Resenha da obra a teoria crítica: ontem e hoje

FREITAG, Barbara. A Teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 2004. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra retrata os aspectos históricos, teóricos e metodológicos com os quais a Teoria Crítica fora criada. Observa ainda que seu olhar investigativo se debruça por um lado, valorizando em certa medida o Materialismo Dialético Histórico e por outro refutando a forma como era empregado e a quem servia e se destinava o Positivismo.

O livro escrito por Barbara Freitag, reimpresso em 2004, estruturalmente traz um recorte orientado às três primeiras seções, respectivamente, a introdução, o histórico da Escola de Frankfurt e o conteúdo programático da teoria crítica.

Na introdução, a autora constrói as bases iniciais para uma gênese que articula o objeto da Teoria Crítica a partir uma conjuntura de profundas transformações históricas, políticas, culturais científicas.

Em seguida, ao considerar o histórico da Escola de Frankfurt, traz ao centro do debate os aspectos inerentes a “criação do Institut fuer Sozialforschung (1922-1932)”, o “período da emigração para os Estados Unidos (1933-1950)”, a reconstrução do Institut fuer Sozialforschung em Frankfurt (1950-1970)” e o “renascimento e a superação da teoria crítica”.

Com a criação do Institut fuer Sozialforschung, Freitag (2004, p. 14), se observa que a “grande preocupação de Horkheimer nesses primeiros anos de existência e funcionamento do Instituto” era de elaborar “o esboço de uma teoria materialista, social-psicológica dos processos históricos societários” (SCHMIDT, 1980, p. 27 apud FREITAG, 2004, p. 14). Via-se uma busca por uma teoria que fosse capaz de ir além de um pensamento unidimensional e geral pautado pelo positivismo de Auguste Comte e posteriormente, fortalecido por Karl Popper. Desta forma, Horkheimer “imaginava reorientar a reflexão filosófica da época, partindo de um patamar abstrato para um nível mais concreto que não se confundir-se, no entanto, com o puro ativismo da luta partidária”, assim como é revelado por (FREITAG, 2004, p. 15).

Contudo, a fase de criação sofreu profundos impactos a partir da política totalitária nazista Alemã entre o período Entreguerras e o pós-guerra, também conhecido como guerra fria. Neste sentido, para que o Instituto continue funcionando, seria necessário iniciar um processo de emigração, que ocorre através dos Estados Unidos. Mesmo com a mudança, o Instituto continuaria sendo financiado com recursos privados advindos da Argentina. Foi nesta fase que Horkheimer e Adorno escreveram a obra “A Dialética do Esclarecimento em 1947”, mas também foi neste mesmo período que intelectuais como Walter Benjamin e Maurice Halbwachs perderam a vida pelas mesmas razões com as quais houve a mudança geográfica do Instituto, ou seja, o nazismo. Nesta fase, também são revistos alguns posicionamentos teóricos, dentre eles, o abandono aos paradigmas do materialismo histórico e a desconstrução da ideia de “razão” estabelecido por Kant. Este será um “divisor de águas” à Teoria Crítica, que nesse entremeio o Instituto retorna à Alemanha para iniciar o seu processo de reconstrução, inclusive retomando o seu indiciário ao que era denominado de Escola de Frankfurt. A escola se defronta com novos desafios, por um lado, dispor de um número reduzido de pesquisadores, por outro, de responder a novas demandas e reflexões investigativas como a “questão do autoritarismo e do antissemitismo” (FREITAG, 2004, p. 23). Nesse mesmo período eclodem em grandes universidades um “novo potencial político de uma geração estudantil não conformista” (FREITAG, 2004, p. 23). Este cenário tem como epicentro, maio na “Paris 1968” conforme é relatado por (MATOS, 1998) e que inclusive vai de encontro ao Instituto em Frankfurt fazendo com que Adorno chamasse a polícia no momento em que os estudantes ameaçaram invadir. Segundo a autora, os estudantes “defendiam a transformação radical da sociedade capitalista […] tomando como ponto de partida a democratização da própria universidade” (FREITAG, 2004, p. 24).

