Resenha da obra as tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática

LÉVY, P. As Tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2. ed. São Paulo: 34, 2010. (Coleção Trans). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

Apresenta uma cuja a temática se dá em torno das tecnologias da inteligência, tendo como perspectiva teórica a corrente científica ecologia cognitiva.

Propõe em sua obra uma sistematização com vistas a entender o contexto histórico e cultural com a qual as tecnologias da inteligência foram criadas e desenvolvidas, assim como, busca propor saídas epistemológicas e metodológicas para pensar a sociedade pós-moderna a partir da ecologia cognitiva. Para isso, sua perspectiva teórica será construída em três partes, seno elas, “a metáfora do hipertexto”, “a oralidade primária, escrita e a informática”, como os três tempos do espírito; “rumo a uma ecologia cognitiva”.

Inicialmente, percebe-se que a ideia de hipertexto em primeiro lugar não é algo novo e por esse motivo, fica nítido visualizar o como sua concepção foi fundamental para fazer entender o surgimento da informática e consequentemente da internet. De maneira didática é possível observar este cenário a partir dos pensamentos idealizados pelo MEMEX, passando pela proposição da Apple e chegando as redes digitais. Mas o autor também deixa claro que, nada sei possível se desde a antiguidade não tivesse sido valorizado poder da oralidade, da escrita e consequentemente da invenção da imprensa.

Em segundo lugar, a quem pertence ao campo da ciência da informação e especificamente ao da biblioteconomia, o autor irá “costurar” toda a sua obra, falando da importância da Organização da Informação e do Conhecimento, isso fica nítido quando ele busca referenciais baseados em catálogos, classificação e bibliotecas.

Uma terceira questão relevante, é a forma como constrói a ideia de ecologia cognitiva, que sob uma condição pós-moderna pensada por Jean-François Lyotard, é muito aproximativa ao que também é postulado pela teoria da complexidade de Edgar Morin.

Depreende-se que neste mundo líquido concebido por Zygmunt Bauman e de antítese informacional construída através da modernidade tardia indicado por Anthony Giddens , onde, por um lado tem excesso de informação e por outro, ausência de competência para interpretar e lhe dar com estas mesmas, pensar e enquadrar toda uma forma de pensar e agir baseado em unidade na diversidade, valorizando as individualidades com vistas a uma inteligência coletiva é extremamente salutar, contudo, é importante considerar que toda corrente de pensamento não é, nem pode ser considera como completa, universal, até para não cometer o erro buscado pela cartesianismo positivista, que em última instância perdeu valor epistemológico a partir do momento que foi descoberta a teoria da relatividade e a teoria quântica, onde, aquilo que outrora era idealizado como imexível, passou a ser profundamente criticado por uns, refutado por outros ou complementados por novos seguidores.

Coadunado com a teoria crítica, vale lembrar aqui que, não se quer silenciar um em detrimento do outro, mas aproveitar aquilo que é positivo dos “dois mundos”.

Neste sentido, quando as tecnologias da inteligência são vistas e consideradas em todas as suas dimensões, aproveitando as suas potencialidades e limitações à luz da ecologia cognitiva, a quem também poderia ser chamada de ecologia da informação, se torna possível ampliar o horizonte teórico-metodológico e permitir que se chegue a um cenário além do determinismo e do estruturalismo, valorizando e integrando, o indivíduo, as mídias, a cultura e as tecnologias vigentes e vindouras.

É considerando isso que se tem a possibilidade de apresentar a ecologia cognitiva como “o estudo das dimensões técnicas e coletivas” (LÉVY, 2010, p. 139), valorizando a relação sujeito e objeto, assim como os aspectos cognitivos e sociais. Isso lembra em certa medida os paradigmas de Capurro e os postulados de Saracevic, onde as questões pragmáticas, cognitivas, semânticas, sociais e cognitivas são extremamente valorizadas e necessárias no fazer científico, em especial quando que quer entendo o contexto e rumo com a qual a informação está inserida, é produzida, a quem se destina e porque é relevante.

Portando, as tecnologias da inteligência, sob o viés da ecologia cognitiva se apresenta de suma relevância ao contexto cultural, social e informacional, tendo em vista que ela se coloca como uma corrente de pensamento holística, híbrida e pós-moderna, critérios singulares e significantes para fazer entender as demandas e disputas políticas e científicas que são e serão travadas nos mais diversos campos de batalha.

¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Literatura de cordel: patrimônio cultural brasileiro

por Mário Gaudêncio

É sabido que historicamente a literatura de cordel emerge e se consolida no Brasil a partir da região nordeste, seja em virtude da conjuntura social que se tinha na época ou pela lacuna cultura que se fortalecia cotidianamente em virtude do que se vinha sendo produzido no país em certa medida não refletir os anseios do povo do nordeste.

Ao longo de todo esse tempo, especificamente a partir do final do século XIX, a literatura de cordel tem passado por inúmeras transformações, sejam elas estéticas ou editoriais. Viveu o momentos de ascensão, declínio e adaptação ao mundo pós-moderno.

Hoje, ao olhar para o passando, percebe que a sua natureza simbólica e estética evoluiu como uma possibilidade cultural que transcende a discurso raso a respeito do seu lugar na memória coletiva do povo brasileiro.

