Resenha capitular da necessidade de um pensamento complexo

MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco M.; SILVA, Juremir M. (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

Neste capítulo, Edgar Morin busca construir uma proposta teórico-filosófica a cerca criação de um novo paradigma, intitulado de “pensamento complexo”. Para tecer sua proposição em torno da tese, o autor subdivide o texto em seis partes, sendo respectivamente: 1) Política de civilização e problema mundial; 2) Vencer a especialização; 3) A Falsa racionalidade; 4) O Pano de fundo filosófico; 5) Por uma reforma da universidade do pensamento; 6) Os desafios do século XX.

Na primeira parte, Morin irá trazer à tona a reflexão de que a razão de existir do pensamento complexo se baseia na completude entre as partes e o todo. Para isso, o autor irá questionar a valorização ao pensamento moderno, especialmente ao que tange a ideia de especialização a partir da teoria positivista e do pensamento determinista. Para fortalecer essa premissa, Morin (2003, p.1) irá recorrer a investida de Pascal, ao refletir que “só podemos conhecer […] as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem”. Essa posição lembra em certa medida a posição de Adorno, com a Teoria Crítica, onde o mesmo evidencia que, o conhecimento que veio a questionar o positivismo, não surgiu para suplantá-lo, ao contrário, emerge para criticá-lo e melhorá-lo (FREITAG, 1986). Esta proposição de Morin também é apresentada como uma possibilidade de diálogo com o que teria sido concebido como “Agenda 21”, cujas reflexões se davam no sentido de contribuir para um desenvolvimento sustentável, iluminados pela ideia de “Pensar Globalmente e Agir Localmente”, conforme tinha sido forjada por Ulrich Beck (2004). Como isso Morin irá questionar a percepção unidimensional vigente, fruto do processo cognitivo construído a partir do pensamento moderno que não condiz mais a realidade. Daí abre-se espaço para um processo “multidimensional”, onde o conhecimento e a sociedade passam a ser construídos em regime de imbricamento, fusão e simultaneidade sob influências “econômicas, psicológicas, mitológicas, sociológicas, mas que estudamos estas dimensões separadamente, e não umas em relação com as outras” (MORIN, 2003, p. 2). Isso leva a pensar que é preciso passar a migrar a um outro estágio paradigmático, onde seja oportunizada uma visão circular em detrimento da visão linear, presente na ciência normal, conforme é enunciado por Kuhn (2017) na obra “A estrutura das revoluções científicas”. O fato é que, ao considerar essa relação cíclica de um processo que visa retroalimentação entre os espaços, o todo e o individual, automaticamente valorizar-se-á a ideia de unidade na diversidade. Isso faz com que Morin (2003, p. 6) considere que “o tesouro da humanidade é a sua diversidade”. Essa diversidade por sua vez mostra como o reflexo do complexo, do plural e que se origina da “incerteza” (MORIN, 2003, grifo nosso), ao contrário, do que se concebia na modernidade, com a busca pelo universal, fruto de uma razão instrumental e condicionada a uma verdade unívoca.

Na segunda parte, o autor irá aprofundar o debate anterior partindo do questionamento sobre a concepção de especialização. Seu posicionamento é enfático ao observar que mesmo sendo “impossível conhecer tudo do mundo ou captar todas as suas multiformes transformações. […] por mais aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a imbecilidade cognitiva” (MORIN, 2003, p. 12). Ou seja, o conhecimento jamais deverá ser concebido de maneira reducionista e determinista, fechado a um único ponto de vista ou verdade científica. Para que esta assertiva apontada por Edgar Morin seja viabilizada, ele indica é necessário “adquirir a possibilidade de articular e organizar as informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-las e organizá-las, necessita-se de uma reforma de pensamento” (MORIN, 2003, p. 13).

Quanto a terceira parte, é apresentado que o pensamento completo “busca distinguir (mas não separar) e ligar” tendo como objetivo “ao mesmo tempo unir (contextualizar e globalizar) e aceitar o desafio da incerteza” (MORIN, 2003, p. 14-15). Para são lançados princípios basilares para orientar a adesão do conhecimento a teoria da complexidade, respectivamente: 1) Princípio sistêmico ou organizacional; 2) Princípio “hologramático”; 3) Princípio do anel retroativo; 4) Princípio do anel recursivo; 5) Princípio de auto-eco-organização; 6) Princípio dialógico; 7) Princípio da reintrodução daquele que conhece em todo conhecimento. Esses princípios convertidos nos sete saberes fundamentais para embasar o pensamento complexo permitiu a Edgar Morin considerar que este “opera a união da simplicidade e da complexidade” (MORIN, 2003, p. 18), sendo e valendo-se ao mesmo tempo de ser pensado como integrativo, singular e plural, específico e geral, global e local.

Ao que é refletido na quarta parte, Edgar Morin tomou como ponto de partida as influencias que puderam ser derivativas à consolidação do pensamento complexo. A isto são mencionadas influencias ocidentais e orientais indiciárias como Lao Tsé e Heráclito. Mais recentemente, pode ser observado como “alimento para uma concepção da complexidade” (MORIN, 2003, p. 20), a teoria crítica representada por Horkheimer, Adorno e Habermas, chegando a contemporaneidade sob influência de duas grandes revoluções científicas. Considerando as influencias e contribuições de diversas correntes teóricas e filosóficas, o “pensamento completo, é, portanto, essencialmente aquele que trata com a incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir, contratualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o singular, o individual e o concreto. O pensamento completo não se reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas permite a comunicação entre elas, servindo-lhes de ponte” (MORIN, 2003, p. 21).

Buscando entender a quinta parte deste texto capitular, Edgar Morin inicia a sua exposição de maneira enfática ao constatar que a “complexidade exige uma reforma de pensamento” (MORIN, 2003, p. 22). Contudo para se articular uma iniciativa com vistas a uma possível reformulação, se faz necessário articular uma relação com a universidade, que em sua concepção fundante de universidade e contexto científico, a mesma é considerada ao mesmo tempo “conservadora, regeneradora e geradora. Conserva, memoriza, integra, ritualiza um patrimônio cognitivo; regenera-o pelo reexame, atualizando-o, transmitindo-o; gera saber e cultura que entram nessa herança”. Este por sua vez por ser “vital ou estéril” (MORIN, 2003, p. 22). Considerando essa linha tênue sinalizada anteriormente, ressalta-se que a universidade se baseia e fundamenta-se em uma posição “transecular pela qual […] conclama a sociedade a adotar sua mensagem e suas normas” (MORIN, 2003, p. 23). Com isso, fica visível que o contexto de mudança deve acontecer dentro dos limites fronteiriços da academia e pela a sua comunidade científica. Porém, com esta conjuntura, Morin comenta que o desafio é ainda maior, especialmente porque “não se trata somente de modernizar a cultura, trata-se de culturalizar a modernidade” (MORIN, 2003, p. 24).