Por meio desse contexto e no entendimento da autora, “isso gerou desilusão e incompreensão de ambas as partes” (FREITAG, 2004) que mais tarde, “acalmados os ânimos”, simbolicamente é iniciado o processo de renascimento e a superação da Teoria Crítica, que para Freitag (2002, p. 27), “se distinguem em duas tendências: uma, representada por Tiedemann e A. Schmidt, que consiste em preservar o pensamento de Benjamin, Horkheimer, Adorno e em parte Marcuse […] e outra, seguida por Habermas, Wellmer, Buerger e outros, que consiste em prosseguir de modo original e criador o pensamento dos mestres, não hesitando em criticá-lo e superá-los”. Considerando estes últimos aspectos, Habermas ao criar a Teoria da Ação Comunicativa, eleva-se a condição de “o pensador mais produtivo de uma nova versão da teoria crítica daquele (sic) momento” (FREITAG, 2002, p. 28-29). Contudo, o “renascimento da teoria crítica não é devido exclusivamente aos trabalhos de A. Schmidt, R. Tiedemann e J. Habermas. Há toda uma geração de jovens […] que têm usado a teorização dos frankfurtianos para novas reflexões e buscas de apropriação ou superação de seu pensamento, conforme explicou (FREITAG, 2002, p. 29).

Na sequência a autora explorou os princípios que fortalecem, consolidam e diferenciam a Teoria Crítica de outras correntes de pensamento, especialmente do Positivismo. Isso é viabilizado ao passo que são tecidas as teias de articulação do conteúdo programático da Crítica enquanto fundamento diferencial desta Teoria que sugere um Novo Paradigma ao campo da ciência, especialmente por provocar um outro olhar ao que é estabelecido como “razão”. A reflexão privilegiou a “dialética da razão e a crítica da ciência”. Estas estão divididas em três momentos fundamentais. Ao que tange o primeiro momento, se deu para fazer uma contraposição entre a teoria tradicional (cartesianismo) e a teoria crítica (marxismo). Sugere-se que seja denunciado a exclusividade do “caráter sistêmico e conservador do primeiro” em relação ao segundo, que busca “enfaticamente a dimensão humanística, emancipatória” (FREITAG, 2002, p. 37). Na prática, ao “confrontar o pensamento de Descartes e Marx, Horkheimer não está querendo invalidar um em favor do outro”, ele esclarece que busca “englobar o primeiro no segundo” (FREITAG, 2002, p. 37). A Teoria Crítica sempre partirá de algo que já foi construído, elaborado. Assim, a “teoria crítica começa, pois, com uma ideia relativamente geral […] (FREITAG, 2002, p. 39). Mesmo considerando estes aspectos como complementares, Horkheimer faz uma avaliação crítica em torno dos “equívocos” da própria teoria marxista e chega as seguintes questões, conforme são expressados por Freitag (2002, p. 40), “1) a tese da proletarização progressiva da classe operária; 2) a tese das crises cíclicas do capitalismo; 3) a esperança de Marx de que a justiça poderia se realizar simultaneamente com a liberdade revelou-se ilusória”, mas “apesar da renúncia a certas teses do materialismo histórico, Horkheimer sustenta a necessidade da sobrevivência da teoria crítica. Ela deve visar [..] uma humanidade emancipada”. Ao que se refere ao segundo momento, a questão se dá no embate ente Popper e Adorno, onde primeiro defendia o positivismo (derivado do cartesianismo) e o segundo a dialética (derivado da teoria crítica). Com isso, instaura-se um impasse que não favorece o dialogo conforme buscava Horkheimer no momento anterior. Se para Popper o “sujeito do conhecimento não se envolve com seu objeto, e deve respeitar (sic) o princípio da neutralidade das ciências, constatando ‘o que é’ e silenciando, enquanto cientista, face ao que poderia ou deveria ser” e que consequentemente os “juízos de valor não fazem parte do arcabouço científico do pesquisador” (FREITAG, 2002, p. 45), para Adorno o processo deve ser encarado de maneira diferente, ou seja, é preciso que “a sociologia seja concebida como dialética e crítica” e que ela não possa “deixar de guiar-se pela perspectiva do todo, ainda quando estuda um objeto particular, vendo esse todo não como sistema estabelecido, mas como produto histórico do passado e como aspiração de realização no futuro” (FREITAG, 2002, p. 47). Daí surge a obra Dialética Negativa, escrita por Adorno em 1970, que “consistiria no esforço permanente de evitar as falsas sínteses, de desconfiar de toda e qualquer proposta definitiva para solução de problemas, de rejeição de toda visão sistêmica, totalizante da sociedade” (FREITAG, 2002, p. 48), assim como estabelecia de forma contrária o positivismo de sugerido por Popper. Quanto ao que remete o terceiro momento, será considerado o embate entre Habermas e Luhmann. Habermas ao propor uma teoria da sociedade, se aproximará da Teoria Crítica, entretanto, quando Luhmann sugere uma teoria sistêmica, automaticamente dialogará com o Positivismo. Dessa forma, Habermas buscou “elaborar uma ‘nova’ teoria da sociedade como alternativa à teoria sistêmica, representada por Luhmann” (FREITAG, 2002, p. 53). Nesse contexto, “Habermas critica Luhmann, mostrando e confirmando que a incompatibilidade entre as duas formas sistêmicas, e ressalta a dificuldade de utilizar de forma produtiva o conceitual cibernético para sistemas socioculturais (sic) ” (FREITAG, 2002, p. 54). Essas divergências também avançam em outros cenários, que “em última instância”, ocorre “em torno da concepção e do surgimento de significados”. Tomando por base esta concepção, Habermas se mostra “convencido de que o conceito de sistema e o de informação são incompatíveis com uma análise efetiva dos fenômenos sociais”. Ao considerar as facetas deste embate teórico-filosófico, Habermas responderá a Luhmann em definitivo através da Teoria da Ação Comunicativa, onde a ideia central de é a de “elaborar um novo conceito de racionalidade comunicativa, propondo um novo paradigma para a discussão sociológica”, incluindo inclusive “um novo conceito de razão […]. A razão comunicativa […]”. O diferencial da razão comunicativa é ela “no ponto de intersecção de três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e o mundo subjetivo dos afetos” (FREITAG, 2002, p. 59-61). Portanto, a Teoria da Ação Comunicativa “permite reconstruir os processos evolutivos das sociedades do passado ao presente, na medida em que fornece um conceitual que permite dar conta da complexidade e da contradição inerente a nossas modernas sociedades” (FREITAG, 2002, p. 63).