O cordel tem se mostrado como uma forma de expressão contemporânea que transcende limites ou barreiras. É um instrumento que a todo momento interage com a cultura e a sociedade. Influencia e é influenciado. Não é a toa que o traços da literatura de cordel podem ser encontrados na nas mais diversas manifestações de arte.

Neste sentido, isso nos leva a considerar que a literatura de cordel chegou a um patamar onde não se tem mais espaço para estigmatizá-la como subliteratura ou que ela produz apenas artefatos rudimentares de uma tradição iletrada.

Ao contrário disso, ela vai muito mais além, mas que em essência, sempre esbarrou no poder simbólico nas relações institucionalizadas que, de maneira sectária segregou a literatura de cordel a uma cultura que deveria ser entendida no máximo como popular.

Isso vai de encontro ao que se entende por cultura, onde o ato de hierarquizar contribui diretamente para segregar, um povo, uma forma de pensar, um meio de manifestar.

É esperado que, com o parecer do IPHAN, mesmo que tardiamente reconhecido, é importante a literatura de cordel enquanto patrimônio cultural brasileiro, que também sejam pensadas políticas públicas além da salvaguarda das produções intelectuais, mas que se tenha em vista solucionar questões ainda distantes de ser equacionadas, como:

a) Contrapor o discurso cristalizado de que o cordel é uma subliteratura;

b) Que sejam criadas políticas afirmativas econômicas de apoio a subsistência humana dos cordelistas, pois dificilmente estes conseguem viver das suas produções intelectuais;

c) Que se perceba a necessidade e importância de criar uma política cultural frente ao processo produtivo a partir de um mercado editorial capaz de editar, divulgar, distribuir e comercializar as obras intelectuais dos poetas com ética e lisura;

d) Que sejam definidas estratégias para que os familiares possam usufruir da propriedade intelectual dos cordelistas após seus falecimento.

É bem verdade que, a luta pela preservação da memória coletiva e democratização do acesso aos conteúdos originários dos cordéis alcançaram avanços significativos, seja em meio analógico (impresso) ou em ambiental digital (caso dos cibercordéis), contudo, ainda há um percurso longo a fazer, especialmente quando se remete a dar voz àqueles são silenciados, dentro ou fora do próprio domínio ou rede social.

Portanto, vê-se como salutar e necessário, o reconhecimento institucional do IPHAN para essa fonte informação (complexa e inesgotável), todavia, é de extrema importância que essa chancela seja o início de uma virada cultural no Brasil para um gênero que precisa ser antes de qualquer coisa, reconhecido como uma faceta literária sem insinuações de reducionismos positivistas ou relativismos que contribuem negativamente para uma retração e limitação na forma de vê o mundo a partir dos ditos cânones.

O momento é de oportunizar a diversidade e pluralidade cultural e estreitar os laços entre os mundos literários, podendo assim, vir a reduzir o frágil e limitado discurso em torno da relação, que ao meu ver é insipiente, entre a ideia de cultura erudita versus cultura popular.

Produção científica brasileira em organização e representação da informação

por Mário Gaudêncio

O Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba através dos doutorandos Odete Máyra Mesquita Sales e Sale Mário Gaudêncio e da professora Dulce Amélia de Brito Neves, acabam de publicar o artigo intitulado “Produção científica brasileira em organização e representação da informação: estudo bibliométrico nos periódicos Qualis A” em um dos periódicos mais importantes do Brasil para área “Comunicação e Informação”, que é a revista Encontros Bibli, gerido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina.

A pesquisa objetiva identificar, nos periódicos científicos com maior Qualis (estratos A1 e A2), a produção científica brasileira sobre a temática da Organização e Representação da Informação publicada na área da Ciência da Informação no período de 2007 a 2016 (últimos 10 anos). Metodologicamente, a coleta e a análise dos dados foram basiladas por meio de um estudo bibliométrico. Como resultados, foi percebido que, dentre os periódicos nacionais e internacionais, temos uma produção científica “doméstica”. Percebeu-se que as principais revistas que publicam pesquisas no campo da temática “Organização e Representação da Informação”, foram: a) Informação & Informação (UEL); b) Encontros Bibli (UFSC); e c) Transinformação (PUC-Campinas). A pesquisa mostra ainda que os autores mais representativos quantitativamente, em número de publicações, escrevem em sua maioria em colaboração.

Para acessar a íntegra do artigo, basta clicar aqui.

REFERÊNCIA

GAUDÊNCIO, M. S.; SALES, O. M. M.; NEVES, D. A. de B. Produção científica brasileira em organização e representação da informação: estudo bibliométrico nos periódicos Qualis A. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação, v. 23, n. 53, p. 16-24, set./dez. 2018. Disponível em: <https://bit.ly/2wNppmR>.

Esquecimento cultural: o Museu Nacional é a ponta do iceberg

por Mario Gaudêncio

Historicamente a cultura sempre foi relegada a segundo plano, seja por meio das suas políticas públicas ou através dos seus direcionamentos enquanto valorização às suas práticas.

O Brasil é um país pluricultural, mas que em essência suas maneiras de expressão, quando não são do interesse do poder hegemônico e da comunicação de massa, tende a cair em um silenciamento e consequentemente em um potencial esquecimento direcionado e proposital.