Por fim, ao que se refere a sexta e última parte, Edgar Morin tece suas considerações constatando que o “século XX impôs vários desafios” fazendo com que “tudo isso exigisse uma reforma do pensamento” (MORIN, 2003, p. 25), capaz de “substituir um pensamento que separa por um […] que une”, permitindo “que o conhecimento da integração das partes num todo seja completada pelo reconhecimento da integração do todo no interior das partes”. Baseado nisso, será possível ventilar uma “reforma […] paradigmática, que diz respeito à nossa atitude em relação à organização do conhecimento” (MORIN, 2003, p. 26). Mas para que isso possa ocorrer se faz necessário anteceder este processo, com a concomitante reforma da instituição e das suas respectivas mentes. Para isso é preciso “que eles se auto eduquem, e se eduquem prestando atenção às gritantes necessidades do século, as quais são encarnadas também pelos estudantes”. Portanto, é possível concluir que a “universidade deve ultrapassar-se para se reencontrar”.

¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra as tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática

LÉVY, P. As Tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2. ed. São Paulo: 34, 2010. (Coleção Trans). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

Apresenta uma cuja a temática se dá em torno das tecnologias da inteligência, tendo como perspectiva teórica a corrente científica ecologia cognitiva.

Propõe em sua obra uma sistematização com vistas a entender o contexto histórico e cultural com a qual as tecnologias da inteligência foram criadas e desenvolvidas, assim como, busca propor saídas epistemológicas e metodológicas para pensar a sociedade pós-moderna a partir da ecologia cognitiva. Para isso, sua perspectiva teórica será construída em três partes, seno elas, “a metáfora do hipertexto”, “a oralidade primária, escrita e a informática”, como os três tempos do espírito; “rumo a uma ecologia cognitiva”.

Inicialmente, percebe-se que a ideia de hipertexto em primeiro lugar não é algo novo e por esse motivo, fica nítido visualizar o como sua concepção foi fundamental para fazer entender o surgimento da informática e consequentemente da internet. De maneira didática é possível observar este cenário a partir dos pensamentos idealizados pelo MEMEX, passando pela proposição da Apple e chegando as redes digitais. Mas o autor também deixa claro que, nada sei possível se desde a antiguidade não tivesse sido valorizado poder da oralidade, da escrita e consequentemente da invenção da imprensa.

Em segundo lugar, a quem pertence ao campo da ciência da informação e especificamente ao da biblioteconomia, o autor irá “costurar” toda a sua obra, falando da importância da Organização da Informação e do Conhecimento, isso fica nítido quando ele busca referenciais baseados em catálogos, classificação e bibliotecas.

Uma terceira questão relevante, é a forma como constrói a ideia de ecologia cognitiva, que sob uma condição pós-moderna pensada por Jean-François Lyotard, é muito aproximativa ao que também é postulado pela teoria da complexidade de Edgar Morin.

Depreende-se que neste mundo líquido concebido por Zygmunt Bauman e de antítese informacional construída através da modernidade tardia indicado por Anthony Giddens , onde, por um lado tem excesso de informação e por outro, ausência de competência para interpretar e lhe dar com estas mesmas, pensar e enquadrar toda uma forma de pensar e agir baseado em unidade na diversidade, valorizando as individualidades com vistas a uma inteligência coletiva é extremamente salutar, contudo, é importante considerar que toda corrente de pensamento não é, nem pode ser considera como completa, universal, até para não cometer o erro buscado pela cartesianismo positivista, que em última instância perdeu valor epistemológico a partir do momento que foi descoberta a teoria da relatividade e a teoria quântica, onde, aquilo que outrora era idealizado como imexível, passou a ser profundamente criticado por uns, refutado por outros ou complementados por novos seguidores.

Coadunado com a teoria crítica, vale lembrar aqui que, não se quer silenciar um em detrimento do outro, mas aproveitar aquilo que é positivo dos “dois mundos”.

Neste sentido, quando as tecnologias da inteligência são vistas e consideradas em todas as suas dimensões, aproveitando as suas potencialidades e limitações à luz da ecologia cognitiva, a quem também poderia ser chamada de ecologia da informação, se torna possível ampliar o horizonte teórico-metodológico e permitir que se chegue a um cenário além do determinismo e do estruturalismo, valorizando e integrando, o indivíduo, as mídias, a cultura e as tecnologias vigentes e vindouras.

É considerando isso que se tem a possibilidade de apresentar a ecologia cognitiva como “o estudo das dimensões técnicas e coletivas” (LÉVY, 2010, p. 139), valorizando a relação sujeito e objeto, assim como os aspectos cognitivos e sociais. Isso lembra em certa medida os paradigmas de Capurro e os postulados de Saracevic, onde as questões pragmáticas, cognitivas, semânticas, sociais e cognitivas são extremamente valorizadas e necessárias no fazer científico, em especial quando que quer entendo o contexto e rumo com a qual a informação está inserida, é produzida, a quem se destina e porque é relevante.

Portando, as tecnologias da inteligência, sob o viés da ecologia cognitiva se apresenta de suma relevância ao contexto cultural, social e informacional, tendo em vista que ela se coloca como uma corrente de pensamento holística, híbrida e pós-moderna, critérios singulares e significantes para fazer entender as demandas e disputas políticas e científicas que são e serão travadas nos mais diversos campos de batalha.

¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra a informação como utopia

SERRA, J. P. A Informação como utopia. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 1998. (Série Estudos em Comunicação). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra escrita por J. P. Serra em 1998, busca refletir a ideia de “informação” como possibilidade e condição “utópica”. Para facilitar a abertura desse debate, o autor se debruça em cinco pilares fundamentais, sendo eles: 1) A Tecnociência da utopia à ideologia; 2) Um novo paradigma da Ciência e da Técnica; 3) Sociedade da informação, ideologia e utopia; 4) A “biblioteca universal” e a partilha do saber; 5) As comunidades virtuais e a partilha do poder.

