O que é ABINIA?

Mário Gaudêncio

Esta Entidade, em sua história recente é construída a partir do final da década de 1980, onde esta é concebida como:

Associação de Bibliotecas Nacionais da Ibero-América (ABINIA), fundada no México em 14 de dezembro de 1989, é um fórum inter-regional que reuniu as 22 Bibliotecas Nacionais da América Latina. Em outubro de 1999, o ato constitutivo que lhe confere o caráter de uma Organização Internacional é aprovado em Lima, Peru, com uma nova denominação: Associação dos Estados Ibero-Americanos para o Desenvolvimento das Bibliotecas Nacionais da Ibero-América, mantendo o nome de ABINIA. Até junho de 2002, o ato constitutivo foi ratificado por 10 países da América Latina (ABINIA, 2019, tradução nossa, online).

Atualmente, são signatários e membros da ABINIA (2019, online), seguintes países:

  1. Cuba;
  2. Equador;
  3. El Salvador;
  4. Espanha;
  5. México;
  6. Nicarágua;
  7. Panamá;
  8. Paraguay;
  9. Perú;
  10. Venezuela.

Curiosamente, o Brasil não aparece no site da ABINIA na condição de membro, apesar de que a Biblioteca Nacional evidencia a sua presença por meio dos “os fóruns multilaterais e dos acordos de cooperação e parcerias” (BIBLIOTECA NACIONAL, 2019, online).

Vê-se que a importância da ABINIA (2019, tradução nossa, online) para região pode ser observada por dos seus objetivos, conforme lemos:

  1. Coletar e manter informações atualizadas e retrospectivas nas Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas;
  2. Realizar as etapas necessárias para aumentar a conscientização sobre a importância do patrimônio bibliográfico e documental dos países membros;
  3. Adotar políticas, estratégias, padrões e programas de treinamento para a preservação de coleções nacionais de bibliotecas;
  4. Adotar padrões técnicos compatíveis que garantam controle bibliográfico, facilitam o intercâmbio de materiais e informações e a automação dos sistemas de informação;
  5. Desenvolver fontes de referência nacionais e regionais que incentivem a pesquisa, o estudo e o intercâmbio de informações;
  6. Vincular bibliotecas nacionais a outras bibliotecas, bem como redes e sistemas de informação existentes;
  7. Divulgar coleções através de catálogos, edições e exposições;
  8. Apoiar o treinamento acadêmico e os programas de treinamento em serviços destinados a atualizar e melhorar os recursos humanos das bibliotecas nacionais, bem como o treinamento dos usuários;
  9. Troca de experiências e realização de pesquisas conjuntas sobre problemas inerentes às bibliotecas nacionais;
  10. Prestar assistência técnica aos membros que solicitarem;
  11. Gerenciar a obtenção de recursos financeiros, materiais e humanos que contribuam para a consolidação e modernização das coleções e serviços das bibliotecas nacionais e que permitem a realização de programas cooperativos;
  12. Realizar qualquer outra atividade que as Partes decidam, de comum acordo, realizando em conformidade com es documento

Diante do exposto, entende-se que a presença do Brasil na ABINIA é estratégica para o país e à Rede Ibero-Americana, especialmente pela sua natureza mútua de cooperação internacional, onde o resultado possível é desenvolvimento sociocultural dos países de língua espano-portuguesa.

Para mais detalhes sobre a ABINIA, acesse aqui.

REFERÊNCIA

ABINIA. Objetivos de la Asociación. Disponível em: http://www.abinia.org.

ABINIA. Situación actual de la Asociación. Disponível em: http://www.abinia.org.

BIBLIOTECA NACIONAL. Acordos de cooperação e parcerias. Disponível em: https://www.bn.gov.br/sobre-bn/acordos-cooperacao-parcerias.

Resenha capitular da necessidade de um pensamento complexo

MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco M.; SILVA, Juremir M. (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

Neste capítulo, Edgar Morin busca construir uma proposta teórico-filosófica a cerca criação de um novo paradigma, intitulado de “pensamento complexo”. Para tecer sua proposição em torno da tese, o autor subdivide o texto em seis partes, sendo respectivamente: 1) Política de civilização e problema mundial; 2) Vencer a especialização; 3) A Falsa racionalidade; 4) O Pano de fundo filosófico; 5) Por uma reforma da universidade do pensamento; 6) Os desafios do século XX.