Vale salientar que, o que vivenciamos hoje de prejuízos à cultura brasileira, são acontecimentos que desdobraram por meio de uma complexa rede de inaptidão política e administrativa, aliado ao plano de deixar na penumbra tudo o que é originariamente nascido no Brasil.

Desde a ocupação do Brasil em 1500, que a prioridade é valorizar e importar o que vem fora ou ir em busca dos valores aos grandes centros além-mar. Foi assim no período colonial, no momento da velha e da nova república, na ditadura militar, na redemocratização após 1984 com as Diretas Já, com a abertura comercial a partir de 1992 e por com o início do século vigente.

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, o Tropicalismo e o Movimento Armorial no Brasil? Em síntese, foram movimentos que lutaram pela valorização da cultura nacional.

Década após década, o Brasil sempre relegou a cultura nacional a poeira e ao pó, ou seja, a quase nada em termos importância da sua materialidade. Isso não é diferente com os equipamentos culturais, todos em essência são relegados aos “porões” da política cultural.

Os últimos anos tem sido prova disso, de um Estado que não está minimamente preocupado a sua própria memória social e que seus lugares de memória não são importantes para o desenvolvimento da nação. Quanto tempo faz que o Butantã foi incendiado? E o Museu da Língua da Língua Portuguesa? Agora, tudo é reverberado também no Museu Nacional?

Um dos mais importantes equipamentos culturais do Mundo vai ao chão! Simbolicamente, poderíamos comparar a queda do Museu com declínio da democracia e cidadania brasileira vigente, onde o Estado vai ao mesmo tempo, jogar por terra a célebre expressão terminológica de que o governo é feito e deve estar a serviço do povo.

O Direito a cultura é uma prerrogativa inalienável é fundamental instituída na Declaração Internacional de Direitos Humanos e ratificada pelo Brasil através da Constituição de 1988. É dever do Estado e direito do cidadão ter as suas manifestações culturais preservadas, assim como ter acesso a fruição, lazer e entretenimento à equipamentos culturais que contam garantem viva a história evolutiva do seu povo.

Se por um lado é triste saber que as pessoas visitaram mais o Museu do Louvre do que o Museu Nacional do Brasil, por outro, isso é reflexo da ausência de políticas públicas de valorização do patrimônio material e imaterial e em virtude de haver no Brasil um movimento contínuo de aprofundamento de minimização do sentimento de pertença e identidade cultural.

Adiciona-se a isso o sentimento eurocêntrico e estadunidense de parte da população que detêm o capital e que reverbera às classes empobrecidas por este poder hegemônico. É o mesmo grupo patriarcal e secular é contra a imigração dos povos vizinhos em situação de vulnerabilidade social, mas é favor de emigrar aos países da Europa e da América do Norte, relegando aos empobrecidos desigualdade e exclusão social. A estes o Brasil serve apenas para expropriação de suas riquezas.

Essas são algumas das posturas e práticas culturais que estão nesse emaranhado, nesse caldo cultural conflituoso entre “incluídos” e “excluídos”.

Portanto, infere-se que o caso do Museu Nacional é potencialmente apenas a ponta do iceberg de um problema cada vez mais difuso e líquido deste mundo pós-moderno onde o livre mercado dita as regras do jogo. Isso tudo que vemos atônitos é o reflexo de um projeto de Estado que tentará se perpetuar no poder nos próximos 20 anos, tendo um dos princípios básicos, a desvalorização da cultura em todas as suas dimensões.

Com esta última tragédia cultural, abre-se espaço para o fortalecimento da luta em defesa da cultura, através dos seus lugares de memória, com olhares mais lúcidos críticos, pensando-os como ecossistemas culturais estratégicos de desenvolvimento social, cultural, informacional e memorial.

É muito mais barato ao Estado investir em uma democracia participativa e uma cidadania ativa por meio da sua dinâmica e práticas culturais do que em gastar dispendiosamente em regalias que não contribuem em nada para solidificação de um povo, que a este chamamos de Brasil.

Ficarei intensamente torcendo para que esta lista de crimes culturais tenha acabado, pois tenho que receio dê se tenha sequência ao que conhecemos hoje por Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, IBRAM, IPHAN, a Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Casa de Rui Barbosa, Bibliotecas, Museus e Arquivos nas suas mais diversas naturezas, dentre outros inúmeros equipamentos culturais que podem se tornar vítimas do esquecimento cultural brasileiro, seja em nível federal, estadual ou municipal.

Resenha da obra a informação como utopia

SERRA, J. P. A Informação como utopia. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 1998. (Série Estudos em Comunicação). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra escrita por J. P. Serra em 1998, busca refletir a ideia de “informação” como possibilidade e condição “utópica”. Para facilitar a abertura desse debate, o autor se debruça em cinco pilares fundamentais, sendo eles: 1) A Tecnociência da utopia à ideologia; 2) Um novo paradigma da Ciência e da Técnica; 3) Sociedade da informação, ideologia e utopia; 4) A “biblioteca universal” e a partilha do saber; 5) As comunidades virtuais e a partilha do poder.

