por Dra. Julita Sena*
“As formas do hoje que fascinam nossas mentalidades, é por espelharem o horizonte cultural que ambiciona “neutralizar moralmente” as penosas experiências que temos diante do sofrimento humano” (Jurandir Freire costa).
Certa vez, escutei do professor e amigo querido, Ailton Siqueira, que lemos o mundo e a vida dos outros a partir de nós mesmos. Foi com ele que dividi uma disciplina no mestrado em Ciências Sociais e Humanas na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, na qual abordamos os mal-estares que incidem na nossa contemporaneidade e que, partindo da concepção inicial exposta aqui no texto diz algo sobre quem e como somos. Então, entendo que é fundamental denunciar, provocar, fazer pensar e repensar os modus operandi da humanidade que se desdobra nas manifestações de sintomas diversos. E aqui estamos encerrando setembro e suas representações com o amarelo; torcendo eu para que não se resuma a um fator mercadológico.
Somos marcados pela resolutividade, produtividade, aparências do belo, corpos saudáveis e bem-estar desmedidos. Frente à isso, Leônia Teixeira, psicóloga e psicanalista, enfatiza o trabalho do analista que não foca apenas no campo biológico e físico, mas que se dá através das palavras sobre a história do sujeito. Ainda bem que aposto na Psicanálise e saberes afins porque não consigo compatuar com as tratativas mecânicas do que há de mais humano.
Os elementos destacados por Leônia, muitas vezes vejo sendo levados em desconsideração para que se atenda as esquivas ao que faz sofrer, poupando-nos (ou não) de elaborar as nossas faltas, sentir as ausências, sofrer com as nossas perdas, viver os nossos lutos e nos encarar como seres finitos. Para Christian Dunker, as tratativas atuais de manejar as angústias comprometem até o entendimento de que há coisas das quais não temos como escapar e, assim, não sabemos lidar sequer com o que é propriamente nosso.
Elisabeth Roudinesco ressalta que na sua época e em nosso tempo, Freud faz a sua história, resiste às críticas apelativas. Talvez seja isso que me proponho a fazer dia-a-dia: resistir às medidas duvidosas travestidas de cuidado.
Afinal, todos somos afetados por isso em alguma medida, uma vez imersos nesses tempos de vida prática e aparentemente feliz, no qual o show business acontece de um modo descompromissado com as nossas questões mais subjetivas e nossa intimidade. Sobre o meu campo especial de atuação, infelizmente, são muitos os ditos e ditas psis que corroboram com esse movimento. E ainda assim, as críticas se voltam para os que se preocupam e se ocupam da subjetividade humana.
O trabalho de Freud no âmago do seu início, discute o adoecimento através do embate entre o homem e a sua cultura, percebendo a etiologia das doenças com raízes entre a constituição do sujeito e as exigências civilizatórias. Os nossos trabalhos ocorrem simultaneamente à luta contra o racismo, crimes de lgbtfobia, discursos de ódio jogados ao vento, feminicídio expresso, loucura ainda encarcerada, pessoas com a vida em risco pela fome e pobreza, ascensão dos pensamentos que embasam atitudes fascistas, sobrevivência à pandemia, muitas perdas, incontáveis mortes e lutos mais do que difíceis.
Resgato o setembro amarelo e pontuo: a nossa contemporaneidade se caracteriza por querermos ser melhores, mais ágeis, fecundos e, ao mesmo tempo, livres, leves e soltos; apesar de tudo isso mencionado e bem mais. Daí, o choque! Do estímulo elétrico ao entendimento… Haja psicofármacos, trópicos e outras coisitas más (mais em espanhol e más do adjetivo) para sobreviver à imensa confusão de anseios.
O nosso meio se apresenta mais ocupado com as diretrizes classificatórias pela ótica do adoecimento a serem sanadas e pouco preocupado com as tantas demandas de cunho social e coletivo que desembocam na subjetivação e isso desqualifica o que podem vir com o tempo, elaborações e dizeres. Inclusive, Alfredo Simonetti diz que adoecer também oportuniza novas formas de ver o mundo através da possibilidade de destrinchar essa experiência, produzindo portanto, resultados diversos. Quem estaria disposto a isso diante das facilidades do “hoje em dia”? Adoecer pra quê?
Se, para Dunker, cada época tem a sua própria visão de mundo e de homem, com seus valores ídolos e demônios; interrogo quais seriam os nossos atravessamentos; dada as exigências de superprodução e superdesempenho, as quais não permitem sequer falar sobre as nossas aflições; como pontua Byung-Chul Han.
Consequentemente, estamos mergulhados em TDAH, entalados de Burnout, afundados em depressão e generalizados na ansiedade. Perdemos nossas singularidades, pois esquereçam-se do que é próprio de cada um. E então, Caetano interroga: “existirmos, a que será que se destina?”.
A quem atendemos? Estamos a serviço do quê e de quem? Moretto, questiona as técnicas de cuidados em evidência; destacando que priorizar diagnósticos e nomear sintomas nos leva a correr o risco de ficar sem saber sobre o sofrimento e sobre o que ocorre com nós mesmos (grifos meus). Coloco em primeira pessoa do plural e ressalto que essas colocações são pensadas e feitas a partir do meu lugar na Psicologia e na Psicanálise, mas principalmente no mundo enquanto pessoa.
O curioso é que o advento da inteligência artificial mostrou que esta consegue até dar um sopro de vida os mortos, mas não nos reuniria nos mais diversos sentidos. Pois não alcança o que não é computável, o que não é baseado em evidências, o que não é transparente. A I.A. não escuta os silêncios e nem destrincha as entrelinhas; esse trabalho é puramente humano; me atrevi a fazer esse arranjo entre uma fala recente de Marcelo Veras com outra de Luc Ferry.
É o que está no cerne do ser humano que desbanca muitos dos ideais contemporâneos… Rosa Montero coloca a morte como “companheira silenciosa que nos devora pelas costas” e é o inevitável da vida que vai descortinando a nossa fragilidade, não somente por reafirmar que somos finitos e sim por também destacar as impossibilidades das ciências e tecnologias que desenvolvemos mais e mais, mostrando que elas também fracassam; despertando os nossos pavores mais imaginários, como coloca Del-Volgo. Ou seja, o que é nosso, I.A. nenhuma dá jeito.
Há circunstâncias que não permitem outra opção, muito menos outra chance. Mariotto escreve que o ano de 2020 marcou a ferro quente a carne da civilização. A trama da pandemia da Covid-19 escancarou a morte e a batalha coletiva pela sobrevivência. Morte e lutos para todos. O implacável deixou impotente as maiores das potências. Enterros em valas comuns, rituais sem contato e talvez sem despedidas, medidas para tornar as coisas menos impessoais na empreitada de oportunizar alguma coisa para os humanos que somos. Tantas ausências, tantas privações, a violência do negacionismo e a agressividade da sensação de estar em risco que talvez não saibamos ainda onde isso realmente vai dar.
E por falar em fins; Contardo insinua: “O ideal seria que alguém pudesse viver sem dor a sua morte. Porque, afinal de contas, é uma coisa que vai acontecer com você só uma vez na vida.”.
Então, façamos algo interessente com aquilo que nos é único.
*Psicóloga clínica (CRP-17/2145) e psicanalista. Doutora em Psicologia com pós-doutorado em Ciências Sociais e Humanas.
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