Ao buscar fechar o pensamento em relação ao recorte da obra “A Teoria crítica: ontem e hoje” escrito por Barbara Freitag, é possível considerar que apesar da Escola de Frankfurt e através dela, da Teoria Crítica ao longo da história tem vivenciado constantes mutações, seja pelas mudanças em virtude totalitarismo alemão, pela perda de importantes teóricos, pela necessidade adaptação, avaliação ou autocrítica ou pela sua mudança paradigmática, o importante é que ela não apenas sobreviveu, mas fez ecoar suas reflexões e debates acadêmicos pelas mais diversas partes do mundo, influenciando variadas universidades e cientistas que buscam cotidianamente entender a complexidade da sociedade a partir de métodos ou abordagens capazes de provocar no pesquisador o sentimento contínuo pelo entendimento do todo, em todas as dimensões, sempre considerando que não existe verdade incondicional e que tudo na relação sujeito e objeto precisa ser considerado e respeitado em todas as suas particularidades, sejam elas históricas, culturais, sociais, econômicas ou informacionais.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra Paris 1968: as barricadas do desejo

MATOS, O. C. F. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo, 1998. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

 

Neste livro, Matos (1998), irá considerar 6 (seis) aspectos estruturais para basilar a sua escrita histórico-sociológica, conforme temos: a) Maio de 1968: poesia e revolução; b) Pour une planète plus bleue (slogan do movimento); c) Uma internacional estudantil; d) Os antecedentes; e) A primavera do assalto ao céu; f) Maio: revolta ou revolução. A Obra por Olgaria C. F. Matos escrita por se dá tentando analisar os fatos e contexto com as quais foram inseridas as manifestações ocorreram mundialmente a partir do movimento “Paris 1968”.

Sinteticamente a obra nos conduz a perceber que, havia uma insatisfação estudantil, especialmente, universitária quando a garantia de direitos oferecidos a sociedade. Observava-se que essa insatisfação se fortalecia por ter evidenciado um cenário onde os representantes populares, sejam eles comunistas, socialistas e/ou capitalistas não conseguiam mais visualizar as reais demandas da população francesa, fazendo com que surgisse uma fissura social e política que sedimentaria o ambiente propício que se fossem lançadas dúvidas, questionamentos e manifestações. O berço dos estopins são as universidades, dentre elas, está a tradicional Sorbonne e aqueles que a representavam. Reconhecida como um símbolo estratégico para cultura francesa, segundo os estudantes, esta já não falava mais a língua deles, tão pouco atendia os anseios dos universitários, seja na própria instituição ou fora dela, quando os mesmos eram colocados a prova no mercado de trabalho.