No primeiro capítulo, cuja a busca é a de refletir “a tecnociência da utopia à ideologia”, o autor levanta algumas questões fundamentais como: a) A “utopia científico-tecnológica”; A “face equívoca da sociedade industrial”; A “tecnologia e a ciência como ‘ideologia’”. Aqui, é possível observar que o lastro central deste capítulo é o modernismo e sua relação o modo de produção industrial alicerçado pela utopia iluminista, pelo pensamento cartesiano e da corrente filosófica positivista. Contudo, a partir do período pós-guerra evidencia-se uma série de transformação sociais, econômicas e culturais que impacta diretamente neste paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010). Crises epistemológicas são instauradas, por ser entendido que o positivismo não consegue mais responder as demandas de uma forma de pensar baseada uma nova necessidade emancipatória. Mesmo não alcançando em sua plenitude esta busca utópica de liberdade, a fase industrial produz um certo sentimento de “bem-estar”, fazendo com que a procura pela “revolução do sistema capitalista torne-se obsoleta e indesejada pelos próprios explorados”, proporcionando espaços de “catástrofe” e “alienação” conforme explica Serra (1998, p. 58; 66). Se por um lado busca-se a liberdade utópico, por outro, fortalece-se o controle e vigilância, seja velada ou explicita. Por fim, é nesta mesma conjuntura que inflasse marcas ideológicas e democráticas, que em sua essência, serão reveladoras de uma ideologia a favor do mercado.

Ao que tange o segundo capítulo, que tem como temática “um novo paradigma da Ciência e da Técnica”, Serra (1998) busca abordar os aspectos inerentes: a) A “diversidade e a complementaridade dos saberes”; b) O “controle democrático da ciência e da tecnologia”; c) O “carácter retórico-argumentativo do saber”; d) A “sociedade da informação e as novas condições discursivas”. Neste, tendo em vista o ocorrera no capítulo anterior, Serra (1998) irá retomar a discussão sobre a crise epistemológica com a qual o modelo de produção industrial e ciência e a tecnologia estão diretamente atrelados. Mostra que uma saída ao cenário instalado de “crise absoluta” (SERRA, 1998, p. 68), pode se dá através do que Lyotard (2011) chama de “pós-modernidade. Esta por sua vez poderá ser potencializada e viabilizada teoricamente por Habermas, ao qual chama de “Teoria da Ação Comunicativa” conforme menciona Serra (1998), pois, o modelo de sociedade emerge das transformações que ocorrem no período da guerra fria e se dá baseado nas tecnologias de informação e comunicação. Ao fazer isso, automaticamente rompe-se com a razão instrumental, presente no positivismo moderno, abrindo espaço para uma razão dialética, muito mais pragmática e semântica, onde o saber possa ser representativo a partir das mais diversas percepções científicas. Depreende-se com este capítulo que há então a busca por um novo iluminismo, agora sob uma condição pós-moderna Lyotard (2011), valorizando um paradigma emergente (SOUSA SANTOS, 2010) e reconhecendo que o atual modelo de sociedade está cada vez mais vinculado a uma modernidade líquida (BAUMAN, 2014) e que se satisfaz mais com um único tipo de conhecimento, dito “universal”. Busca-se agora um saber baseado na complexidade (MORIN, 2015), para de fato permitir a viabilização de uma sociedade da informação concilie os avanços deixados pelo modernismo para consolidação de uma pós-modernidade democrática e sem regulação ideológica.

Ao que se refere o capítulo três, Serra (1998) traz à tona o debate sobre a “sociedade da informação, ideologia e utopia”, centrando o olhar para: a) Do “fim da ideologia a ideologia da informação”; b) Os “poderes político-econômicos e a sociedade da informação”; c) O “novo mundo do Ciberespaço e das Redes”; d) Entre “a ideologia e a utopia”. Vê-se que a ideia de sociedade da informação surge em meio a uma profunda crise epistemológica, como fruto da pós-modernidade e do modelo de produção pós-industrial. É a principal marca para um paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010) que surge para resolver aos vácuos deixados pelo positivismo universalista, determinista e cartesiano. Observa-se que a partir das críticas lançadas por Habermas em a “Teoria da Ação Comunicativa” frente a Cibernética Wiener e da Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver, conforme explica (SERRA, 1998), abre-se espaço para idealizar uma sociedade pautada na transparência, democracia e dinamicamente sendo promovida por uma “ideologia da informação”, conforme indica (SERRA, 1998). Não é à toa que “o conhecimento e a informação tornam-se o verdadeiro motor da sociedade ‘pós-industrial […]”, fazendo dos “[…] cientistas as figuras centrais” (SERRA, 1998, p. 97-98). Mesmo em um contexto novo, a ciência nova (MORIN, ano) assume papéis antigos, no sentido de continuar se apresentando como sujeitos preponderantes frente às tecnologias de informação e comunicação e a ser serviço do poder. Com isso o “novo” com práticas “velhas” limitam a ideologia da informação de “uma sociedade mais equilibrada e igualitária”, conforme sonhava Serra (1998) em sua “informação como utopia”. Em meio aos múltiplos cenários de disputas pelo poder político face ao avanço fica cada vez mais difícil alcançar o estágio de sociedade da informação com o qual preconizada Serra (1998), que é era de “ser uma sociedade construída por todos […] e para todos, sem indivíduos ou grupos info-excluídos, garantindo a todos o acesso à info-alfabetização e à info-competência”, e assim, seria possível consolidar o surgimento de espaços virtuais construídos a partir de uma rede integradora de transformação humana.

