Presença do Bibliotecário no Mercado Editorial

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

O mercado editorial aos longo das últimas décadas tem passado por diversas transformações, que de certa maneira, são mudanças antagônicas, pois, por um lado observamos cenários de retrações quanto ao contexto das livrarias e fragilização das bibliotecas públicas, por outro, temos a expansão de modelos de negócios editoriais.

Essa crise, com a qual muitos especialistas tem retratado, não reflete apenas retração. Ela também gerou um movimento de geração de espaços capazes de incorporar novas perspectivas de trabalho e de atuação para distintas formações.

Neste sentido, o profissional da informação, o bibliotecário, em especial, começou a perceber que iniciara no Brasil, uma abertura, uma recepção aos conhecimentos biblioteconômicos, favorável e positiva, que em outro momento, até certo ponto, seria limitado a tarefas convencionais do Campo.

Tarefas como Classificar, Catalogar e Normalizar, continuam sendo relevantes, todavia, as novas demandas do mercado editorial, tem apresentado ao bibliotecário oportunidades singulares de atuação. Ao seu papel clássico, outras práticas, outras atividades são potencialmente adicionadas, fazendo com que o seu papel se expanda e se fortaleça a partir de especializações, como a de:

  1. Analista de Performance (Marketing)
    • Responsável pela estratégia digital, na qual as ações são efetivadas com base no desempenho da campanha, anúncio ou quando a conversão desejada ocorre. Tal conversão, definida antes da veiculação das campanhas, pode ser uma venda, a geração de um lead ou o engajamento do público-alvo, por exemplo.
  2. Criador de Conteúdo
    • Responsável pela contribuição das informações para qualquer mídia e, principalmente, para a mídia digital. Eles geralmente têm como alvo um usuário/ público-alvo específico em contextos específicos.
  3. Curador de Conteúdo
    • Responsável pelo processo de organização de conteúdos, selecionando os que mais interessam para o seu público. Isso inclui diferentes formatos, como texto, vídeo, áudio, dentre outros.
  4. Curador Digital
    • Responsável em manter, preservar e agregar valor aos dados de pesquisa digital ao longo de seu ciclo de vida. A gestão ativa dos dados da pesquisa reduz as ameaças ao seu valor de pesquisa a longo prazo e mitiga o risco de obsolescência digital.
  5. Designer UI/UX
    • Responsável pela experiência e navegação dos usuários em multiplataformas como websites e aplicações mobile.
  6. Editor Executivo
    • Responsável por uma editora ou pelo conteúdo de um jornal, livro de uma revista ou de um outro meio de comunicação.
  7. Gestor de Plataformas Editoriais (OJS/OMP/DSPACE)
    • Responsável pela gestão da plataforma por meio de softwares de código aberto com vistas a permitir a mediação de pesquisas para melhorar a qualidade e o alcance da publicação acadêmica.
  8. Indexador (Objetos Digitais)
    • Responsável por definir as estratégias e técnicas de Representação da Informação capazes de assegurar a recuperação de qualquer documento ou informação no momento em que um usuário busca um assunto em um sistema de informação.
  9. Produtor Editorial
    • A tarefa do profissional é desenvolver e coordenar projetos editoriais, nas mídias impressa e digital. Dentro de cada uma, o profissional atua em várias etapas do processo de edição – da seleção de originais à produção gráfica, da consultoria de tendências editoriais à revisão de um produto.
  10. Analista SEO (Search Engine Optimization ou Otimização de Mecanismos de Busca)
    • Para ter uma estratégia de sucesso em marketing de conteúdo você precisa saber como gerar visitas (tráfego) a partir dos motores de busca. De modo geral, o Analista de SEO possui 4 funções principais: 1) Pesquisa de palavras-chave; 2) SEO on-page; 3) SEO off-page; 4) Análise de métricas.

Você pode se perguntar, mais essas atividades não são inerentes a outras áreas? Sim, e Não. São interdisciplinares. São Campos aproximativos da Biblioteconomia, que de alguma forma já são tratados no escopo das Escolas de Biblioteconomia do Brasil. Percebe-se nesse contexto, que o Bibliotecário, até pela sua peculiar formação, se aproxima de maneira singular a estas áreas elencadas.