Em virtude de os jovens universitários não vislumbrarem perspectiva de mudança, seja para atender as reformas estruturantes necessárias ou pelas mudanças culturais quanto às liberdades de expressão, a classe estudantil inicia um processo de alargamento do debate político baseado nas demandas sociais que o governo não conseguia ou não queria visualizar.

Esse inquietamento educacional, é antagonicamente construído em um contexto de relativa satisfação econômica e social, e que por esse motivo assustou a comunidade representativa partidária, tenha ela um viés ideológico direcionado à direita ou a esquerda. Dois outros aspectos relevantes e que normalmente estão diretamente relacionados são adicionados a esta realidade, mas que não foi a situação referencial à primavera francesa. Em primeiro lugar, trata que este momento não é essencialmente um processo fruto da luta de classes, condição singular ao processo de disputa pela garantia de direitos, historicamente tratado e evidenciado nas disputas na relação entre burguesia e proletariado. A segunda, que deriva da anterior, trata da não participação e envolvimento dos trabalhadores e dos partidos de esquerda no âmbito da luta estudantil, salvas as iniciativas excepcionais dos jovens trabalhadores que entenderam a importância da luta pela garantia de direitos em torno de temas que para muitos não eram considerados relevantes, e consequentemente silenciados pelo governo aos olhos da grande massa populacional e que em certa medida precisava ser descortinado pela juventude universitária e que a partir dela, estas pautas em maior ou menor proporção começam a ser aceitas e implantadas por diversos grupos estudantis em países da Europa, América do Norte e América do Sul. Temas como sexualidade e liberdade de expressão, antes relegados a marginalidade, começam a fazer parte da agenda de discussão social.

Apesar da luta travada na primavera Parisiense, o movimento era essencialmente ideológico, revelando uma mobilização horizontal, espontânea e orgânica, basilada em maior ou menor escala no Materialismo Histórico Dialético. Mesmo assim, o Maio de 1968, a partir da França, conseguiu revelar diversas lideranças políticas que emergiram a partir da “queda dos muros universitários”, dentre eles está o Franco-Alemão Daniel Cohn Bendit, atualmente deputado europeu e que mesmo sendo um refugiado alemão por sua condição judia, fez frente ao regime vigente. Este fato por sua vez, o fez retornar a Alemanha ainda no período da guerra fria.

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Atrelado ao que pensada o movimento estudantil, um dos fatores positivos que se percebeu foi a forma como as informações produzidas eram comunicadas, os grafites e os muros se revelaram como tecnologias diferenciais e significantes para apresentar as intenções do movimento e canalizar os seus discursos. Isso possibilitaria além de emitir juízo de valor aos pensamentos dos manifestantes, possibilitou tornar as suas intenções mais próximas da sociedade. Negativamente, um aspecto de desestabilização percebido é que não se tinha uma estrutura hierárquica e tática para articular melhor as formas de contrapor-se ao Poder legitimado, especialmente porque em meio as batalhas, piquetes e barricadas, o setor sindical e os partidos de esquerda, setores da sociedade de que se esperava um suposto apoio, de forma inesperada não ocorrera. Um dos possíveis motivos, talvez tenha sido possíveis acordos trabalhistas já fechados ou em fase de serem ratificados. Uma outra possibilidade, é que em virtude de suas visões e posturas unidimensionais estes setores que supostamente deveriam defender os interesses do povo em relação ao Estado, tenham ficado presos e/ou limitados apenas a bandeiras como o “aumento do consumo”, “redução da carga horária” e “ascensão ao poder”. A própria esquerda estava submersa e envolta ao jogo e as armadinhas do capitalismo global.