Para o capítulo quatro, Serra (1998) analisa a ideia de uma “biblioteca universal e a partilha do saber”, focando os desdobramentos que ocorrem da: a) A “biblioteca virtual e a universalização do saber”; b) Uma “nova forma de aprender e ensinar”; c) As “novas condições de partilha do saber”. Parte-se da compreensão de uma biblioteca (ambiente) que é produto da rede e com a finalidade de contribuir para democratização e compartilhamento do saber. Isso se dá por considerar que historicamente o acesso ao conhecimento sempre foi disponibilizado a uma pequena massa populacional. Em um primeiro momento, aos nobres e ao clero, em outros a burguesia industrial, agora, aos representantes dos grandes conglomerados. Não é à toa que o jargão “informação é poder”, sempre fez parte, em maior ou menor escala dos mais diversos modos de produção, mas que atualmente tem se intensificado e aprofundado progressivamente em virtude das tecnologias de informação e comunicação. Segundo Serra (1998), “é certo que que ampliou poderosamente as oportunidades de acesso ao saber […] no entanto, limitações novas” têm surgido para, de alguma forma limitar o acesso ao conhecimento, ao menos da população mais empobrecida. Isso porque ao pensar um espaço “universal” em ambiente digital, deve-se considerar que todas as línguas, etnias, registros orais, formas de escrita, tipos de materiais, além de iniciativas de ações com vistas a info-inclusão por meio da info-alfabetização e info-competência digital sejam priorizadas. Assim, entende-se que, só existirá de fato a ideia de compartilhamento de um saber e uma biblioteca “universal” igualitária, caso exista políticas públicas de convívio com um ciberespaço considerando uma “aprendizagem permanente, aprendizagem auto-dirigida, aprender a aprender, aprendizagem contextualizada, aprendizagem adaptada às necessidades do aprendiz, aprendizagem transformadora, aprendizagem cooperativa e aprendizagem em tempo real […]”, conforme explica Barbara Lepani nas palavras de (SERRA, 1998, p. 130), caso contrário, “a informação pode produzir exatamente o contrário daquilo que se pretende: em vez de saber e conhecimento, ignorância e desconhecimento” (SERRA, 1998, p. 133), especialmente em países em situação de vulnerabilidade social, que não oportunizam a “garantia da diversidade linguística e cultural no seu seio” (SERRA, 1998, p. 144) e consequentemente da sua memória coletiva.

Ao que tange o capítulo cinco, Serra (1998) valoriza a reflexão a partir das “comunidades virtuais e a partilha do poder”. Nesta ele constrói um diálogo trazendo ao centro das discussões questões como: a) As “comunidades virtuais e a interação”; b) As “comunidades virtuais e a ação política”; c) O “Ciberespaço como espaço de controle”. Percebe-se que o autor irá fazer uma cuidadosa discussão no campo das comunidades virtuais. A partir da análise do autor, entende-se que é importante ter a percepção crítica e não romantizada quanto estes espaços que por sua vez, por um lado podem contribuir para o processo de comunicação e consequentemente de interação social a partir da rede, mas requerer um certo cuidado e precisará ser vista com uma certa cautela conjuntural, para que não se cristalize a ideia de um ambiente revolucionário de uma transformação cultural irrevogável e irretocável. Dito isso, as comunidades virtuais não podem ser vistas por um prisma “ingenuamente utópico” (SERRA, p. 148). A cautela sugerida pelo autor, ocorre tendo em vista que é preciso pensar as comunidades virtuais atreladas, complementares, ou seja, dialogando permanentemente às comunidades ditas reais para não incorrer no risco destas primeiras contribuírem “para isolar ainda mais os indivíduos em relação às comunidades” tradicionais “a que pertencem” (SERRA, 1998, p. 151). Este cenário se aproxima do Canclini (2015) chama de hibridismo cultural, possibilitando um imbricamento contínuo, cujo Serra (1998, p. 154) chamara de “fusão entre as comunidades reais e as comunidades virtuais”. Porém é preciso ter cuidado para que ideia primária de libertação e emancipação não caia na armadilha retórica da ideologia por afinidade de natureza, social, étnica ou outra. Em grande parte, as comunidades virtuais têm se mostrado como espaços exclusivamente ideológicos, construindo e configurando bolhas ou bolsões limitadores de interação social. Daí informação produzida nesses espaços virtuais com potenciais emancipatórios, estarão na prática se transformando em ferramentas para vigiar e punir, conforme trata Serra (1998) ao mencionar Michel Foucault. A exemplo disso está a intolerância cibernética. Em certa medida, vê-se que as comunidades virtuais excedem o propósito, se transformando em espaços de poder em detrimento da busca e compartilhamento do saber. Cria-se então as “sociedades de controle” que incorrem diretamente na “comunicação instantânea” (SERRA, 1998, p. 165), influindo profundamente na relação público e privado, o qual Serra (1998, p. 168) chama de “tensão”. Esvai-se aí a premissa de emancipação e uma razão dialética onde a informação deve servir a todos, sem distinção, consequentemente a informação enquanto objeto libertário e transformador, continuará sendo uma simples e mera utopia pós-moderna.