Com a explosão dos podcasts, videocasts, audiolivros, e-books, revistas digitais e das comunidades de criação e produção de conteúdos digitais em mídias sociais, como os feitos por um tiktoker, instagramer ou youtuber, a presença do profissional bibliotecário é cada vez mais relevante.

Mas é importante pensar que a sua atuação, independente do meio, deve ser pautada pelo princípio da Bibliodiversidade, ou seja, de valorizar dentro do Ecossistema do Conhecimento, todas tipologias de agentes, de formas, expressões socioculturais, conteúdos, distribuição e das línguas dos países do Sul.

Para mais detalhes, assista ao vídeo disponível em nosso Canal: https://youtu.be/aOVV3FTu2FA.

Portanto, ao adentrar a academia ou estar prestes a entrar no mercado de trabalho, é salutar pensar que o mundo editorial, é um caminho real de absorção mercadológica, podendo permitir ao profissional bibliotecário, experiências inigualáveis de Gestão, Organização e Mediação de Conteúdos.

Vamos “abrir o coração” e “expandir a mente” para que consigamos se adaptar as atuais demandas do Ecossistema do Conhecimento.

O que é o SciELO Livros

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

O Ecossistema dos livros, ao longo da história, tem passado por diversas transformações e produzido distintas experiências.

Em meio a este cenário, surgiu em 2012, o SciELO Livros, cuja experiência se apresentava considerando e aproveitando todo o knowhall e a expertise das práticas exitosas da Rede SciELO Periódicos, que já desfrutava ser um projeto de ampla envergadura e robustez direcionado ao Campo Científico.

O ScieLO Livros surge como uma proposta singular e estratégica para o mercado editorial, especialmente por que em sua estrutura, está a capacidade de integrar, mediar e democratizar o conhecimento oriundo de sua rede Latino-americana de parceiros.

Diante disso, destacamos 10 pontos que julgamos relevantes, a saber:

  1. Faz parte do ecossistema do livro a 10 anos
  2. Integrante de uma das maiores e mais importantes Redes da América Latina e do Caribe, que é o SciELO
  3. Valoriza o Movimento Internacional Acesso Aberto
  4. Oferta as obras de grande relevância disponíveis nos catálogos das editoras parceiras
  5. Contribui com a Bibliodiversidade
  6. Disponibiliza o acesso por meio de arquivos em formato .pdf e .epub
  7. Livros indexados e presentes em importantes marketplaces do Brasil
  8. Aceitação e Legitimação Científica
  9. Permite acesso a conteúdos multilíngues (Português, Espanhol e Inglês)
  10. Opera os Objetos Digitais valorizando os processos de Disponibilidade e Interoperabilidade

Para ter acesso a mais detalhes sobre o assunto, assista ao vídeo abaixo em nosso Canal: https://youtu.be/fGKiKHjZ6QY.

Conheça o SciELO Livros: https://books.scielo.org

A Realidade Aumentada e o Mundo dos Livros

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Hoje estou aqui para falar da Realidade Aumentada no contexto do mundo dos livros.

Não é de hoje que temos visto o mercado editorial passar por crises, que são cada vez mais frequentes. Em certa medida, no Brasil, esse cenário foi aprofundado nos últimos anos pela instabilidade da economia, o avanço das desigualdades sociais e com a pandemia causada pela Covid-19.

Mas mesmo assim, o mercado editorial tem tentado encontrar saídas, mesmo que de certa forma tardia, para inovar e desenvolver novos produtos e experiências. Distintas ideias estão sendo gestadas, como, o debate sobre a Bibliodiversidade, os modelos de financiamento baseados em Crowdfunding, as autopublicações, os audiolivros, as plataformas e mídias sociais para escritores, os clubes de livros, as Editoras Independentes e a Realidade Aumentada, por exemplo.

Do ponto de vista das Tecnologias voltadas ao fazer editorial, vale a pena citar nesta conversa, a Realidade Aumentada, cuja relevância tem sido impulsionada nos últimos anos, em especial, pela popularização do jogo Pokémon GO.