Portanto, é possível minimamente concluir que as manifestações Parisienses tentam fazer valer a ideia etimológica de “Democracia”, quanto “governo que emana do povo” e “Política”, como a “arte da busca pelo bem comum”. Fez a sociedade francesa perceber que o seu núcleo de representação política tinha se descolado do povo, das bases e não conseguia mais ver o que de fato eram as demandas sociais que surgiam em meio ao processo de reconstrução estatal e da promoção da modernização do modo de produção capitalista que ocorrera a partir do período pós-guerra, a guerra fria. Os estudantes conseguiram mostrar este momento foi um momento de revolta e revolução. Revolta porque era situacional e angustiava o descaso frente a problemas que não tinham respostas. Para isso era preciso lutar, ir as ruas, marchar para fazer ecoar o sentimento incompreensão. Revolução porque ela precisa ocorrer diariamente dentro de cada um, independentemente da bandeira de luta. É algo que se faz de dentro para fora, conforme os estudantes demonstravam. Era a luta pela liberdade de expressão das mais diversas maneiras, era o direito de acesso e de garantias ao modo de viver, se reunir, trabalhar e isso nem o comunismo ortodoxo tão pouco o capitalismo de consumo poderia possibilitar. Buscava-se um outro modelo de sociedade, novas utopias, um outro contrato social.

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Fonte: Domínio público via https://pixabay.com (2018).

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

O que esperar de uma Biblioteconomia EaD?

por Mário Gaudêncio
Postado em: 23/03/2018
Atualizado em: 09/04/2018

O que a fazer para responder a ausência de bibliotecários em unidades informacionais escolares? Para tentar responder a este problema-chave, a Capes lançou no dia 23/03/2018, o curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância (BibEaD).

Para viabilizar a proposta, a UAB (2018, online), recomenda que o BibEAD seja “um curso do Sistema Universidade Aberta do Brasil, com projeto pedagógico de curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância […]”.

Nesse sentido, a Capes (2018, online), observa que o curso “[…] é resultado de uma parceria entre a CAPES, o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem por objetivo suprir a carência de bibliotecários, bem como a necessidade de atender a Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino até 2020, com a presença e atuação do profissional bibliotecário em todas as bibliotecas instaladas no país”.

Esta proposta na modalidade a distância, apesar de buscar responder a demandas sociais e de mercado, terá profundos desafios para que se consolide no cenário nacional. Vê-se que, a partir do momento que seu funcionamento for efetivado, será preciso concomitantemente construir uma forte rede de articulações ativas e altivas para que os profissionais oriundos destes possam ser inseridos ao mercado de trabalho, especialmente em bibliotecas escolares.

Vale lembrar que estas unidades de informação citadas, por um lado, funcionam de maneira precária, por outro, nem existem enquanto estrutura física. Nesse entremeio, está a total despreocupação com “coisa pública” pelos parlamentares e executivos das esferas públicas.

Portanto, a tarefa da implementação do curso de biblioteconomia traz a reboque diversas questões, que para serem solucionadas, será necessário muito mais que consciência de classe.

Para acessar o Projeto Pedagógico do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância, clique aqui.

Para acessar a Bibliografia do Projeto Pedagógico do Curso (versão preliminar), clique aqui.

Para acessar o Folheto Informativo, clique aqui.

Para maiores informações, acessar o portal da Capes e da UAB.

O que queremos das bibliotecas?

por Mário Gaudêncio

CONTEXTUALIZAÇÃO

Ao longo da história, a educação brasileira tem vivido sob constantes transformações. Nesse contexto, percebemos cenários dicotômicos de avanços e retrocessos.

A partir desta conjuntura, quando tratamos de educação também pensamos nas bibliotecas, que ao longo de sua existência tem sido em sua maioria negligenciada pelo Estado, salvas as últimas iniciativas provocadas pela sociedade e as entidades de classe ligadas a educação e ciência da informação. A exemplo disso, está o Conselho Federal de Biblioteconomia, que tem ampliado o número de debates em torno da importância da biblioteca para o processo de democratização da informação e fortalecimentos frente as ações docentes nos ambientes educacionais.

Não é uma tarefa fácil, pois requer de uma complexa engenharia para reunir forças, ampliar e aprofundar o debate, sem contar na difícil tarefa de sensibilizar o poder público para que seja percebida a necessidade de dispor de unidades de informação nos mais diversos lugares, seja na cidade ou no campo.

Face a isso e mesmo com o atual cenário brasileiro de instabilidade, vitórias podem ser comemoradas, como é o caso da Lei 12.244 (BRASIL, 2010, online), que trata da “universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País”. Felizmente, existe um entendimento de que esta luta não será finalizada com a lei mencionada, tanto é que novos debates estão em curso. Dentre eles, podemos observar dois, respectivamente:

a) Projeto de Lei 28 (SENADO, 2015, online), que “institui a Política Nacional de Bibliotecas” (SENADO, 2015, online);

b) Projeto de Lei 6.038 (CÂMARA, 2010, online), que “regulamenta o exercício da atividade profissional de Técnico em Biblioteconomia”.