Portanto, conclui-se que de fato a informação é uma utopia e que a mesma está distante de ser um produto promotor da “igualdade, liberdade e fraternidade”, conforme era pensado com revolução francesa e que vem sendo constantemente perseguido pelo de Serra (1998) chama de novo iluminismo. É bem verdade que, a informação, deve ser concebida como um objeto estratégico de transformação, emancipação e inclusão da humanidade, reconhecendo-a inclusive como direito fundamental do cidadão. Ter acesso a informação é uma questão de cidadania e de competitividade mercadológica. Quando o Estado propõe ao cidadão o direito à informação atrelado do processo de info-inclusão, info-alfabetização e info-competência, de fato está se garantindo que se tenha uma população economicamente integrada as comunidades de inteligência que tem surgido por meio das tecnologias de informação e comunicação, até porque segundo Serra (1998, p. 170), a “sociedade da informação é uma invenção das grandes empresas transnacionais e dos governos que elas controlam de forma crescente”, especialmente aqueles que se dão por meio dos países desenvolvidos.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra o que é pós-moderno

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Coleção Primeiros Passos, 165). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A obra escrita por Jair Ferreira dos Santos tem a sua primeira edição escrita em 1986. Quanto a esta atual edição, a mesma foi dividida em sete seções capitulares abordados sob definições peculiarmente metafóricas, considerando as seguintes questões: 1) Vem comigo que no caminho eu explico; 2) Do boom ao bit ao blip; 3) Do sacrossanto não ao zero patafísico; 4) Anarquistas em nuliverso; 5) Adeus às ilusões; 6) A massa fria com narciso no trono; 7) Demônio terminal e anjo anunciador.

A primeira seção capitular irá considerar como relevantes os seguintes aspectos: a) Caçando o fantasma; b) Bye, bye, real; c) Breve babado teórico; d) O pós contém um des. O autor considerou aqui, que o pós-modernismo como um fantasma ao moderno. Depreende-se que provavelmente esta observação se dê por perceber que a ideia de pós-modernidade tenha surgido para em virtude de uma possível crise epistemológica e cultural causada pela modernidade, o positivismo e o capitalismo industrial, por não conseguirem mais responder as demandas lançadas pela sociedade. Nesse sentido o autor considerou que o “pós-modernismo é um nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950” (SANTOS, 1988, p. 7). Coincidentemente, é esta época é denominada de revolução técnica, científica e informacional, onde os princípios fundamentais do capitalismo neoliberal são aprofundados através das tecnologias de informação e comunicação, tendo como horizonte fim a sociedade de consumo e a indústria cultural. Assim, “o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida […] na ausência de valores e de sentido para a vida […]”, entregando-se ao “consumo e ao individualismo exacerbado” (SANTOS, 1988, p. 8; 18). Percebendo este cenário, torna-se essência do modernismo “apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência”. Gera-se deste modo uma sociedade baseada no “espetáculo” e na “simulação” (SANTOS, 1988, p. 12-13). Entretanto, o autor chama a atenção para que, se existe um fenômeno que cause transformações na sociedade, independentemente dos avanços tecnológicos, esta é a linguagem, e ela como aspecto constituinte do indivíduo, ou seja, do homem. É através da linguagem que se “[…] dá forma tanto ao nosso mundo […], quanto ao nosso pensamento […]”. A passo que não se observa esses fatores, a pós-modernidade se tornará “frágil, sua identidade, evanesce” (SANTOS, 1988, p. 15). É preciso visualizar a pós-modernidade como produto de transformação e hibridismo de uma linguagem potencializada por repertório de signos que representam e influenciam o contexto com o qual as transformações estão ocorrendo pelo e com o homem. Portanto, o pós-modernismo é algo “inacabado, sem definição precisa, […]” que para “dor dos corações dogmáticos, […] por enquanto flutua no indecidível” (SANTOS, 1988, p. 19).

O segundo capítulo abordará olhares a partir dos aspectos: a) Apocalipse, Uau!; b) A dama de ferro; c) Rede pensante, gandaia global; d) Cá na Belíndia. O pós-modernismo, simbolicamente parte da explosão atômica ocorrida no Japão da II Guerra Mundial (1945) e historicamente a partir de 1950, onde, concretamente a “imagem da civilização moderna industrial, assentada na produção e na máquina, iria se modificar desde os anos 50, ao rumar para sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e a informação” (SANTOS, 1988, p. 23). A tecnociência passa a dar o tom das discussões, passando a influenciar a vida das pessoas, e é em virtude disso que o “ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica […]” e outros, promovendo uma desmaterialização e uma pulverização do mundo (SANTOS, 1988). Nesse contexto, o “indivíduo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos”. O indivíduo torna-se influenciável a “um show constante de estímulos desconexos onde as vedetes são o design, a moda, a publicidade, os meios de comunicação” gerando “circuito informação-estetização-erotização-personalização do cotidiano […]”. Assim, na pós-modernidade “só há revolução no cotidiano” (SANTOS, 1988, p. 27-29). Tudo se torna flexível, fazendo inclusive com que o signo pós-moderno favoreça o debate de temas que antes eram silenciados como o da sexualidade.