Na primeira parte, Morin irá trazer à tona a reflexão de que a razão de existir do pensamento complexo se baseia na completude entre as partes e o todo. Para isso, o autor irá questionar a valorização ao pensamento moderno, especialmente ao que tange a ideia de especialização a partir da teoria positivista e do pensamento determinista. Para fortalecer essa premissa, Morin (2003, p.1) irá recorrer a investida de Pascal, ao refletir que “só podemos conhecer […] as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem”. Essa posição lembra em certa medida a posição de Adorno, com a Teoria Crítica, onde o mesmo evidencia que, o conhecimento que veio a questionar o positivismo, não surgiu para suplantá-lo, ao contrário, emerge para criticá-lo e melhorá-lo (FREITAG, 1986). Esta proposição de Morin também é apresentada como uma possibilidade de diálogo com o que teria sido concebido como “Agenda 21”, cujas reflexões se davam no sentido de contribuir para um desenvolvimento sustentável, iluminados pela ideia de “Pensar Globalmente e Agir Localmente”, conforme tinha sido forjada por Ulrich Beck (2004). Como isso Morin irá questionar a percepção unidimensional vigente, fruto do processo cognitivo construído a partir do pensamento moderno que não condiz mais a realidade. Daí abre-se espaço para um processo “multidimensional”, onde o conhecimento e a sociedade passam a ser construídos em regime de imbricamento, fusão e simultaneidade sob influências “econômicas, psicológicas, mitológicas, sociológicas, mas que estudamos estas dimensões separadamente, e não umas em relação com as outras” (MORIN, 2003, p. 2). Isso leva a pensar que é preciso passar a migrar a um outro estágio paradigmático, onde seja oportunizada uma visão circular em detrimento da visão linear, presente na ciência normal, conforme é enunciado por Kuhn (2017) na obra “A estrutura das revoluções científicas”. O fato é que, ao considerar essa relação cíclica de um processo que visa retroalimentação entre os espaços, o todo e o individual, automaticamente valorizar-se-á a ideia de unidade na diversidade. Isso faz com que Morin (2003, p. 6) considere que “o tesouro da humanidade é a sua diversidade”. Essa diversidade por sua vez mostra como o reflexo do complexo, do plural e que se origina da “incerteza” (MORIN, 2003, grifo nosso), ao contrário, do que se concebia na modernidade, com a busca pelo universal, fruto de uma razão instrumental e condicionada a uma verdade unívoca.

Na segunda parte, o autor irá aprofundar o debate anterior partindo do questionamento sobre a concepção de especialização. Seu posicionamento é enfático ao observar que mesmo sendo “impossível conhecer tudo do mundo ou captar todas as suas multiformes transformações. […] por mais aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a imbecilidade cognitiva” (MORIN, 2003, p. 12). Ou seja, o conhecimento jamais deverá ser concebido de maneira reducionista e determinista, fechado a um único ponto de vista ou verdade científica. Para que esta assertiva apontada por Edgar Morin seja viabilizada, ele indica é necessário “adquirir a possibilidade de articular e organizar as informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-las e organizá-las, necessita-se de uma reforma de pensamento” (MORIN, 2003, p. 13).

Quanto a terceira parte, é apresentado que o pensamento completo “busca distinguir (mas não separar) e ligar” tendo como objetivo “ao mesmo tempo unir (contextualizar e globalizar) e aceitar o desafio da incerteza” (MORIN, 2003, p. 14-15). Para são lançados princípios basilares para orientar a adesão do conhecimento a teoria da complexidade, respectivamente: 1) Princípio sistêmico ou organizacional; 2) Princípio “hologramático”; 3) Princípio do anel retroativo; 4) Princípio do anel recursivo; 5) Princípio de auto-eco-organização; 6) Princípio dialógico; 7) Princípio da reintrodução daquele que conhece em todo conhecimento. Esses princípios convertidos nos sete saberes fundamentais para embasar o pensamento complexo permitiu a Edgar Morin considerar que este “opera a união da simplicidade e da complexidade” (MORIN, 2003, p. 18), sendo e valendo-se ao mesmo tempo de ser pensado como integrativo, singular e plural, específico e geral, global e local.