No primeiro capítulo, cuja a busca é a de refletir “a tecnociência da utopia à ideologia”, o autor levanta algumas questões fundamentais como: a) A “utopia científico-tecnológica”; A “face equívoca da sociedade industrial”; A “tecnologia e a ciência como ‘ideologia’”. Aqui, é possível observar que o lastro central deste capítulo é o modernismo e sua relação o modo de produção industrial alicerçado pela utopia iluminista, pelo pensamento cartesiano e da corrente filosófica positivista. Contudo, a partir do período pós-guerra evidencia-se uma série de transformação sociais, econômicas e culturais que impacta diretamente neste paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010). Crises epistemológicas são instauradas, por ser entendido que o positivismo não consegue mais responder as demandas de uma forma de pensar baseada uma nova necessidade emancipatória. Mesmo não alcançando em sua plenitude esta busca utópica de liberdade, a fase industrial produz um certo sentimento de “bem-estar”, fazendo com que a procura pela “revolução do sistema capitalista torne-se obsoleta e indesejada pelos próprios explorados”, proporcionando espaços de “catástrofe” e “alienação” conforme explica Serra (1998, p. 58; 66). Se por um lado busca-se a liberdade utópico, por outro, fortalece-se o controle e vigilância, seja velada ou explicita. Por fim, é nesta mesma conjuntura que inflasse marcas ideológicas e democráticas, que em sua essência, serão reveladoras de uma ideologia a favor do mercado.

Ao que tange o segundo capítulo, que tem como temática “um novo paradigma da Ciência e da Técnica”, Serra (1998) busca abordar os aspectos inerentes: a) A “diversidade e a complementaridade dos saberes”; b) O “controle democrático da ciência e da tecnologia”; c) O “carácter retórico-argumentativo do saber”; d) A “sociedade da informação e as novas condições discursivas”. Neste, tendo em vista o ocorrera no capítulo anterior, Serra (1998) irá retomar a discussão sobre a crise epistemológica com a qual o modelo de produção industrial e ciência e a tecnologia estão diretamente atrelados. Mostra que uma saída ao cenário instalado de “crise absoluta” (SERRA, 1998, p. 68), pode se dá através do que Lyotard (2011) chama de “pós-modernidade. Esta por sua vez poderá ser potencializada e viabilizada teoricamente por Habermas, ao qual chama de “Teoria da Ação Comunicativa” conforme menciona Serra (1998), pois, o modelo de sociedade emerge das transformações que ocorrem no período da guerra fria e se dá baseado nas tecnologias de informação e comunicação. Ao fazer isso, automaticamente rompe-se com a razão instrumental, presente no positivismo moderno, abrindo espaço para uma razão dialética, muito mais pragmática e semântica, onde o saber possa ser representativo a partir das mais diversas percepções científicas. Depreende-se com este capítulo que há então a busca por um novo iluminismo, agora sob uma condição pós-moderna Lyotard (2011), valorizando um paradigma emergente (SOUSA SANTOS, 2010) e reconhecendo que o atual modelo de sociedade está cada vez mais vinculado a uma modernidade líquida (BAUMAN, 2014) e que se satisfaz mais com um único tipo de conhecimento, dito “universal”. Busca-se agora um saber baseado na complexidade (MORIN, 2015), para de fato permitir a viabilização de uma sociedade da informação concilie os avanços deixados pelo modernismo para consolidação de uma pós-modernidade democrática e sem regulação ideológica.

Ao que se refere o capítulo três, Serra (1998) traz à tona o debate sobre a “sociedade da informação, ideologia e utopia”, centrando o olhar para: a) Do “fim da ideologia a ideologia da informação”; b) Os “poderes político-econômicos e a sociedade da informação”; c) O “novo mundo do Ciberespaço e das Redes”; d) Entre “a ideologia e a utopia”. Vê-se que a ideia de sociedade da informação surge em meio a uma profunda crise epistemológica, como fruto da pós-modernidade e do modelo de produção pós-industrial. É a principal marca para um paradigma dominante (SOUSA SANTOS, 2010) que surge para resolver aos vácuos deixados pelo positivismo universalista, determinista e cartesiano. Observa-se que a partir das críticas lançadas por Habermas em a “Teoria da Ação Comunicativa” frente a Cibernética Wiener e da Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver, conforme explica (SERRA, 1998), abre-se espaço para idealizar uma sociedade pautada na transparência, democracia e dinamicamente sendo promovida por uma “ideologia da informação”, conforme indica (SERRA, 1998). Não é à toa que “o conhecimento e a informação tornam-se o verdadeiro motor da sociedade ‘pós-industrial […]”, fazendo dos “[…] cientistas as figuras centrais” (SERRA, 1998, p. 97-98). Mesmo em um contexto novo, a ciência nova (MORIN, ano) assume papéis antigos, no sentido de continuar se apresentando como sujeitos preponderantes frente às tecnologias de informação e comunicação e a ser serviço do poder. Com isso o “novo” com práticas “velhas” limitam a ideologia da informação de “uma sociedade mais equilibrada e igualitária”, conforme sonhava Serra (1998) em sua “informação como utopia”. Em meio aos múltiplos cenários de disputas pelo poder político face ao avanço fica cada vez mais difícil alcançar o estágio de sociedade da informação com o qual preconizada Serra (1998), que é era de “ser uma sociedade construída por todos […] e para todos, sem indivíduos ou grupos info-excluídos, garantindo a todos o acesso à info-alfabetização e à info-competência”, e assim, seria possível consolidar o surgimento de espaços virtuais construídos a partir de uma rede integradora de transformação humana.

Para o capítulo quatro, Serra (1998) analisa a ideia de uma “biblioteca universal e a partilha do saber”, focando os desdobramentos que ocorrem da: a) A “biblioteca virtual e a universalização do saber”; b) Uma “nova forma de aprender e ensinar”; c) As “novas condições de partilha do saber”. Parte-se da compreensão de uma biblioteca (ambiente) que é produto da rede e com a finalidade de contribuir para democratização e compartilhamento do saber. Isso se dá por considerar que historicamente o acesso ao conhecimento sempre foi disponibilizado a uma pequena massa populacional. Em um primeiro momento, aos nobres e ao clero, em outros a burguesia industrial, agora, aos representantes dos grandes conglomerados. Não é à toa que o jargão “informação é poder”, sempre fez parte, em maior ou menor escala dos mais diversos modos de produção, mas que atualmente tem se intensificado e aprofundado progressivamente em virtude das tecnologias de informação e comunicação. Segundo Serra (1998), “é certo que que ampliou poderosamente as oportunidades de acesso ao saber […] no entanto, limitações novas” têm surgido para, de alguma forma limitar o acesso ao conhecimento, ao menos da população mais empobrecida. Isso porque ao pensar um espaço “universal” em ambiente digital, deve-se considerar que todas as línguas, etnias, registros orais, formas de escrita, tipos de materiais, além de iniciativas de ações com vistas a info-inclusão por meio da info-alfabetização e info-competência digital sejam priorizadas. Assim, entende-se que, só existirá de fato a ideia de compartilhamento de um saber e uma biblioteca “universal” igualitária, caso exista políticas públicas de convívio com um ciberespaço considerando uma “aprendizagem permanente, aprendizagem auto-dirigida, aprender a aprender, aprendizagem contextualizada, aprendizagem adaptada às necessidades do aprendiz, aprendizagem transformadora, aprendizagem cooperativa e aprendizagem em tempo real […]”, conforme explica Barbara Lepani nas palavras de (SERRA, 1998, p. 130), caso contrário, “a informação pode produzir exatamente o contrário daquilo que se pretende: em vez de saber e conhecimento, ignorância e desconhecimento” (SERRA, 1998, p. 133), especialmente em países em situação de vulnerabilidade social, que não oportunizam a “garantia da diversidade linguística e cultural no seu seio” (SERRA, 1998, p. 144) e consequentemente da sua memória coletiva.