Construir uma experiência de mediação e engajamento por meio da disponibilização de Objetos Digitais em 3D é algo de extrema relevância no sentido de fazer as pessoas emergirem em espaços virtuais de forma natural.

Essa Hiper-realidade, iluminada por o Jean Baudrillard, nos conecta com o novo e o impensável, nos permitindo conhecer mundos inexplorados e soluções inesgotáveis.

O impacto da Realidade Aumentada direcionado ao mundo dos livros já começou a relatar as suas primeiras incursões ao meio literário, como as obras retratadas pela escritora Maranhense, Márcia Marques (veja aqui: https://youtu.be/gTuXqCukTjk).

A Realidade Aumenta além de permitir uma visão para além do que conhecemos, nos coloca na posição de ampliarmos as possibilidades editoriais, seja de mercado, culturais ou educacionais, como também nos possibilita a conquista de novos consumidores, fazendo com que se fortaleça um ambiente rico de acesso e de democratização do conhecimento pelas múltiplas formas de leitura.

Portanto, temos a oportunidade de reposicionar o livro no contexto da História da Cultura Brasileira. O leitor de hoje é conectado, crítico e anseia por inovações. Isso faz com que precisamos estar um passo a frente para oferecer algo que seja atraente, colocando-o em situação êxtase, de prazer, de satisfação para com seus desejos e anseios literários, pois, o livro é antes de qualquer coisa, uma experiência.

Ficou interessado no assunto, assista ao vídeo no nosso Canal, via: https://youtu.be/dTfMa4rmd2M.

O conhecimento que transforma

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

Post atualizado: 20:47

Acontecem coisas na nossa vida que nos deixam positivamente perplexos!

Recentemente, fui contatado por uma ex-professora de português, a dileta Cláudia Gomes, cujo contato tinha acontecido pela última vez em 1996, ou seja, ha 23 anos, quando fui seu aluno da então 8ª série (ensino fundamental).

Este contato foi mediado por amigas em comum: a professora Karla Ronise e a ex-aluna e colega de turma da época, Mariza Campos. Ambas nos tinham em suas redes sociais virtuais, exceto nós dois, a professora Cláudia e eu.

Na rede social virtual da professora Cláudia ela publicou o seguinte post:

Em 1996, passei um trabalho para minhas turmas de 8ª Série no Eliah: os alunos deveriam escrever uma história num pequeno livrinho. Até hoje, guardei-os com muito carinho. Agora eu gostaria de devolvê-los aos respectivos autores. Se você conhece alguém desta lista abaixo, por favor, entre em contato com o mesmo ou passe no Messenger o contato para mim. Sei que vai ser um trabalho de formiguinha, mas vai ser prazeroso reencontrar ou manter um novo contato com estes ex-alunos da nossa querida Escola Eliah (GOMES, 2019, online).

Dito isso e marcado na postagem como um dos alunos “procurados”, fiquei, ao mesmo tempo, perplexo, feliz e emocionado!

Eu não lembrava desta produção, mas, após o primeiro contato com a mesma, recebi a tão falada informação sobre a qual retratava aquela produção literária, conforme é vista na imagem a frente:

“A Bruxa que não era Bruxa”, por Sale Mário G.

A imagem remeteu a todo um “filme” que a memória coletiva permitiu reaparecer após um longo período de esquecimento. Lembrei minimamente da concepção da ideia, do fazer e da possível intencionalidade. Sei que tudo que fiz foi muito rudimentar. Muito provavelmente nem reflita mais a cultura de um outro jovem que estude no mesmo local e de classe social similar, mas, em essência, o que pode nos unir talvez sejam os sonhos, os desejos e/ou anseios de um futuro promissor, que pode ser iniciado por meio da literatura ou por outro caminho.

A arte, neste caso, foi uma espécie de meio de condução para permitir que o imaginário, por meio de uma simbologia fantástica, se viabilizasse. Possivelmente, hoje, ao olhar para o texto, seja viável ratificar limitações, mas, neste caso, não é isso que importa. O que, verdadeiramente, se torna salutar é o fato de termos nas mãos algo forjado com zelo, apreço e verdade.