Ao que é refletido na quarta parte, Edgar Morin tomou como ponto de partida as influencias que puderam ser derivativas à consolidação do pensamento complexo. A isto são mencionadas influencias ocidentais e orientais indiciárias como Lao Tsé e Heráclito. Mais recentemente, pode ser observado como “alimento para uma concepção da complexidade” (MORIN, 2003, p. 20), a teoria crítica representada por Horkheimer, Adorno e Habermas, chegando a contemporaneidade sob influência de duas grandes revoluções científicas. Considerando as influencias e contribuições de diversas correntes teóricas e filosóficas, o “pensamento completo, é, portanto, essencialmente aquele que trata com a incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir, contratualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o singular, o individual e o concreto. O pensamento completo não se reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas permite a comunicação entre elas, servindo-lhes de ponte” (MORIN, 2003, p. 21).

Buscando entender a quinta parte deste texto capitular, Edgar Morin inicia a sua exposição de maneira enfática ao constatar que a “complexidade exige uma reforma de pensamento” (MORIN, 2003, p. 22). Contudo para se articular uma iniciativa com vistas a uma possível reformulação, se faz necessário articular uma relação com a universidade, que em sua concepção fundante de universidade e contexto científico, a mesma é considerada ao mesmo tempo “conservadora, regeneradora e geradora. Conserva, memoriza, integra, ritualiza um patrimônio cognitivo; regenera-o pelo reexame, atualizando-o, transmitindo-o; gera saber e cultura que entram nessa herança”. Este por sua vez por ser “vital ou estéril” (MORIN, 2003, p. 22). Considerando essa linha tênue sinalizada anteriormente, ressalta-se que a universidade se baseia e fundamenta-se em uma posição “transecular pela qual […] conclama a sociedade a adotar sua mensagem e suas normas” (MORIN, 2003, p. 23). Com isso, fica visível que o contexto de mudança deve acontecer dentro dos limites fronteiriços da academia e pela a sua comunidade científica. Porém, com esta conjuntura, Morin comenta que o desafio é ainda maior, especialmente porque “não se trata somente de modernizar a cultura, trata-se de culturalizar a modernidade” (MORIN, 2003, p. 24).

Por fim, ao que se refere a sexta e última parte, Edgar Morin tece suas considerações constatando que o “século XX impôs vários desafios” fazendo com que “tudo isso exigisse uma reforma do pensamento” (MORIN, 2003, p. 25), capaz de “substituir um pensamento que separa por um […] que une”, permitindo “que o conhecimento da integração das partes num todo seja completada pelo reconhecimento da integração do todo no interior das partes”. Baseado nisso, será possível ventilar uma “reforma […] paradigmática, que diz respeito à nossa atitude em relação à organização do conhecimento” (MORIN, 2003, p. 26). Mas para que isso possa ocorrer se faz necessário anteceder este processo, com a concomitante reforma da instituição e das suas respectivas mentes. Para isso é preciso “que eles se auto eduquem, e se eduquem prestando atenção às gritantes necessidades do século, as quais são encarnadas também pelos estudantes”. Portanto, é possível concluir que a “universidade deve ultrapassar-se para se reencontrar”.

¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Bibliotecas potiguares poderão ser beneficiadas pelo FEC

por Mário Gaudêncio

A Assembléia Legislativa realizou Audiência Pública nesta sexta-feira (28.06.2019), no município de Mossoró para debater o Fundo Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte.

De acordo com a Assembléia Legislativa (2019, online), “O Fundo tem como objetivos fomentar a produção artístico-cultural potiguar, mediante o custeio total ou parcial de projetos culturais, de iniciativa de pessoas física ou jurídicas de direito público ou privado, relacionados com as pesquisas, a edição de obras e a realização de atividades artísticas”.

Ficou estabelecido que as áreas abrangidas pelo Fundo são:

  • artes cênicas, plásticas, gráficas e tecnológicas;
  • cinema, fotografia, vídeo e internet, literatura, música e dança;
  • artesanato, folclore e tradições populares;
  • patrimônio material e imaterial;
  • museologia, biblioteconomia e arquivologia.

Aos profissionais da informação, é importante salientar que, com este formato proposto ao Fundo, abre-se a possibilidade destes, em conjunto com as suas respectivas Unidades Informacionais potiguares, pensarem e planejarem estratégias de práticas infoculturais às suas dinâmicas de trabalho e espaços de atuação.

Para mais detalhes, acesse a nota pública do Fundo Estadual de Cultura (FEC) aqui.