Ao que tange o capítulo cinco, Serra (1998) valoriza a reflexão a partir das “comunidades virtuais e a partilha do poder”. Nesta ele constrói um diálogo trazendo ao centro das discussões questões como: a) As “comunidades virtuais e a interação”; b) As “comunidades virtuais e a ação política”; c) O “Ciberespaço como espaço de controle”. Percebe-se que o autor irá fazer uma cuidadosa discussão no campo das comunidades virtuais. A partir da análise do autor, entende-se que é importante ter a percepção crítica e não romantizada quanto estes espaços que por sua vez, por um lado podem contribuir para o processo de comunicação e consequentemente de interação social a partir da rede, mas requerer um certo cuidado e precisará ser vista com uma certa cautela conjuntural, para que não se cristalize a ideia de um ambiente revolucionário de uma transformação cultural irrevogável e irretocável. Dito isso, as comunidades virtuais não podem ser vistas por um prisma “ingenuamente utópico” (SERRA, p. 148). A cautela sugerida pelo autor, ocorre tendo em vista que é preciso pensar as comunidades virtuais atreladas, complementares, ou seja, dialogando permanentemente às comunidades ditas reais para não incorrer no risco destas primeiras contribuírem “para isolar ainda mais os indivíduos em relação às comunidades” tradicionais “a que pertencem” (SERRA, 1998, p. 151). Este cenário se aproxima do Canclini (2015) chama de hibridismo cultural, possibilitando um imbricamento contínuo, cujo Serra (1998, p. 154) chamara de “fusão entre as comunidades reais e as comunidades virtuais”. Porém é preciso ter cuidado para que ideia primária de libertação e emancipação não caia na armadilha retórica da ideologia por afinidade de natureza, social, étnica ou outra. Em grande parte, as comunidades virtuais têm se mostrado como espaços exclusivamente ideológicos, construindo e configurando bolhas ou bolsões limitadores de interação social. Daí informação produzida nesses espaços virtuais com potenciais emancipatórios, estarão na prática se transformando em ferramentas para vigiar e punir, conforme trata Serra (1998) ao mencionar Michel Foucault. A exemplo disso está a intolerância cibernética. Em certa medida, vê-se que as comunidades virtuais excedem o propósito, se transformando em espaços de poder em detrimento da busca e compartilhamento do saber. Cria-se então as “sociedades de controle” que incorrem diretamente na “comunicação instantânea” (SERRA, 1998, p. 165), influindo profundamente na relação público e privado, o qual Serra (1998, p. 168) chama de “tensão”. Esvai-se aí a premissa de emancipação e uma razão dialética onde a informação deve servir a todos, sem distinção, consequentemente a informação enquanto objeto libertário e transformador, continuará sendo uma simples e mera utopia pós-moderna.

Portanto, conclui-se que de fato a informação é uma utopia e que a mesma está distante de ser um produto promotor da “igualdade, liberdade e fraternidade”, conforme era pensado com revolução francesa e que vem sendo constantemente perseguido pelo de Serra (1998) chama de novo iluminismo. É bem verdade que, a informação, deve ser concebida como um objeto estratégico de transformação, emancipação e inclusão da humanidade, reconhecendo-a inclusive como direito fundamental do cidadão. Ter acesso a informação é uma questão de cidadania e de competitividade mercadológica. Quando o Estado propõe ao cidadão o direito à informação atrelado do processo de info-inclusão, info-alfabetização e info-competência, de fato está se garantindo que se tenha uma população economicamente integrada as comunidades de inteligência que tem surgido por meio das tecnologias de informação e comunicação, até porque segundo Serra (1998, p. 170), a “sociedade da informação é uma invenção das grandes empresas transnacionais e dos governos que elas controlam de forma crescente”, especialmente aqueles que se dão por meio dos países desenvolvidos.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra o que é pós-moderno

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Coleção Primeiros Passos, 165). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A obra escrita por Jair Ferreira dos Santos tem a sua primeira edição escrita em 1986. Quanto a esta atual edição, a mesma foi dividida em sete seções capitulares abordados sob definições peculiarmente metafóricas, considerando as seguintes questões: 1) Vem comigo que no caminho eu explico; 2) Do boom ao bit ao blip; 3) Do sacrossanto não ao zero patafísico; 4) Anarquistas em nuliverso; 5) Adeus às ilusões; 6) A massa fria com narciso no trono; 7) Demônio terminal e anjo anunciador.