Ao terceiro capítulo, o autor realizou a sua análise pontuando questões face as questões de: a) Merda aos museus, abaixo o luar; b) O alegre desbundar; c) Escrituras exóticas, escribas excêntricos; d) Tô in, tô out. Aqui, abre-se o debate considerando uma modernidade em crise, que não consegue mais responder as demandas lançadas pela sociedade pós 1950. Terá como elemento motivador a arte, que com o pós-modernismo surge como arte pop, também vista como antiarte tendo como fator diferenciador do que já vinha sendo historicamente pela cultura modernista o fato de ser “lançada nas ruas com outras linguagens (sic), assimilável pelo público: os signos e objetos de massa”, com isso a antiarte passa a ser vista como a “desestetização e a desdefinição da arte” (SANTOS, 1988, p. 36-37). Ou seja, é claro movimento de ruptura ao que que preconcebido ao entendimento que se tinha de arte. Esta nova forma de fazer arte, se apresenta em espaços que antes eram inimagináveis. Daí a antiarte irá trabalhar “sobre a arte dos ilustradores de revistas, publicitários e designers, e acaba sendo uma ponte entre a arte culta e a arte de massa; pela singularização do banal”. Com isso “Elite e massa se fundem na antiarte” (SANTOS, 1988, p. 37). Consolida-se nesse contexto um cenário ideal à indústria cultural, ao promover a arte de maneira articulada a dinâmica da sociedade de consumo. A arte rompe as barreiras dos museus, pinacotecas, bibliotecas, teatros. Ela agora se apresenta de forma “sorrateira” a partir da televisão, do rádio, etc. mostrando-se como uma invenção participativa, pois segundo Santos (1988), o público reage se envolvendo de maneira sensorial e corporal. Influenciada por esta forma artística da pós-modernidade, a literatura busca caminhar nessa mesma perspectiva, tendenciando a valorizar “o pastiche, a paródia, o uso de formas gastas […] e de massa”. Vê-se um anacronismo profundo entre os fundamentos modernos e pós-modernos, tendo em vista a sua singularização.

Seguindo o debate em torno dos princípios que fundamentam a pós-modernidade, o quarto capítulo abordará olhares a partir de aspectos como: a) Desordem e Pangresso; b) Pau de Bauhaus; c) Pintando/esculpindo o sete no pedaço; d) O real vira hiper-real; e) Menos é mais; f) Pensar, espectador, pensar; g) Ambientes: assim na terra como no céu; h) Anarquistas no agito – happenings, processos, performances; i) Novos bichos – a geração 80; j) O bode entrópico; k) Absurdetes americanas ou “Foda-se o Dia das Mães”; l) Cerebráticos franceses ou o romance morto pela masturbação; m) Back to Belíndia; n) No som, no corpo, na cena, no cinema; o) Bit balanço. Neste momento o autor da obra dará continuidade as reflexões em torno do pós-modernismo ainda tomando por base a ideia de antiarte. Agora, a antiarte será formalizada como algo que “não apresenta propostas definidas, nem coerência, nem linha evolutiva”. Isso fará o leitor depreender que está se propondo onde a arte pós-moderna é concebida como uma manifestação “Desestetizada, desdefinida, desmaterializada, […]” (SANTOS, 1988, p. 43; 52). Partindo desse princípio tudo pode ser arte e ela pode estar em qualquer lugar. Assim, segundo Santos (1988, p. 52), ela “utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para desencadear um acontecimento criativo”. Influenciados por estes princípios, diversas outras manifestações de arte alinham-se ao que se propondo o pensamento pós-moderno. Na literatura, abre-se espaço para ser “marginal, diluidora, anticultural […]”. São textos “espontâneos, mal-acabados, irônicos, em linguagem coloquial, que falam do mundo imediato […]. Na música, ele assume formas diversas. […] a dança […] põe no tablado até mesmo o grotesco, a feiúra […]. no teatro, as experiências mais chocantes começam com o Living Theater […]. não tem texto nem enredo, só corpos a imitar no palco fenômenos […]. No cinema, […] com altos efeitos especiais, corre solta a nostalgia acoplada à ficção científica. Reina o ecletismo […] e o pastiche” (SANTOS, 1988, p. 65-69). Portanto, a arte pós-moderna “Abala preconceitos, põe abaixo o muro entre arte culta e de massa, rompe as bandeiras entre os gêneros, […]”. Sugere-se então, algo totalmente desregulado onde o próprio mercado, representado aqui pela indústria cultural e o indivíduo sejam os filtros frente a esta fértil desordem de múltiplos estilos.

