O que esperar de uma Biblioteconomia EaD?

por Mário Gaudêncio
Postado em: 23/03/2018
Atualizado em: 09/04/2018

O que a fazer para responder a ausência de bibliotecários em unidades informacionais escolares? Para tentar responder a este problema-chave, a Capes lançou no dia 23/03/2018, o curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância (BibEaD).

Para viabilizar a proposta, a UAB (2018, online), recomenda que o BibEAD seja “um curso do Sistema Universidade Aberta do Brasil, com projeto pedagógico de curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância […]”.

Nesse sentido, a Capes (2018, online), observa que o curso “[…] é resultado de uma parceria entre a CAPES, o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem por objetivo suprir a carência de bibliotecários, bem como a necessidade de atender a Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino até 2020, com a presença e atuação do profissional bibliotecário em todas as bibliotecas instaladas no país”.

Esta proposta na modalidade a distância, apesar de buscar responder a demandas sociais e de mercado, terá profundos desafios para que se consolide no cenário nacional. Vê-se que, a partir do momento que seu funcionamento for efetivado, será preciso concomitantemente construir uma forte rede de articulações ativas e altivas para que os profissionais oriundos destes possam ser inseridos ao mercado de trabalho, especialmente em bibliotecas escolares.

Vale lembrar que estas unidades de informação citadas, por um lado, funcionam de maneira precária, por outro, nem existem enquanto estrutura física. Nesse entremeio, está a total despreocupação com “coisa pública” pelos parlamentares e executivos das esferas públicas.

Portanto, a tarefa da implementação do curso de biblioteconomia traz a reboque diversas questões, que para serem solucionadas, será necessário muito mais que consciência de classe.

Para acessar o Projeto Pedagógico do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância, clique aqui.

Para acessar a Bibliografia do Projeto Pedagógico do Curso (versão preliminar), clique aqui.

Para acessar o Folheto Informativo, clique aqui.

Para maiores informações, acessar o portal da Capes e da UAB.

O que queremos das bibliotecas?

por Mário Gaudêncio

CONTEXTUALIZAÇÃO

Ao longo da história, a educação brasileira tem vivido sob constantes transformações. Nesse contexto, percebemos cenários dicotômicos de avanços e retrocessos.

A partir desta conjuntura, quando tratamos de educação também pensamos nas bibliotecas, que ao longo de sua existência tem sido em sua maioria negligenciada pelo Estado, salvas as últimas iniciativas provocadas pela sociedade e as entidades de classe ligadas a educação e ciência da informação. A exemplo disso, está o Conselho Federal de Biblioteconomia, que tem ampliado o número de debates em torno da importância da biblioteca para o processo de democratização da informação e fortalecimentos frente as ações docentes nos ambientes educacionais.

Não é uma tarefa fácil, pois requer de uma complexa engenharia para reunir forças, ampliar e aprofundar o debate, sem contar na difícil tarefa de sensibilizar o poder público para que seja percebida a necessidade de dispor de unidades de informação nos mais diversos lugares, seja na cidade ou no campo.

Face a isso e mesmo com o atual cenário brasileiro de instabilidade, vitórias podem ser comemoradas, como é o caso da Lei 12.244 (BRASIL, 2010, online), que trata da “universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País”. Felizmente, existe um entendimento de que esta luta não será finalizada com a lei mencionada, tanto é que novos debates estão em curso. Dentre eles, podemos observar dois, respectivamente:

a) Projeto de Lei 28 (SENADO, 2015, online), que “institui a Política Nacional de Bibliotecas” (SENADO, 2015, online);

b) Projeto de Lei 6.038 (CÂMARA, 2010, online), que “regulamenta o exercício da atividade profissional de Técnico em Biblioteconomia”.

Do ponto de vista legal, ações estão refletidas com a intenção de propor uma política de Estado capaz de responder a diversas demandas educacionais, que por muitos anos foi silenciada ou negligenciada pelos representantes políticos.

AMEAÇAS

Recentemente vínhamos visualizando investimentos que valorizavam as estruturas físicas e de equipamentos para renovação ou criação de bibliotecas face ao que estava determinado pela  Lei 12.244 que, inclusive propunha como meta a necessidade de tornar obrigatória a presença de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas em torno o território nacional.

Porém, muito deste sonho estava alicerçado no processo de partilha do pré-sal que, destinaria recursos substanciais à educação. Aliado a isso estão os possíveis congelamento de investimentos à área de educação, preconizada pela PEC-241 (CÂMARA, 2016, online), que “altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal”.

Observando este cenário, aquele que poderia ser o “período de ouro” às bibliotecas brasileiras, pode se transformar em uma época de “sonhos perdidos”, finalizados pelas mãos do próprio Estado, aquele mesmo que formalizou o sonho, agora ameaçado.

SONHOS ESPERADOS

Bem, mesmo com atual cenário de incertezas, se me fizessem a pergunta:

– O você quer de uma biblioteca?