É uma verdade que te tira da zona de conforto, que te faz se permitir e que não está preocupada em saber se o título representaria um “best-seller”, apesar de que um adolescente sempre idealiza o improvável como sendo certo! Risos!

Neste sentido e considerando o que uma atividade escolar pode permitir, reencontrei a pessoa que zelou pelo trabalho de diversos alunos por mais de duas décadas. O que será que tem revelado esse “baú de tesouros” após a sua descoberta e abertura? Em essência, sonhos, dos mais diversos!

Ao final de tudo isso, os singelos livros estão reencontrando os seus criadores. Eu, por sua vez, estou muito ansioso para encontrar aquele que, por algum motivo, foi capaz de me permitir olhar além do que era formalizado e convencionado como certo pelos “adultos” e que na prática só foi possível ser viabilizado porque tínhamos como tutora a professora Cláudia. Ela nos tirou das nossas caixinhas, as quais fomos formatados pela sociedade. Ela nos permitiu levar conosco um pouquinho da sua visão amplificada, que, sem a mediação devida, muito provavelmente não teríamos conseguido.

Obrigado professora Cláudia Gomes!

O que é cibercordel

Coluna escrita por Mário Gaudênci

O folheto tem proporcionado profundas ressignificações artísticas capazes de colocar o cordel como uma referência na cultura brasileira, formando novos produtores, autores e um público consumidor cada vez mais diversificado. Isso é possível de perceber, por exemplo, através das artes plásticas, artes cênicas, da literatura, da música e da internet.

No caso da internet, esse processo de ressignificação poética tem ocorrido em toda estrutura web, seja por meio de sites, portais, das mídias sociais ou da blogosfera, esta última a maior e mais forte fonte de divulgação e disseminação da informação poética do cordelista. Isso faz com que as temáticas, ou mesmo os motes, estejam transitando e emergindo em outros suportes que não sejam exclusivamente os folhetos impressos.

Ao tentar apresentar o cordel nos dias atuais, convém antes entender a necessidade de observar os espaços nos quais estão inseridos e foram consolidados.

Mesmo os autores respeitando a métrica e a rima, hoje podemos encontrar estabelecidos três formatos de cordéis: impresso, digitalizado e digital.

O primeiro é conhecido como “folheto de cordel”, “folheto” ou “cordel”, que são textos produzidos em folhas impressas, normalmente com tamanho 11×16 cm, utilizando papel jornal, tendo suas capas xilogravadas em talhas de madeiras ou metodicamente idealizadas por meio da computação gráfica. Tem como autores potenciais, em sua maioria, pessoas semialfabetizadas e que, em muitos casos, sobrevivem em função das produções poéticas. Na visão de Nascimento (2011)

[…] o folheto de cordel – é um produto que se situa contiguamente entre a oralidade e a escrita, representa, numa grande faixa de produção, a fusão de três componentes: 1) O texto oral, tradicional, guardado na memória do poeta/narrador, com vida milenar ou mesmo relativamente recente, aceita pela tradição; 2) A notícia do acontecido, um aproveitamento imediato do fato cotidiano; e 3) O trabalho do xilógrafo, que apresenta, no pequeno espaço da xilogravura, a sua visão, o seu ponto de vista do universo do folheto e que passa a integrar-se à obra literária, ligados intrinsicamente pela semântica do texto. (NASCIMENTO, 2011, p. 225).

Contudo, nos últimos anos, em função da cibercultura, da sociedade em rede e da blogosfera, houve uma mutação iniciada com o hibridismo da transposição do impresso para o eletrônico.

Neste cenário de transposição em relação ao suporte, já são vistas algumas iniciativas que disponibilizam, na web, dois outros traços bem definidos de cordéis na rede. Um é o cordel digitalizado, fruto da transposição do impresso para o eletrônico. O outro pode ser definido como o cordel que é exclusivamente virtual e produzido por meio de posts (texto, imagem, áudio ou vídeo), sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda uma dinâmica da forma como a sociedade em rede se organiza. Surge, então, o cibercordel.