O quinto capítulo observará os seguintes aspectos: a) O fliperama do nada; b) Viver não é sobreviver ou o profeta de Walk-man; c) Abaixo o Ocidente; d) Marx & Freud Ilimitada. O autor abrirá o debate considerando que o período pós-moderno tem contribuído para desconstruir o discurso da modernidade. Não no sentido destruir, mas percebendo a possibilidade de revisão, crítica e/ou evolução à crise gerada pelo positivismo do período industrial. Esta crise, de caráter cultural, se pensada a sociedade e epistemológica, se considerada a ciência, abre uma fissura sem precedentes ao em seguida seria considera revolução técnica, científica e informacional. Nesse entremeio a consolidação da pós-modernidade, existia um cenário de descredito ou dúvida a que caminho a sociedade pós-guerra iria rumar, dadas as consequências dos conflitos entre as nações. Havia niilismo que exacerbado que fazia com as pessoas vivenciassem um anacronismo crônico, tendo em vista o que se vinham preconizando para a sociedade da época, mesmo percebendo que o capitalismo neoliberal se fortalecia, se consolidava a corrida aeroespacial e as transnacionais rompiam os muros imaginários de suas bases. Parece que tudo estava fora do lugar. O modelo de produção capitalista ou mesmo os resquícios do socialismo stalinista que se apresentavam, não respondia mais as demandas da sociedade. Em virtude dessa “falta de valores para agir, descrença em um sentido para existência” (SANTOS, 1988, p. 72), a pós-modernidade se apresenta. No entanto, os valores e princípios propostos pela pós-modernidade, em certa medida não concretiza, inclusive de “novo iluminismo” (SERRA, 1998). Na verdade, o que se tem de concreto é o fato da “tecnociência invadir o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista” (SANTOS, 1988, p. 73). Com “decadência acelerada” da modernidade industrial, chega-se a inferir que de alguma forma “a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida”, que de repente pudesse propor novas práticas culturais no contexto de uma indústria cultural que se fortalecia cotidianamente. Do ponto de vista da ciência, buscava-se um novo logos (SANTOS, 1988), uma nova razão para que se pudesse rever práticas ainda hegemônicas oriundas do positivismo. Nessa mesma linha de pensamento, Santos (1988) expressa a partir do Lyotard, que influenciado por Marx e Freud, conclui em “A Condição Pós-Moderna” que esta fase da história não está mais preocupada com a verdade, mas sim com a melhor performance, o melhor resultado.

Ao que tange o sexto capítulo é possível observar os seguintes aspectos: a) Clip-extravagância; b) A massa não é mais aquela; c) O vazio cintilante; d) Eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim. Aqui, o autor irá tocar em temas muito sensíveis e delicados ao contexto da pós-modernidade. Em primeira instância a obra tenta entender a forma como a sociedade de consumo se organiza. É possível compreender que é por meio da ideia de uma competividade construída sob o lastro de um individualismo narcisista que o consumismo se fortalece. Não se pode esquecer de mencionar que este modelo se torna ainda mais forte quando alia o poder da indústria cultural e a falta impressão estar bem informado pelos meios de comunicação de massa. Este cenário aliado a um Estado condescendente, ao sistema neoliberal, permite que a população tenha sua vida social programada nos seus menores detalhes (SANTOS, 1988). Se por um lado, os princípios indiciários da pós-modernidade buscavam questionar o sistema com vistas uma democracia ativa e uma emancipação cidadã, por outro, o próprio indivíduo pós-moderno é tragado por um jogo personalizado de bens e serviços tornando-se um instrumento manipulável. Este cenário contribui para haja um descolamento da sociedade frente ao seria direito coletivo, fazendo com o olhar narcisista contribua para uma desmobilização popular em relação as grandes pautas. Com isso, Santos (1988) observa que o “individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas”. Isto é aprofundado com a deserção social dos espaços de participação, sejam elas na família, política ou conforme explica Santos (1988). Com o apelo provocado pela mídia de massa, tem-se um ambiente aprofundado, provocando e promovendo um processo de espetacularização, seja qual for o espaço, tradicional ou virtual. Nesse jogo da midiático, a “espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes”. Cria-se assim, uma hiper-realidade, conforme explica (SANTOS, 1988, p. 96), sempre com vistas a sedução, ao encantamento artificial (SANTOS, 1988). Com a pós-modernidade produziu um cidadão “confuso, indefinido, plural, feito de retalhos que não se fundem num todo” (SANTOS, 1988, p. 104).

No caso do sétimo e último capítulo, Jair Ferreira dos Santos irá apresentar informações em torno do seguinte aspecto: a) e, e, e, e, e, e, e. Nesse momento, o autor tenta emitir um desfecho ao que vinha sendo apresentado e refletido como pós-modernidade. Aqui, Santos (1988, p. 106) observa que neste cenário se tem “o cotidiano povoado pela tecnociência […] em bens e serviços para o indivíduo consumir […] onde é importante o papel dos modelos gerados pela publicidade e os mass media”. Vê-se claramente que o modelo pós-industrial impulsionado pela revolução técnica, científica e informacional, levanta como prioridade básica para sua razão de existir, a sociedade de consumo e a indústria cultural. Tudo irá passar por esses dois marcos “desenvolvimentistas”, inclusive a forma de governar e fazer política, seja, em micro ou macroestruturas. Estes fatos fazem com que o niilismo cultural continue presente, ocasionando “desencanto, desordem, descrença, deserto” (SANTOS, 1988, p. 108). Dessa forma, abre-se margem para ausência de controle social e democracia ativa, permitindo que a “tecnociência, inclusive com seus meios poderosos de simulação, estejam alterando as formas humanas de pensamento, percepção, tempo e espaço” (SANTOS, 1988, p. 109-110). Com as memórias coletivas são esfaceladas, a aldeia global fica “sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade” é tudo e é nada ao mesmo tempo, de uma herança mal construída, onde a modernidade ficou líquida (BAUMAN, 2014), sem nada para se amparar.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.