Eu simplesmente responderia:

– Quero tudo! Quero que seja pensada a partir de uma política de Estado de longo prazo, onde as bibliotecas sejam concebidas e reconhecidas como espaços estratégicos voltados para promoção da educação e valorização da cultura. Que permita que, desde a mais tenra idade possibilite o acesso ao conhecimento registrado, independentemente de classe, ou gênero, por exemplo. Que este espaço seja apresentado como um lugar de encontro,convívio, integração e libertação comunitária. Que este ambiente permita revelar valores culturais silenciados para minoria hegemônica, que em condições normais, dificilmente poderá ascender aos palcos das artes populares ou eruditas. Que permite um lugar prazeroso onde bibliotecários, professores, artistas convivam em harmonia, celebrando a arte do saber.

Talvez pensando assim, não só nos tornaremos instrumentos da mudança educacional, mas também daremos respostas às concepções arraigadas um modelo de sociedade que fortalece, mesmo que intuitivamente, ou seja, sem a intenção de fortalecer o estereótipo de que a biblioteca é apenas percebida como “um lugar para pesquisar ou estudar”, e tendo motivação, simplesmente”ler livros para pesquisar ou estudar”, conforme é expresso pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, promovida pelo (FAILLA, 2016, online).

Na minha concepção, ela vai muito mais além do que isso, conforme expresso anteriormente, contudo, com a atual realidade, será de se comemorar se sua cidade existir uma biblioteca, seja qual for a modalidade para que você possa viver o sonho de “surfar nas ondas do saber”, com toda liberdade possível e imaginável.

ILUMINAÇÕES TEÓRICAS

BRASIL. Lei n. 12.244, de 24 de maio de 2010.Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/UserFiles/File/Legislacao/Lei%2012244.pdf>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n. 28, de 11 de fevereiro de 2015. Institui a Política Nacional de Bibliotecas. Senado [da] República Federativa do Brasil. Brasília,  11 fev. 2015. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/119687>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Câmara Federal. Proposta de Emenda à Constituição n. 241, de 15 de junho de 2016. Câmara [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 10 out. 2016. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2088351>. Acesso em: 21 out. 2016.

CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA. Projetos de lei de interesse da classe bibliotecária em tramitação no Congresso Nacional. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/projetos.php?codigo=24>. Acesso em: 21 out. 2016.

FAILLA, Z. (Org.). Retratos da leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante; Instituto Pró-Livro, 2016. Disponível em: <http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf>.

O que pode significar “paz”?

por Mário Gaudêncio

Hoje foi divulgado pela Organizações das Nações Unidas – ONU, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz, tendo ganhador Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia. O motivo foi por contribuir para um processo de negociação de PAZ entre o governo colombiano e a FARC, que a 52 anos vivem sob constantes conflitos, em uma “[…] guerra civil, que deixou mais de 200 mil mortos” (DW, 2016, online).

Salvas as polêmicas em torno do merecimento do presidente colombiano ser lareado com esta honraria, a ideia de paz é algo bem mais complexo, que ao tentar refletir e entender o que é e qual a sua importância, logo percebemos que, sabemos de menos, de mais, ou até banalizamos o assunto.

Segundo o Portal Etimologia (2016, online, tradução nossa), paz significa período de estabilidade, onde este tempo de tranquilidade é resultado de um pacto.

Partindo deste pressuposto, e voltando o nosso olhar para esta ideia de “estável” a partir de um pacto social comprometido com o interesse coletivo, vemos que a paz é uma necessidade fundamental para subsistência humana.

Encarando desta forma, fica fácil pensar a sociedade, isso é claro se, deixarmos de lado o egoísmo, a prepotência, arrogância, inveja e diversos outros termos gestados para alimentar um modelo de sistema individualista, seletivo e promotor da intolerância.

Se a paz é tão importante, qual o motivo de existir guerra? Simplesmente para alimentar interesses escusos e realimentar o ímpeto da violência, vingança é do capital que sobrevive da morte.

Acredito que seria bem melhor favorecer a vitória a partir da paz, mas não aquela construída sob a força da morte. Deveria ser uma paz que se manifesta  poética e utopicamente a partir do “espírito”, capaz de motivar um perene estado de comunhão, partilha, vivência, solidariedade e respeito ao outro, ao coletivo, a tolerância e o bem comum, sem xenofobia, etnocentrismo ou qualquer outro tipo de preconceito.

Portanto, só desejando ao outro aquilo que se deseja para si, se conseguirá abrir uma janela para ser vivida uma paz permanente, pois a paz começa dentro de cada um nós.

REFERÊNCIAS

DEUTSCHE WELLE BRASIL. Presidente da Colômbia leva Nobel da Paz. Bonn, Germany, 2016. Disponível em: https://bit.ly/2kqnKBw. Acesso em: 07 out. 2016.

ANDERS, Valetín et al. (Org.). Diccionario etimológico. 2016. Disponível em: https://bit.ly/2lUGTw2. Acesso em: 07 out. 2016.

Um olhar necessário à netnografia

pelo Mário Gaudêncio

A Sociedade da Informação e da Comunicação diariamente tem precisado dar respostas as mais diversas demandas do mundo contemporâneo.

A cada dia surgem novos objetos de estudos, provocando um realinhamento teórico-metodológico aos problemas levantados pelos seus ecossistemas da informação.