A primeira seção capitular irá considerar como relevantes os seguintes aspectos: a) Caçando o fantasma; b) Bye, bye, real; c) Breve babado teórico; d) O pós contém um des. O autor considerou aqui, que o pós-modernismo como um fantasma ao moderno. Depreende-se que provavelmente esta observação se dê por perceber que a ideia de pós-modernidade tenha surgido para em virtude de uma possível crise epistemológica e cultural causada pela modernidade, o positivismo e o capitalismo industrial, por não conseguirem mais responder as demandas lançadas pela sociedade. Nesse sentido o autor considerou que o “pós-modernismo é um nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950” (SANTOS, 1988, p. 7). Coincidentemente, é esta época é denominada de revolução técnica, científica e informacional, onde os princípios fundamentais do capitalismo neoliberal são aprofundados através das tecnologias de informação e comunicação, tendo como horizonte fim a sociedade de consumo e a indústria cultural. Assim, “o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida […] na ausência de valores e de sentido para a vida […]”, entregando-se ao “consumo e ao individualismo exacerbado” (SANTOS, 1988, p. 8; 18). Percebendo este cenário, torna-se essência do modernismo “apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência”. Gera-se deste modo uma sociedade baseada no “espetáculo” e na “simulação” (SANTOS, 1988, p. 12-13). Entretanto, o autor chama a atenção para que, se existe um fenômeno que cause transformações na sociedade, independentemente dos avanços tecnológicos, esta é a linguagem, e ela como aspecto constituinte do indivíduo, ou seja, do homem. É através da linguagem que se “[…] dá forma tanto ao nosso mundo […], quanto ao nosso pensamento […]”. A passo que não se observa esses fatores, a pós-modernidade se tornará “frágil, sua identidade, evanesce” (SANTOS, 1988, p. 15). É preciso visualizar a pós-modernidade como produto de transformação e hibridismo de uma linguagem potencializada por repertório de signos que representam e influenciam o contexto com o qual as transformações estão ocorrendo pelo e com o homem. Portanto, o pós-modernismo é algo “inacabado, sem definição precisa, […]” que para “dor dos corações dogmáticos, […] por enquanto flutua no indecidível” (SANTOS, 1988, p. 19).

O segundo capítulo abordará olhares a partir dos aspectos: a) Apocalipse, Uau!; b) A dama de ferro; c) Rede pensante, gandaia global; d) Cá na Belíndia. O pós-modernismo, simbolicamente parte da explosão atômica ocorrida no Japão da II Guerra Mundial (1945) e historicamente a partir de 1950, onde, concretamente a “imagem da civilização moderna industrial, assentada na produção e na máquina, iria se modificar desde os anos 50, ao rumar para sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e a informação” (SANTOS, 1988, p. 23). A tecnociência passa a dar o tom das discussões, passando a influenciar a vida das pessoas, e é em virtude disso que o “ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica […]” e outros, promovendo uma desmaterialização e uma pulverização do mundo (SANTOS, 1988). Nesse contexto, o “indivíduo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos”. O indivíduo torna-se influenciável a “um show constante de estímulos desconexos onde as vedetes são o design, a moda, a publicidade, os meios de comunicação” gerando “circuito informação-estetização-erotização-personalização do cotidiano […]”. Assim, na pós-modernidade “só há revolução no cotidiano” (SANTOS, 1988, p. 27-29). Tudo se torna flexível, fazendo inclusive com que o signo pós-moderno favoreça o debate de temas que antes eram silenciados como o da sexualidade.

Ao terceiro capítulo, o autor realizou a sua análise pontuando questões face as questões de: a) Merda aos museus, abaixo o luar; b) O alegre desbundar; c) Escrituras exóticas, escribas excêntricos; d) Tô in, tô out. Aqui, abre-se o debate considerando uma modernidade em crise, que não consegue mais responder as demandas lançadas pela sociedade pós 1950. Terá como elemento motivador a arte, que com o pós-modernismo surge como arte pop, também vista como antiarte tendo como fator diferenciador do que já vinha sendo historicamente pela cultura modernista o fato de ser “lançada nas ruas com outras linguagens (sic), assimilável pelo público: os signos e objetos de massa”, com isso a antiarte passa a ser vista como a “desestetização e a desdefinição da arte” (SANTOS, 1988, p. 36-37). Ou seja, é claro movimento de ruptura ao que que preconcebido ao entendimento que se tinha de arte. Esta nova forma de fazer arte, se apresenta em espaços que antes eram inimagináveis. Daí a antiarte irá trabalhar “sobre a arte dos ilustradores de revistas, publicitários e designers, e acaba sendo uma ponte entre a arte culta e a arte de massa; pela singularização do banal”. Com isso “Elite e massa se fundem na antiarte” (SANTOS, 1988, p. 37). Consolida-se nesse contexto um cenário ideal à indústria cultural, ao promover a arte de maneira articulada a dinâmica da sociedade de consumo. A arte rompe as barreiras dos museus, pinacotecas, bibliotecas, teatros. Ela agora se apresenta de forma “sorrateira” a partir da televisão, do rádio, etc. mostrando-se como uma invenção participativa, pois segundo Santos (1988), o público reage se envolvendo de maneira sensorial e corporal. Influenciada por esta forma artística da pós-modernidade, a literatura busca caminhar nessa mesma perspectiva, tendenciando a valorizar “o pastiche, a paródia, o uso de formas gastas […] e de massa”. Vê-se um anacronismo profundo entre os fundamentos modernos e pós-modernos, tendo em vista a sua singularização.

Seguindo o debate em torno dos princípios que fundamentam a pós-modernidade, o quarto capítulo abordará olhares a partir de aspectos como: a) Desordem e Pangresso; b) Pau de Bauhaus; c) Pintando/esculpindo o sete no pedaço; d) O real vira hiper-real; e) Menos é mais; f) Pensar, espectador, pensar; g) Ambientes: assim na terra como no céu; h) Anarquistas no agito – happenings, processos, performances; i) Novos bichos – a geração 80; j) O bode entrópico; k) Absurdetes americanas ou “Foda-se o Dia das Mães”; l) Cerebráticos franceses ou o romance morto pela masturbação; m) Back to Belíndia; n) No som, no corpo, na cena, no cinema; o) Bit balanço. Neste momento o autor da obra dará continuidade as reflexões em torno do pós-modernismo ainda tomando por base a ideia de antiarte. Agora, a antiarte será formalizada como algo que “não apresenta propostas definidas, nem coerência, nem linha evolutiva”. Isso fará o leitor depreender que está se propondo onde a arte pós-moderna é concebida como uma manifestação “Desestetizada, desdefinida, desmaterializada, […]” (SANTOS, 1988, p. 43; 52). Partindo desse princípio tudo pode ser arte e ela pode estar em qualquer lugar. Assim, segundo Santos (1988, p. 52), ela “utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para desencadear um acontecimento criativo”. Influenciados por estes princípios, diversas outras manifestações de arte alinham-se ao que se propondo o pensamento pós-moderno. Na literatura, abre-se espaço para ser “marginal, diluidora, anticultural […]”. São textos “espontâneos, mal-acabados, irônicos, em linguagem coloquial, que falam do mundo imediato […]. Na música, ele assume formas diversas. […] a dança […] põe no tablado até mesmo o grotesco, a feiúra […]. no teatro, as experiências mais chocantes começam com o Living Theater […]. não tem texto nem enredo, só corpos a imitar no palco fenômenos […]. No cinema, […] com altos efeitos especiais, corre solta a nostalgia acoplada à ficção científica. Reina o ecletismo […] e o pastiche” (SANTOS, 1988, p. 65-69). Portanto, a arte pós-moderna “Abala preconceitos, põe abaixo o muro entre arte culta e de massa, rompe as bandeiras entre os gêneros, […]”. Sugere-se então, algo totalmente desregulado onde o próprio mercado, representado aqui pela indústria cultural e o indivíduo sejam os filtros frente a esta fértil desordem de múltiplos estilos.