O ciber-cordel [sic], nesse sentido, constitui-se como a sinergia entre as formas de narrar do cordel com a interatividade e conectividade desterritorializada e simultânea do ciberespaço. É, dessa forma, um cordel produzido em rede, impondo a autoria coletiva como forma de produção da obra. O ciber-cordel (sic) não é, portanto, a simples transposição do cordel feito off-line para o nível on-line. Além disso, é a efetivação de uma obra de literatura popular em verso sob as possibilidades de comunicação horizontal e simultânea que a plataforma comunicacional do ciberespaço oferece. (SOUSA, 2007, p. 6, grifo nosso).

Após surgir o cordel eletrônico, conhecido e definido embrionariamente de cibercordel na primeira década do século XXI, observa-se que estes,

[…] incorporados pela Internet, os cordéis adquirem característica de hipertexto, e passam a ser reconhecidos pelo nome de “cibercordel” que é uma forma de cordel que incorpora as mídias oferecidas pela web. Além de estar no ciberespaço, é um hipertexto que utiliza os recursos da web, como animações, podcasts, links, comércio online, etc. (FONSECA; ALVES; CAVALCANTE, 2010, p. 7, grifo nosso).

Utilizando como parâmetro o posicionamento acima e relacionando com os postulados da Ciência da Informação, percebe-se que o cibercordel encontra amparo acadêmico nos postulados de Rafael Capurro, especialmente com base nos seus paradigmas, que trazem à tona os aspectos físicos, cognitivos e sociais.

Para Capurro (2003, p. 8), o paradigma físico “[…] em essência […] postula que há algo, um objeto físico, que um emissor transmite a um receptor.” Esse objeto que é emitido nesse contexto é o cibercordel. O mesmo não só transita de forma dinâmica na relação emissor e receptor, mas também vai além. Na maioria das vezes essa informação transmitida é realimentada, proporciona de forma quase que imediata um feedback. Tem-se, assim, uma informação que é exclusivamente virtual, e enquanto objeto físico promove uma prática cíclica entre o processo de recepção e mediação poética.

No que diz respeito ao paradigma cognitivo, Brookes (apud CAPURRO 2003, p. 10) observa que este modelo acontece por meio dos “[…] conteúdos intelectuais que formam uma espécie de rede”. Para o mesmo autor, é necessário também, “[…] ver de que forma os processos informativos transformam ou não o usuário […]”, o sujeito cognoscente. Percebe-se, em virtude deste posicionamento, que o cibercordel não pode ser visto apenas como um “objeto insignificante”. É preciso que seja percebido como uma linguagem informacional de densidade de conteúdos singulares, fruto do processo de idealização, pensamento e construção intelectual que geram não apenas poesias, mas em especial informações configuradas através de cenários, casos, vivências ou relações sociais. Podem ter sido concebidas, por certa medida, de forma individual ou influenciada por agentes ou ambientes de sua área de domínio ou até externas a elas. Essas idealizações intelectuais particulares por influências avessas proporcionam novos cenários e conjunturas das mais díspares e inesperadas fazendo com que a realimentação literária transforme as relações entre o autor (cordelista) e o leitor (usuário e receptor). Deste modo, a partir do momento que a informação poética é disseminada, aquele que poderia ser apenas um leitor, também poderá assumir o papel de escritor, autor, comunicador ou blogueiro. A informação poética circula através do blogueiro primário, contudo, possibilita a terceiros também terem crédito sob a obra, pois a mesma, ao ser comentada e muito provavelmente até reescrita, produzirá uma poesia popular híbrida fazendo com que o texto seja ressignificado a todo o momento e tornando o processo cognitivo único, algo vibrante e de fato poético, sem limites ou barreiras para trabalhar os conteúdos intelectuais na web.