Nesse contexto, a comunidade científica precisa criar condições plausíveis para sanar questões dialéticas ou pragmáticas, por exemplo.

Percebendo isso, e mirando na cibercultura, podemos visualizar como uma saída alternativa para responder aos desafios do mundo atual, a abordagem metodológica Netnografia.

A Netnografia é derivada da Etnografia, e tem como um dos seus objetivos basilares, entender o processo de interação social e informacional a partir das relações sociais dentro da dinâmica comunicacional que ocorre por meio do diálogo mediado pelo computador.

Esta conjuntura se manifesta em virtude do ciberespaço por meio da cibercultura que tem apresentado os seus próprios paradigmas diante de uma sociedade cada vez mais exigente.

E é nesse contexto que a netnografia em sua concepção, a cada dia tem maturada uma evolução importante, dando um singular suporte a produção de conteúdos a partir de espaços digitais, sejam eles, mídias sociais, blogs, comunidades virtuais ou grupos de discussão por exemplo.

Com uma proposta hermeticamente articulada e construída, que pensa nas mais diversas possibilidades de análises e reflexões, a netnografia certamente pode ser percebida como uma possibilidade metodológica capaz de descortinar incertezas no campo da investigação científica eletrônica.

Portanto, o pesquisador que quiser entender as dimensões e complexidades do ciberespaço, certamente precisará conhecer o potencial metodológico da netnografia.

REFERÊNCIAS

KOZINETS, R. V. Netnografia: reaizando pesquisa etnográfica online. Tradução de Daniel
Bueno. Porto Alegre: Penso, 2014. (Métodos de Pesquisa).

ROCHA, P. J.; MONTARDO, S. P. Netnografia: incursões metodológicas na cibercultura. E-Compos, dez. 2005. Disponível em: <http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/55/55>. Acesso em: 03 out. 2016.

AMARAL, A.; NATAL, G.; VIANA, L. Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital. Imaginário, ano 13, n. 20, p. 34-40, 2008. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/famecos/article/view/4829/3687>.

Onde está sua Biblioteca Escolar?

Por Mário Gaudêncio

Desde de 2010, uma série de ações e dispositivos estão sendo discutidos e implementados no Brasil quanto a Universalização, Parâmetros e Políticas para garantir as Bibliotecas Escolares em todo o Brasil. Isso se justifica por se perceber que existe um cenário preocupante quanto a quantidade e a qualidade destas Unidades de Informação. Temos seguramente um ambiente complexo e dicotômico.

Complexo, porque uma série de agentes sociais e públicos estão envolvidos dentro de um contexto de disputa e ideológico, onde o sonho de tornar real esta iniciativa, na maioria das vezes esbarra na condição política de cidade, periferia, vila, campo ou rincão.

Dicotômico, em virtude de, por um lado viabilizar uma legislação própria, mas com distorções locais sérias, pois na maioria das vezes órgãos executivos não estão nem um pouco preocupados com a execução da Lei, seja por uma questão cultural, de sensibilidade educacional ou por falta de conhecimento ou vontade política.

Pensar um Plano Nacional da Educação (PNE) ou um Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) sem assegurar nas bases da educação a inclusão das Bibliotecas Escolares e de Profissionais Bibliotecários, é o mesmo que mutilar os princípios básicos da educação, assegurados e garantidos como fundamentais frente as garantias constitucionais. É impossível refletir e gerir o fortalecimento educacional visualizando todas as suas condições, independente do nível de complexidade.

O que preocupa nesse contexto é o fator de, passados vários anos após a aprovação da Lei n. 12.244/2010, termos acompanhados pequenos impactos quanto a implementação efetiva destas Unidades Infoeducacionais, seja por ausência de mobilização dos movimentos de classe, dos profissionais ou pela ausência de disponibilidade e compromisso das representações políticas nos mais diversos níveis, nacional, estadual e municipal.

Várias legislaturas passaram nos últimos anos, mas pouco se fez. Estamos a poucos anos do prazo limite para que de fato a ideia de “universalização” seja efetiva, mas fica dúvida se de fato teremos Bibliotecas Escolares em todas instituições educacionais do Brasil.

Neste sentido, é cada vez mais preocupante visualizar o cenário que se aproxima! Será que ao final do prazo estabelecido pela Lei n. 12.244/2010, conforme expressa o artigo terceiro, teremos motivos para comemorar ou para lamentar?

A meu ver, se faz necessário uma forte articulação e pressão popular para possibilitar uma possível vontade política em efetivar a Lei nos mais diversos (5.570) municípios brasileiros (BRASIL, 2013, online).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto nº 7.559, de 1 de setembro de 2011. Dispõe sobre o Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil. Brasília,  05 set. 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7559.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Lei nº 12.244 de 24 de maio 2010. Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. República Federativa [do] Brasil. Brasília,  24  maio 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12244.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil. Brasília, 25 jun. 2014. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Cresce número de municípios no Brasil. Brasília: IBGE; Senado Federal, 2013. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2013/06/cresce-numero-de-municipios-no-brasil-em-2013>. Acesso em: 09 set. 2016.