Do ponto de vista legal, ações estão refletidas com a intenção de propor uma política de Estado capaz de responder a diversas demandas educacionais, que por muitos anos foi silenciada ou negligenciada pelos representantes políticos.

AMEAÇAS

Recentemente vínhamos visualizando investimentos que valorizavam as estruturas físicas e de equipamentos para renovação ou criação de bibliotecas face ao que estava determinado pela  Lei 12.244 que, inclusive propunha como meta a necessidade de tornar obrigatória a presença de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas em torno o território nacional.

Porém, muito deste sonho estava alicerçado no processo de partilha do pré-sal que, destinaria recursos substanciais à educação. Aliado a isso estão os possíveis congelamento de investimentos à área de educação, preconizada pela PEC-241 (CÂMARA, 2016, online), que “altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal”.

Observando este cenário, aquele que poderia ser o “período de ouro” às bibliotecas brasileiras, pode se transformar em uma época de “sonhos perdidos”, finalizados pelas mãos do próprio Estado, aquele mesmo que formalizou o sonho, agora ameaçado.

SONHOS ESPERADOS

Bem, mesmo com atual cenário de incertezas, se me fizessem a pergunta:

– O você quer de uma biblioteca?

Eu simplesmente responderia:

– Quero tudo! Quero que seja pensada a partir de uma política de Estado de longo prazo, onde as bibliotecas sejam concebidas e reconhecidas como espaços estratégicos voltados para promoção da educação e valorização da cultura. Que permita que, desde a mais tenra idade possibilite o acesso ao conhecimento registrado, independentemente de classe, ou gênero, por exemplo. Que este espaço seja apresentado como um lugar de encontro,convívio, integração e libertação comunitária. Que este ambiente permita revelar valores culturais silenciados para minoria hegemônica, que em condições normais, dificilmente poderá ascender aos palcos das artes populares ou eruditas. Que permite um lugar prazeroso onde bibliotecários, professores, artistas convivam em harmonia, celebrando a arte do saber.

Talvez pensando assim, não só nos tornaremos instrumentos da mudança educacional, mas também daremos respostas às concepções arraigadas um modelo de sociedade que fortalece, mesmo que intuitivamente, ou seja, sem a intenção de fortalecer o estereótipo de que a biblioteca é apenas percebida como “um lugar para pesquisar ou estudar”, e tendo motivação, simplesmente”ler livros para pesquisar ou estudar”, conforme é expresso pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, promovida pelo (FAILLA, 2016, online).

Na minha concepção, ela vai muito mais além do que isso, conforme expresso anteriormente, contudo, com a atual realidade, será de se comemorar se sua cidade existir uma biblioteca, seja qual for a modalidade para que você possa viver o sonho de “surfar nas ondas do saber”, com toda liberdade possível e imaginável.

ILUMINAÇÕES TEÓRICAS

BRASIL. Lei n. 12.244, de 24 de maio de 2010.Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/UserFiles/File/Legislacao/Lei%2012244.pdf>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n. 28, de 11 de fevereiro de 2015. Institui a Política Nacional de Bibliotecas. Senado [da] República Federativa do Brasil. Brasília,  11 fev. 2015. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/119687>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Câmara Federal. Proposta de Emenda à Constituição n. 241, de 15 de junho de 2016. Câmara [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 10 out. 2016. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2088351>. Acesso em: 21 out. 2016.

CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA. Projetos de lei de interesse da classe bibliotecária em tramitação no Congresso Nacional. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/projetos.php?codigo=24>. Acesso em: 21 out. 2016.

FAILLA, Z. (Org.). Retratos da leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante; Instituto Pró-Livro, 2016. Disponível em: <http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf>.

O que pode significar “paz”?

por Mário Gaudêncio

Hoje foi divulgado pela Organizações das Nações Unidas – ONU, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz, tendo ganhador Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia. O motivo foi por contribuir para um processo de negociação de PAZ entre o governo colombiano e a FARC, que a 52 anos vivem sob constantes conflitos, em uma “[…] guerra civil, que deixou mais de 200 mil mortos” (DW, 2016, online).