Humanidades digitais

por Mário Gaudêncio

Segundo o Manifesto das Humanidades Digitais (2012, online), trata-se um movimento internacional, uma “comunidade de prática solidária, aberta, acolhedora e de livre acesso. […] sem fronteiras. […] multilingue e multidisciplinar”, que além da esfera acadêmica, tem “como objetivos […] o progresso do conhecimento, o reforço da qualidade da pesquisa […], e o enriquecimento do saber e do patrimônio coletivo” com vistas “à integração da cultura digital […] do século XXI”.

Para mais detalhes, acesse aqui a página Grupo de Pesquisas em Humanidades Digitais da Universidade de São Paulo.

Acesse a íntegra do texto (pdf) do Manifesto das Humanidades Digitais.

Veja também a página da Humanistica, Associação Europeia para Humanidades Digitais.

Resenha da obra as tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática

LÉVY, P. As Tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2. ed. São Paulo: 34, 2010. (Coleção Trans). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

Apresenta uma cuja a temática se dá em torno das tecnologias da inteligência, tendo como perspectiva teórica a corrente científica ecologia cognitiva.

Propõe em sua obra uma sistematização com vistas a entender o contexto histórico e cultural com a qual as tecnologias da inteligência foram criadas e desenvolvidas, assim como, busca propor saídas epistemológicas e metodológicas para pensar a sociedade pós-moderna a partir da ecologia cognitiva. Para isso, sua perspectiva teórica será construída em três partes, seno elas, “a metáfora do hipertexto”, “a oralidade primária, escrita e a informática”, como os três tempos do espírito; “rumo a uma ecologia cognitiva”.

Inicialmente, percebe-se que a ideia de hipertexto em primeiro lugar não é algo novo e por esse motivo, fica nítido visualizar o como sua concepção foi fundamental para fazer entender o surgimento da informática e consequentemente da internet. De maneira didática é possível observar este cenário a partir dos pensamentos idealizados pelo MEMEX, passando pela proposição da Apple e chegando as redes digitais. Mas o autor também deixa claro que, nada sei possível se desde a antiguidade não tivesse sido valorizado poder da oralidade, da escrita e consequentemente da invenção da imprensa.

Em segundo lugar, a quem pertence ao campo da ciência da informação e especificamente ao da biblioteconomia, o autor irá “costurar” toda a sua obra, falando da importância da Organização da Informação e do Conhecimento, isso fica nítido quando ele busca referenciais baseados em catálogos, classificação e bibliotecas.

Uma terceira questão relevante, é a forma como constrói a ideia de ecologia cognitiva, que sob uma condição pós-moderna pensada por Jean-François Lyotard, é muito aproximativa ao que também é postulado pela teoria da complexidade de Edgar Morin.

Depreende-se que neste mundo líquido concebido por Zygmunt Bauman e de antítese informacional construída através da modernidade tardia indicado por Anthony Giddens , onde, por um lado tem excesso de informação e por outro, ausência de competência para interpretar e lhe dar com estas mesmas, pensar e enquadrar toda uma forma de pensar e agir baseado em unidade na diversidade, valorizando as individualidades com vistas a uma inteligência coletiva é extremamente salutar, contudo, é importante considerar que toda corrente de pensamento não é, nem pode ser considera como completa, universal, até para não cometer o erro buscado pela cartesianismo positivista, que em última instância perdeu valor epistemológico a partir do momento que foi descoberta a teoria da relatividade e a teoria quântica, onde, aquilo que outrora era idealizado como imexível, passou a ser profundamente criticado por uns, refutado por outros ou complementados por novos seguidores.

Coadunado com a teoria crítica, vale lembrar aqui que, não se quer silenciar um em detrimento do outro, mas aproveitar aquilo que é positivo dos “dois mundos”.

Neste sentido, quando as tecnologias da inteligência são vistas e consideradas em todas as suas dimensões, aproveitando as suas potencialidades e limitações à luz da ecologia cognitiva, a quem também poderia ser chamada de ecologia da informação, se torna possível ampliar o horizonte teórico-metodológico e permitir que se chegue a um cenário além do determinismo e do estruturalismo, valorizando e integrando, o indivíduo, as mídias, a cultura e as tecnologias vigentes e vindouras.

É considerando isso que se tem a possibilidade de apresentar a ecologia cognitiva como “o estudo das dimensões técnicas e coletivas” (LÉVY, 2010, p. 139), valorizando a relação sujeito e objeto, assim como os aspectos cognitivos e sociais. Isso lembra em certa medida os paradigmas de Capurro e os postulados de Saracevic, onde as questões pragmáticas, cognitivas, semânticas, sociais e cognitivas são extremamente valorizadas e necessárias no fazer científico, em especial quando que quer entendo o contexto e rumo com a qual a informação está inserida, é produzida, a quem se destina e porque é relevante.