O quinto capítulo observará os seguintes aspectos: a) O fliperama do nada; b) Viver não é sobreviver ou o profeta de Walk-man; c) Abaixo o Ocidente; d) Marx & Freud Ilimitada. O autor abrirá o debate considerando que o período pós-moderno tem contribuído para desconstruir o discurso da modernidade. Não no sentido destruir, mas percebendo a possibilidade de revisão, crítica e/ou evolução à crise gerada pelo positivismo do período industrial. Esta crise, de caráter cultural, se pensada a sociedade e epistemológica, se considerada a ciência, abre uma fissura sem precedentes ao em seguida seria considera revolução técnica, científica e informacional. Nesse entremeio a consolidação da pós-modernidade, existia um cenário de descredito ou dúvida a que caminho a sociedade pós-guerra iria rumar, dadas as consequências dos conflitos entre as nações. Havia niilismo que exacerbado que fazia com as pessoas vivenciassem um anacronismo crônico, tendo em vista o que se vinham preconizando para a sociedade da época, mesmo percebendo que o capitalismo neoliberal se fortalecia, se consolidava a corrida aeroespacial e as transnacionais rompiam os muros imaginários de suas bases. Parece que tudo estava fora do lugar. O modelo de produção capitalista ou mesmo os resquícios do socialismo stalinista que se apresentavam, não respondia mais as demandas da sociedade. Em virtude dessa “falta de valores para agir, descrença em um sentido para existência” (SANTOS, 1988, p. 72), a pós-modernidade se apresenta. No entanto, os valores e princípios propostos pela pós-modernidade, em certa medida não concretiza, inclusive de “novo iluminismo” (SERRA, 1998). Na verdade, o que se tem de concreto é o fato da “tecnociência invadir o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista” (SANTOS, 1988, p. 73). Com “decadência acelerada” da modernidade industrial, chega-se a inferir que de alguma forma “a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida”, que de repente pudesse propor novas práticas culturais no contexto de uma indústria cultural que se fortalecia cotidianamente. Do ponto de vista da ciência, buscava-se um novo logos (SANTOS, 1988), uma nova razão para que se pudesse rever práticas ainda hegemônicas oriundas do positivismo. Nessa mesma linha de pensamento, Santos (1988) expressa a partir do Lyotard, que influenciado por Marx e Freud, conclui em “A Condição Pós-Moderna” que esta fase da história não está mais preocupada com a verdade, mas sim com a melhor performance, o melhor resultado.

Ao que tange o sexto capítulo é possível observar os seguintes aspectos: a) Clip-extravagância; b) A massa não é mais aquela; c) O vazio cintilante; d) Eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim. Aqui, o autor irá tocar em temas muito sensíveis e delicados ao contexto da pós-modernidade. Em primeira instância a obra tenta entender a forma como a sociedade de consumo se organiza. É possível compreender que é por meio da ideia de uma competividade construída sob o lastro de um individualismo narcisista que o consumismo se fortalece. Não se pode esquecer de mencionar que este modelo se torna ainda mais forte quando alia o poder da indústria cultural e a falta impressão estar bem informado pelos meios de comunicação de massa. Este cenário aliado a um Estado condescendente, ao sistema neoliberal, permite que a população tenha sua vida social programada nos seus menores detalhes (SANTOS, 1988). Se por um lado, os princípios indiciários da pós-modernidade buscavam questionar o sistema com vistas uma democracia ativa e uma emancipação cidadã, por outro, o próprio indivíduo pós-moderno é tragado por um jogo personalizado de bens e serviços tornando-se um instrumento manipulável. Este cenário contribui para haja um descolamento da sociedade frente ao seria direito coletivo, fazendo com o olhar narcisista contribua para uma desmobilização popular em relação as grandes pautas. Com isso, Santos (1988) observa que o “individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas”. Isto é aprofundado com a deserção social dos espaços de participação, sejam elas na família, política ou conforme explica Santos (1988). Com o apelo provocado pela mídia de massa, tem-se um ambiente aprofundado, provocando e promovendo um processo de espetacularização, seja qual for o espaço, tradicional ou virtual. Nesse jogo da midiático, a “espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes”. Cria-se assim, uma hiper-realidade, conforme explica (SANTOS, 1988, p. 96), sempre com vistas a sedução, ao encantamento artificial (SANTOS, 1988). Com a pós-modernidade produziu um cidadão “confuso, indefinido, plural, feito de retalhos que não se fundem num todo” (SANTOS, 1988, p. 104).

No caso do sétimo e último capítulo, Jair Ferreira dos Santos irá apresentar informações em torno do seguinte aspecto: a) e, e, e, e, e, e, e. Nesse momento, o autor tenta emitir um desfecho ao que vinha sendo apresentado e refletido como pós-modernidade. Aqui, Santos (1988, p. 106) observa que neste cenário se tem “o cotidiano povoado pela tecnociência […] em bens e serviços para o indivíduo consumir […] onde é importante o papel dos modelos gerados pela publicidade e os mass media”. Vê-se claramente que o modelo pós-industrial impulsionado pela revolução técnica, científica e informacional, levanta como prioridade básica para sua razão de existir, a sociedade de consumo e a indústria cultural. Tudo irá passar por esses dois marcos “desenvolvimentistas”, inclusive a forma de governar e fazer política, seja, em micro ou macroestruturas. Estes fatos fazem com que o niilismo cultural continue presente, ocasionando “desencanto, desordem, descrença, deserto” (SANTOS, 1988, p. 108). Dessa forma, abre-se margem para ausência de controle social e democracia ativa, permitindo que a “tecnociência, inclusive com seus meios poderosos de simulação, estejam alterando as formas humanas de pensamento, percepção, tempo e espaço” (SANTOS, 1988, p. 109-110). Com as memórias coletivas são esfaceladas, a aldeia global fica “sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade” é tudo e é nada ao mesmo tempo, de uma herança mal construída, onde a modernidade ficou líquida (BAUMAN, 2014), sem nada para se amparar.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra a teoria crítica: ontem e hoje

FREITAG, Barbara. A Teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 2004. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra retrata os aspectos históricos, teóricos e metodológicos com os quais a Teoria Crítica fora criada. Observa ainda que seu olhar investigativo se debruça por um lado, valorizando em certa medida o Materialismo Dialético Histórico e por outro refutando a forma como era empregado e a quem servia e se destinava o Positivismo.