Para o paradigma social, Capurro (2003, p. 14) comenta que esta dimensão deve ir “[…] para além do conhecimento humano, relacionando-o a todo tipo de processo seletivo […]”. Percebe-se então que este último paradigma também dialoga com a poética criada em torno das relações culturais e sociais e pode estar diretamente inserido no contexto dos cibercordéis, não apenas pela sua configuração, mas em especial pela forma como estes textos informacionais são produzidos, por quem são idealizados, assim como, como são escritos e interpretados. O habitat no qual os cibercordéis transitam, favorecem relações além da sua própria área de domínio, possibilitando o diálogo, criando e promovendo relações sociais com outros. São produções horizontais que se dão de dentro para fora e de fora para dentro (input e output), numa relação contínua e adaptável. O conhecimento humano produzido pela via do cibercordel se entrelaça naturalmente em teias complexas. Isso fica nítido na relação emissor e receptor. Capurro (2003, doc. não paginado), por sua vez, chama isso de informação que deve “[…] entrecruzar ou, por assim dizer, enredar ou tramar […] mostrando a tessitura complexa da linguagem comum […] em torno […] de sua relação com a realidade social e natural”.

Diante disso, o cibercordel sob a perspectiva da Ciência da Informação é todo e qualquer objeto informacional amparado pelas regras poéticas construídas através do clássico cordel e produzido exclusivamente na internet. Sua construção, independente do momento, será materializada sob um esteio físico, cognitivo e social.

Sua exclusividade virtual permitirá produções poéticas através de postagens ou publicações que possibilitem comentários, imagens, áudios, vídeos ou qualquer outro tipo de manifestação pública, anônima ou identificada sob a estrutura do ciberespaço e aproveitando toda dinâmica e hibridação da forma como a sociedade em rede se organiza. São percebidos que os ciberespaços que melhor acolhem os cibercordéis são os blogs; ambientes adaptáveis, personalizados, de fácil acesso, utilização e comunicação.

Dois outros fatos que estão por trás desta nova forma de escrever a poesia popular é a elevação do nível de formação acadêmica dos poetas e o alto grau de rapidez no processo de mediação informacional e formação potencial de um novo público leitor.

Esta conjuntura poética faz do folheto um artefato de ressignificação informacional e memorialista que viabiliza uma percepção multifacetada, tanto para o produtor quanto para o consumidor ou leitor de poesia popular. Entretanto, o processo de ressignificação do cordel não se deu exclusivamente através dos cibercordéis, tampouco iniciou com eles. Pelo contrário, desde o século XX, em especial a poesia popular, tem passado por diversas transformações literárias, sejam por incorporar novos elementos às suas concepções, como tipologias de capas, criptografias por meio de acrósticos, ou surgimento de poetas das mais diversas classes sociais. Isso proporcionou à literatura de cordel influenciar e transitar por diversos “mundos” poéticos e literários, fazendo com que se tenha atualmente consolidado esta nova forma de fazer cordel a partir da internet, ou seja, o cibercordel, sem ser necessariamente um “neocordel” como tem sido propagado por um pequeno grupo da poesia popular. O fato é que se consolida apenas o surgimento de uma nova forma de escrever e registrar a poesia popular, o cibercordel. Mesmo assim, apesar dos cibercordéis serem produzidos na internet, todas as características básicas do cordel impresso são preservadas (técnica, concepção, poética, temática, etc.). As ressignificações que buscaram e buscam apoio ou inspiração na literatura de cordel se dão, muitas vezes, com base nos motes que “iluminam” a escrita dos folhetos pelos poetas de bancada ou cordelistas.

Percebe-se que, ao longo de mais de um século, o cordel tem se inspirado em vários motes e que, dependendo das temáticas abordadas, os cordelistas eram até conhecidos como poetas-repórter. Um dos mais famosos é o José Soares, que ficou conhecido pelo cordel sobre a morte de Getúlio Vargas, em 1954, com tiragem de 100 mil exemplares. Isso para dizer que nenhum assunto escapa para ser tema de um cordel (O CORDEL…, 2003, doc. não paginado).