Portando, as tecnologias da inteligência, sob o viés da ecologia cognitiva se apresenta de suma relevância ao contexto cultural, social e informacional, tendo em vista que ela se coloca como uma corrente de pensamento holística, híbrida e pós-moderna, critérios singulares e significantes para fazer entender as demandas e disputas políticas e científicas que são e serão travadas nos mais diversos campos de batalha.

¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Literatura de cordel: patrimônio cultural brasileiro

por Mário Gaudêncio

É sabido que historicamente a literatura de cordel emerge e se consolida no Brasil a partir da região nordeste, seja em virtude da conjuntura social que se tinha na época ou pela lacuna cultura que se fortalecia cotidianamente em virtude do que se vinha sendo produzido no país em certa medida não refletir os anseios do povo do nordeste.

Ao longo de todo esse tempo, especificamente a partir do final do século XIX, a literatura de cordel tem passado por inúmeras transformações, sejam elas estéticas ou editoriais. Viveu o momentos de ascensão, declínio e adaptação ao mundo pós-moderno.

Hoje, ao olhar para o passando, percebe que a sua natureza simbólica e estética evoluiu como uma possibilidade cultural que transcende a discurso raso a respeito do seu lugar na memória coletiva do povo brasileiro.

O cordel tem se mostrado como uma forma de expressão contemporânea que transcende limites ou barreiras. É um instrumento que a todo momento interage com a cultura e a sociedade. Influencia e é influenciado. Não é a toa que o traços da literatura de cordel podem ser encontrados na nas mais diversas manifestações de arte.

Neste sentido, isso nos leva a considerar que a literatura de cordel chegou a um patamar onde não se tem mais espaço para estigmatizá-la como subliteratura ou que ela produz apenas artefatos rudimentares de uma tradição iletrada.

Ao contrário disso, ela vai muito mais além, mas que em essência, sempre esbarrou no poder simbólico nas relações institucionalizadas que, de maneira sectária segregou a literatura de cordel a uma cultura que deveria ser entendida no máximo como popular.

Isso vai de encontro ao que se entende por cultura, onde o ato de hierarquizar contribui diretamente para segregar, um povo, uma forma de pensar, um meio de manifestar.

É esperado que, com o parecer do IPHAN, mesmo que tardiamente reconhecido, é importante a literatura de cordel enquanto patrimônio cultural brasileiro, que também sejam pensadas políticas públicas além da salvaguarda das produções intelectuais, mas que se tenha em vista solucionar questões ainda distantes de ser equacionadas, como:

a) Contrapor o discurso cristalizado de que o cordel é uma subliteratura;

b) Que sejam criadas políticas afirmativas econômicas de apoio a subsistência humana dos cordelistas, pois dificilmente estes conseguem viver das suas produções intelectuais;

c) Que se perceba a necessidade e importância de criar uma política cultural frente ao processo produtivo a partir de um mercado editorial capaz de editar, divulgar, distribuir e comercializar as obras intelectuais dos poetas com ética e lisura;

d) Que sejam definidas estratégias para que os familiares possam usufruir da propriedade intelectual dos cordelistas após seus falecimento.

É bem verdade que, a luta pela preservação da memória coletiva e democratização do acesso aos conteúdos originários dos cordéis alcançaram avanços significativos, seja em meio analógico (impresso) ou em ambiental digital (caso dos cibercordéis), contudo, ainda há um percurso longo a fazer, especialmente quando se remete a dar voz àqueles são silenciados, dentro ou fora do próprio domínio ou rede social.

Portanto, vê-se como salutar e necessário, o reconhecimento institucional do IPHAN para essa fonte informação (complexa e inesgotável), todavia, é de extrema importância que essa chancela seja o início de uma virada cultural no Brasil para um gênero que precisa ser antes de qualquer coisa, reconhecido como uma faceta literária sem insinuações de reducionismos positivistas ou relativismos que contribuem negativamente para uma retração e limitação na forma de vê o mundo a partir dos ditos cânones.

O momento é de oportunizar a diversidade e pluralidade cultural e estreitar os laços entre os mundos literários, podendo assim, vir a reduzir o frágil e limitado discurso em torno da relação, que ao meu ver é insipiente, entre a ideia de cultura erudita versus cultura popular.