O livro escrito por Barbara Freitag, reimpresso em 2004, estruturalmente traz um recorte orientado às três primeiras seções, respectivamente, a introdução, o histórico da Escola de Frankfurt e o conteúdo programático da teoria crítica.

Na introdução, a autora constrói as bases iniciais para uma gênese que articula o objeto da Teoria Crítica a partir uma conjuntura de profundas transformações históricas, políticas, culturais científicas.

Em seguida, ao considerar o histórico da Escola de Frankfurt, traz ao centro do debate os aspectos inerentes a “criação do Institut fuer Sozialforschung (1922-1932)”, o “período da emigração para os Estados Unidos (1933-1950)”, a reconstrução do Institut fuer Sozialforschung em Frankfurt (1950-1970)” e o “renascimento e a superação da teoria crítica”.

Com a criação do Institut fuer Sozialforschung, Freitag (2004, p. 14), se observa que a “grande preocupação de Horkheimer nesses primeiros anos de existência e funcionamento do Instituto” era de elaborar “o esboço de uma teoria materialista, social-psicológica dos processos históricos societários” (SCHMIDT, 1980, p. 27 apud FREITAG, 2004, p. 14). Via-se uma busca por uma teoria que fosse capaz de ir além de um pensamento unidimensional e geral pautado pelo positivismo de Auguste Comte e posteriormente, fortalecido por Karl Popper. Desta forma, Horkheimer “imaginava reorientar a reflexão filosófica da época, partindo de um patamar abstrato para um nível mais concreto que não se confundir-se, no entanto, com o puro ativismo da luta partidária”, assim como é revelado por (FREITAG, 2004, p. 15).

Contudo, a fase de criação sofreu profundos impactos a partir da política totalitária nazista Alemã entre o período Entreguerras e o pós-guerra, também conhecido como guerra fria. Neste sentido, para que o Instituto continue funcionando, seria necessário iniciar um processo de emigração, que ocorre através dos Estados Unidos. Mesmo com a mudança, o Instituto continuaria sendo financiado com recursos privados advindos da Argentina. Foi nesta fase que Horkheimer e Adorno escreveram a obra “A Dialética do Esclarecimento em 1947”, mas também foi neste mesmo período que intelectuais como Walter Benjamin e Maurice Halbwachs perderam a vida pelas mesmas razões com as quais houve a mudança geográfica do Instituto, ou seja, o nazismo. Nesta fase, também são revistos alguns posicionamentos teóricos, dentre eles, o abandono aos paradigmas do materialismo histórico e a desconstrução da ideia de “razão” estabelecido por Kant. Este será um “divisor de águas” à Teoria Crítica, que nesse entremeio o Instituto retorna à Alemanha para iniciar o seu processo de reconstrução, inclusive retomando o seu indiciário ao que era denominado de Escola de Frankfurt. A escola se defronta com novos desafios, por um lado, dispor de um número reduzido de pesquisadores, por outro, de responder a novas demandas e reflexões investigativas como a “questão do autoritarismo e do antissemitismo” (FREITAG, 2004, p. 23). Nesse mesmo período eclodem em grandes universidades um “novo potencial político de uma geração estudantil não conformista” (FREITAG, 2004, p. 23). Este cenário tem como epicentro, maio na “Paris 1968” conforme é relatado por (MATOS, 1998) e que inclusive vai de encontro ao Instituto em Frankfurt fazendo com que Adorno chamasse a polícia no momento em que os estudantes ameaçaram invadir. Segundo a autora, os estudantes “defendiam a transformação radical da sociedade capitalista […] tomando como ponto de partida a democratização da própria universidade” (FREITAG, 2004, p. 24).

Por meio desse contexto e no entendimento da autora, “isso gerou desilusão e incompreensão de ambas as partes” (FREITAG, 2004) que mais tarde, “acalmados os ânimos”, simbolicamente é iniciado o processo de renascimento e a superação da Teoria Crítica, que para Freitag (2002, p. 27), “se distinguem em duas tendências: uma, representada por Tiedemann e A. Schmidt, que consiste em preservar o pensamento de Benjamin, Horkheimer, Adorno e em parte Marcuse […] e outra, seguida por Habermas, Wellmer, Buerger e outros, que consiste em prosseguir de modo original e criador o pensamento dos mestres, não hesitando em criticá-lo e superá-los”. Considerando estes últimos aspectos, Habermas ao criar a Teoria da Ação Comunicativa, eleva-se a condição de “o pensador mais produtivo de uma nova versão da teoria crítica daquele (sic) momento” (FREITAG, 2002, p. 28-29). Contudo, o “renascimento da teoria crítica não é devido exclusivamente aos trabalhos de A. Schmidt, R. Tiedemann e J. Habermas. Há toda uma geração de jovens […] que têm usado a teorização dos frankfurtianos para novas reflexões e buscas de apropriação ou superação de seu pensamento, conforme explicou (FREITAG, 2002, p. 29).