Todos os assuntos são de interesse do cordelista, poeta de bancada ou poeta-repórter. Os temas que inspiram os poetas foram reclassificados recentemente em pesquisa doutoral, num total de 27 (vinte e sete) classes temáticas, quais sejam: (1) Agricultura; (2) Biografias e Personalidades; (3) Bravura e Valentia; (4) Cidade e Vida Urbana; (5) Ciência; (6) Contos; (7) Crime; (8) Cultura; (9) Educação; (10) Esporte; (11) Erotismo; (12) Feitiçaria; (13) Fenômeno Sobrenatural; (14) História; (15) Homossexualismo; (16) Humor; (17) Intempéries; (18) Justiça; (19) Meio Ambiente; (20) Moralidade; (21) Morte; (22) Peleja; (23) Poder; (24) Político e Social; (25) Religião; (26) Romance; (27) Saúde e Doença. (ALBUQUERQUE, 2011).

A partir disso, percebe-se o quão imensas são as possibilidades de escrever textos sob as mais variadas temáticas. Os textos produzidos nos folhetos conseguem descrever realidades, fatos históricos, retratar personalidades, motivar o ativismo ambiental, entre outros.

Portanto, o cenário demonstrado nesta cessão leva a poesia popular a uma “Virada Cordelista”, ou seja, a uma mudança na forma de conduzir a literatura de cordel, retomando o seu curso normal a partir do declínio pós 1950, abrindo novas possibilidades de produção, divulgação, acesso, pensamento, reorganização, postura, espaços, enfim, de um realinhamento que se aproveita da inserção do cordel no ambiente escolar, das novas descobertas científicas e da adoção da internet como forma comunicar o cordel, descobrir novos poetas e de preservar a sua memória coletiva.

¹ Recorte extraído do artigo “Representação semântico-discursiva de cibercordéis”, escrito por Mário Gaudêncio e Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque na Revista Em Questão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2017.

REFERÊNCIA

CIBERCORDEL. Conceito. Disponível em: https://wp.me/P1PaDd-1F.

GAUDÊNCIO, M.; ALBUQUERQUE, M. E. B. C. de. Representação semântico-discursiva de cibercordéis. Em Questão, Porto Alegre, v. 23, n. 1, jan./ abr. 2017.  Disponível em: https://goo.gl/SuQvuZ>.

Uma outra literatura é possível?

Coluna escrita por Mário Gaudêncio

O texto escrito pelo Jornal El País por António Jimenez Barca intitulado “A literatura brasileira muito além do futebol e do samba”, nos provoca a fazer várias reflexões, dentre elas, está a necessidade de nos perguntar para quem escrevemos e que tipo de literatura precisamos oportunizar.

Muitas vezes, ficamos “amarrados” a ideia de uma literatura “erudita”, seletiva e bairrista que é destinada a poucos, seja por questões de classe, pessoal ou de limitação do pensamento editorial.

Mesmo após 500 anos da invasão portuguesa ao Brasil, continuamos visualizando que o acesso ao conhecimento é limitado e personificado de intenções ideológicas que ainda estão distantes para integrar de fato o país.

O Estado continua aprofundando dividendos históricos que dificilmente serão equacionados, seja por uma questão conjuntural ou por ausência de motivação política.

É preciso que sejam criadas verdadeiras políticas literárias de inclusão, tanto voltadas aos escritores quanto aos leitores. É preciso favorecer uma escrita literária plural, onde os mais diversos rostos da sociedade tenham espaço na cadeia produtiva da dinâmica artística nacional.

Estas barreiras refletem a estrutura educacional e cultural vigente, onde poucos podem escrever e/ou ter acesso as produções artísticas.

Portanto, enquanto não for promovida uma política literária expansiva, integradora e incluidora, não teremos um país plural e que consiga expressar o pensamento da coletividade brasileira. Precisamos de escolas, bibliotecas, universidades, centros culturais, ONGs e outras que respeitem a diversidade nacional, fazendo com que a criação intelectual seja de fato de e para todas e todos.

Texto inspirado na reportagem de António Jimenez Barca, no Jornal El País. O artigo está disponível para leitura na íntegra. Acesse.

REFERÊNCIA

BARCA, António Jimenez. A Literatura brasileira muito além do futebol e do samba. Jornal El País, 31 jul. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/29/cultura/1469788771_200596.html>. Acesso em: 01 ago. 2016.