síntese, foram movimentos que lutaram pela valorização da cultura nacional.

Década após década, o Brasil sempre relegou a cultura nacional a poeira e ao pó, ou seja, a quase nada em termos importância da sua materialidade. Isso não é diferente com os equipamentos culturais, todos em essência são relegados aos “porões” da política cultural.

Os últimos anos tem sido prova disso, de um Estado que não está minimamente preocupado a sua própria memória social e que seus lugares de memória não são importantes para o desenvolvimento da nação. Quanto tempo faz que o Butantã foi incendiado? E o Museu da Língua da Língua Portuguesa? Agora, tudo é reverberado também no Museu Nacional?

Um dos mais importantes equipamentos culturais do Mundo vai ao chão! Simbolicamente, poderíamos comparar a queda do Museu com declínio da democracia e cidadania brasileira vigente, onde o Estado vai ao mesmo tempo, jogar por terra a célebre expressão terminológica de que o governo é feito e deve estar a serviço do povo.

O Direito a cultura é uma prerrogativa inalienável é fundamental instituída na Declaração Internacional de Direitos Humanos e ratificada pelo Brasil através da Constituição de 1988. É dever do Estado e direito do cidadão ter as suas manifestações culturais preservadas, assim como ter acesso a fruição, lazer e entretenimento à equipamentos culturais que contam garantem viva a história evolutiva do seu povo.

Se por um lado é triste saber que as pessoas visitaram mais o Museu do Louvre do que o Museu Nacional do Brasil, por outro, isso é reflexo da ausência de políticas públicas de valorização do patrimônio material e imaterial e em virtude de haver no Brasil um movimento contínuo de aprofundamento de minimização do sentimento de pertença e identidade cultural.

Adiciona-se a isso o sentimento eurocêntrico e estadunidense de parte da população que detêm o capital e que reverbera às classes empobrecidas por este poder hegemônico. É o mesmo grupo patriarcal e secular é contra a imigração dos povos vizinhos em situação de vulnerabilidade social, mas é favor de emigrar aos países da Europa e da América do Norte, relegando aos empobrecidos desigualdade e exclusão social. A estes o Brasil serve apenas para expropriação de suas riquezas.

Essas são algumas das posturas e práticas culturais que estão nesse emaranhado, nesse caldo cultural conflituoso entre “incluídos” e “excluídos”.

Portanto, infere-se que o caso do Museu Nacional é potencialmente apenas a ponta do iceberg de um problema cada vez mais difuso e líquido deste mundo pós-moderno onde o livre mercado dita as regras do jogo. Isso tudo que vemos atônitos é o reflexo de um projeto de Estado que tentará se perpetuar no poder nos próximos 20 anos, tendo um dos princípios básicos, a desvalorização da cultura em todas as suas dimensões.

Com esta última tragédia cultural, abre-se espaço para o fortalecimento da luta em defesa da cultura, através dos seus lugares de memória, com olhares mais lúcidos críticos, pensando-os como ecossistemas culturais estratégicos de desenvolvimento social, cultural, informacional e memorial.

É muito mais barato ao Estado investir em uma democracia participativa e uma cidadania ativa por meio da sua dinâmica e práticas culturais do que em gastar dispendiosamente em regalias que não contribuem em nada para solidificação de um povo, que a este chamamos de Brasil.

Ficarei intensamente torcendo para que esta lista de crimes culturais tenha acabado, pois tenho que receio dê se tenha sequência ao que conhecemos hoje por Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, IBRAM, IPHAN, a Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Casa de Rui Barbosa, Bibliotecas, Museus e Arquivos nas suas mais diversas naturezas, dentre outros inúmeros equipamentos culturais que podem se tornar vítimas do esquecimento cultural brasileiro, seja em nível federal, estadual ou municipal.