Salvas as polêmicas em torno do merecimento do presidente colombiano ser lareado com esta honraria, a ideia de paz é algo bem mais complexo, que ao tentar refletir e entender o que é e qual a sua importância, logo percebemos que, sabemos de menos, de mais, ou até banalizamos o assunto.

Segundo o Portal Etimologia (2016, online, tradução nossa), paz significa período de estabilidade, onde este tempo de tranquilidade é resultado de um pacto.

Partindo deste pressuposto, e voltando o nosso olhar para esta ideia de “estável” a partir de um pacto social comprometido com o interesse coletivo, vemos que a paz é uma necessidade fundamental para subsistência humana.

Encarando desta forma, fica fácil pensar a sociedade, isso é claro se, deixarmos de lado o egoísmo, a prepotência, arrogância, inveja e diversos outros termos gestados para alimentar um modelo de sistema individualista, seletivo e promotor da intolerância.

Se a paz é tão importante, qual o motivo de existir guerra? Simplesmente para alimentar interesses escusos e realimentar o ímpeto da violência, vingança é do capital que sobrevive da morte.

Acredito que seria bem melhor favorecer a vitória a partir da paz, mas não aquela construída sob a força da morte. Deveria ser uma paz que se manifesta  poética e utopicamente a partir do “espírito”, capaz de motivar um perene estado de comunhão, partilha, vivência, solidariedade e respeito ao outro, ao coletivo, a tolerância e o bem comum, sem xenofobia, etnocentrismo ou qualquer outro tipo de preconceito.

Portanto, só desejando ao outro aquilo que se deseja para si, se conseguirá abrir uma janela para ser vivida uma paz permanente, pois a paz começa dentro de cada um nós.

REFERÊNCIAS

DEUTSCHE WELLE BRASIL. Presidente da Colômbia leva Nobel da Paz. Bonn, Germany, 2016. Disponível em: https://bit.ly/2kqnKBw. Acesso em: 07 out. 2016.

ANDERS, Valetín et al. (Org.). Diccionario etimológico. 2016. Disponível em: https://bit.ly/2lUGTw2. Acesso em: 07 out. 2016.

Um olhar necessário à netnografia

pelo Mário Gaudêncio

A Sociedade da Informação e da Comunicação diariamente tem precisado dar respostas as mais diversas demandas do mundo contemporâneo.

A cada dia surgem novos objetos de estudos, provocando um realinhamento teórico-metodológico aos problemas levantados pelos seus ecossistemas da informação.

Nesse contexto, a comunidade científica precisa criar condições plausíveis para sanar questões dialéticas ou pragmáticas, por exemplo.

Percebendo isso, e mirando na cibercultura, podemos visualizar como uma saída alternativa para responder aos desafios do mundo atual, a abordagem metodológica Netnografia.

A Netnografia é derivada da Etnografia, e tem como um dos seus objetivos basilares, entender o processo de interação social e informacional a partir das relações sociais dentro da dinâmica comunicacional que ocorre por meio do diálogo mediado pelo computador.

Esta conjuntura se manifesta em virtude do ciberespaço por meio da cibercultura que tem apresentado os seus próprios paradigmas diante de uma sociedade cada vez mais exigente.

E é nesse contexto que a netnografia em sua concepção, a cada dia tem maturada uma evolução importante, dando um singular suporte a produção de conteúdos a partir de espaços digitais, sejam eles, mídias sociais, blogs, comunidades virtuais ou grupos de discussão por exemplo.

Com uma proposta hermeticamente articulada e construída, que pensa nas mais diversas possibilidades de análises e reflexões, a netnografia certamente pode ser percebida como uma possibilidade metodológica capaz de descortinar incertezas no campo da investigação científica eletrônica.

Portanto, o pesquisador que quiser entender as dimensões e complexidades do ciberespaço, certamente precisará conhecer o potencial metodológico da netnografia.

REFERÊNCIAS

KOZINETS, R. V. Netnografia: reaizando pesquisa etnográfica online. Tradução de Daniel
Bueno. Porto Alegre: Penso, 2014. (Métodos de Pesquisa).

ROCHA, P. J.; MONTARDO, S. P. Netnografia: incursões metodológicas na cibercultura. E-Compos, dez. 2005. Disponível em: <http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/55/55>. Acesso em: 03 out. 2016.

AMARAL, A.; NATAL, G.; VIANA, L. Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital. Imaginário, ano 13, n. 20, p. 34-40, 2008. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/famecos/article/view/4829/3687>.