Na sequência a autora explorou os princípios que fortalecem, consolidam e diferenciam a Teoria Crítica de outras correntes de pensamento, especialmente do Positivismo. Isso é viabilizado ao passo que são tecidas as teias de articulação do conteúdo programático da Crítica enquanto fundamento diferencial desta Teoria que sugere um Novo Paradigma ao campo da ciência, especialmente por provocar um outro olhar ao que é estabelecido como “razão”. A reflexão privilegiou a “dialética da razão e a crítica da ciência”. Estas estão divididas em três momentos fundamentais. Ao que tange o primeiro momento, se deu para fazer uma contraposição entre a teoria tradicional (cartesianismo) e a teoria crítica (marxismo). Sugere-se que seja denunciado a exclusividade do “caráter sistêmico e conservador do primeiro” em relação ao segundo, que busca “enfaticamente a dimensão humanística, emancipatória” (FREITAG, 2002, p. 37). Na prática, ao “confrontar o pensamento de Descartes e Marx, Horkheimer não está querendo invalidar um em favor do outro”, ele esclarece que busca “englobar o primeiro no segundo” (FREITAG, 2002, p. 37). A Teoria Crítica sempre partirá de algo que já foi construído, elaborado. Assim, a “teoria crítica começa, pois, com uma ideia relativamente geral […] (FREITAG, 2002, p. 39). Mesmo considerando estes aspectos como complementares, Horkheimer faz uma avaliação crítica em torno dos “equívocos” da própria teoria marxista e chega as seguintes questões, conforme são expressados por Freitag (2002, p. 40), “1) a tese da proletarização progressiva da classe operária; 2) a tese das crises cíclicas do capitalismo; 3) a esperança de Marx de que a justiça poderia se realizar simultaneamente com a liberdade revelou-se ilusória”, mas “apesar da renúncia a certas teses do materialismo histórico, Horkheimer sustenta a necessidade da sobrevivência da teoria crítica. Ela deve visar [..] uma humanidade emancipada”. Ao que se refere ao segundo momento, a questão se dá no embate ente Popper e Adorno, onde primeiro defendia o positivismo (derivado do cartesianismo) e o segundo a dialética (derivado da teoria crítica). Com isso, instaura-se um impasse que não favorece o dialogo conforme buscava Horkheimer no momento anterior. Se para Popper o “sujeito do conhecimento não se envolve com seu objeto, e deve respeitar (sic) o princípio da neutralidade das ciências, constatando ‘o que é’ e silenciando, enquanto cientista, face ao que poderia ou deveria ser” e que consequentemente os “juízos de valor não fazem parte do arcabouço científico do pesquisador” (FREITAG, 2002, p. 45), para Adorno o processo deve ser encarado de maneira diferente, ou seja, é preciso que “a sociologia seja concebida como dialética e crítica” e que ela não possa “deixar de guiar-se pela perspectiva do todo, ainda quando estuda um objeto particular, vendo esse todo não como sistema estabelecido, mas como produto histórico do passado e como aspiração de realização no futuro” (FREITAG, 2002, p. 47). Daí surge a obra Dialética Negativa, escrita por Adorno em 1970, que “consistiria no esforço permanente de evitar as falsas sínteses, de desconfiar de toda e qualquer proposta definitiva para solução de problemas, de rejeição de toda visão sistêmica, totalizante da sociedade” (FREITAG, 2002, p. 48), assim como estabelecia de forma contrária o positivismo de sugerido por Popper. Quanto ao que remete o terceiro momento, será considerado o embate entre Habermas e Luhmann. Habermas ao propor uma teoria da sociedade, se aproximará da Teoria Crítica, entretanto, quando Luhmann sugere uma teoria sistêmica, automaticamente dialogará com o Positivismo. Dessa forma, Habermas buscou “elaborar uma ‘nova’ teoria da sociedade como alternativa à teoria sistêmica, representada por Luhmann” (FREITAG, 2002, p. 53). Nesse contexto, “Habermas critica Luhmann, mostrando e confirmando que a incompatibilidade entre as duas formas sistêmicas, e ressalta a dificuldade de utilizar de forma produtiva o conceitual cibernético para sistemas socioculturais (sic) ” (FREITAG, 2002, p. 54). Essas divergências também avançam em outros cenários, que “em última instância”, ocorre “em torno da concepção e do surgimento de significados”. Tomando por base esta concepção, Habermas se mostra “convencido de que o conceito de sistema e o de informação são incompatíveis com uma análise efetiva dos fenômenos sociais”. Ao considerar as facetas deste embate teórico-filosófico, Habermas responderá a Luhmann em definitivo através da Teoria da Ação Comunicativa, onde a ideia central de é a de “elaborar um novo conceito de racionalidade comunicativa, propondo um novo paradigma para a discussão sociológica”, incluindo inclusive “um novo conceito de razão […]. A razão comunicativa […]”. O diferencial da razão comunicativa é ela “no ponto de intersecção de três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e o mundo subjetivo dos afetos” (FREITAG, 2002, p. 59-61). Portanto, a Teoria da Ação Comunicativa “permite reconstruir os processos evolutivos das sociedades do passado ao presente, na medida em que fornece um conceitual que permite dar conta da complexidade e da contradição inerente a nossas modernas sociedades” (FREITAG, 2002, p. 63).

Ao buscar fechar o pensamento em relação ao recorte da obra “A Teoria crítica: ontem e hoje” escrito por Barbara Freitag, é possível considerar que apesar da Escola de Frankfurt e através dela, da Teoria Crítica ao longo da história tem vivenciado constantes mutações, seja pelas mudanças em virtude totalitarismo alemão, pela perda de importantes teóricos, pela necessidade adaptação, avaliação ou autocrítica ou pela sua mudança paradigmática, o importante é que ela não apenas sobreviveu, mas fez ecoar suas reflexões e debates acadêmicos pelas mais diversas partes do mundo, influenciando variadas universidades e cientistas que buscam cotidianamente entender a complexidade da sociedade a partir de métodos ou abordagens capazes de provocar no pesquisador o sentimento contínuo pelo entendimento do todo, em todas as dimensões, sempre considerando que não existe verdade incondicional e que tudo na relação sujeito e objeto precisa ser considerado e respeitado em todas as suas particularidades, sejam elas históricas, culturais, sociais, econômicas ou informacionais.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra Paris 1968: as barricadas do desejo

MATOS, O. C. F. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo, 1998. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

 

Neste livro, Matos (1998), irá considerar 6 (seis) aspectos estruturais para basilar a sua escrita histórico-sociológica, conforme temos: a) Maio de 1968: poesia e revolução; b) Pour une planète plus bleue (slogan do movimento); c) Uma internacional estudantil; d) Os antecedentes; e) A primavera do assalto ao céu; f) Maio: revolta ou revolução. A Obra por Olgaria C. F. Matos escrita por se dá tentando analisar os fatos e contexto com as quais foram inseridas as manifestações ocorreram mundialmente a partir do movimento “Paris 1968”.

Sinteticamente a obra nos conduz a perceber que, havia uma insatisfação estudantil, especialmente, universitária quando a garantia de direitos oferecidos a sociedade. Observava-se que essa insatisfação se fortalecia por ter evidenciado um cenário onde os representantes populares, sejam eles comunistas, socialistas e/ou capitalistas não conseguiam mais visualizar as reais demandas da população francesa, fazendo com que surgisse uma fissura social e política que sedimentaria o ambiente propício que se fossem lançadas dúvidas, questionamentos e manifestações. O berço dos estopins são as universidades, dentre elas, está a tradicional Sorbonne e aqueles que a representavam. Reconhecida como um símbolo estratégico para cultura francesa, segundo os estudantes, esta já não falava mais a língua deles, tão pouco atendia os anseios dos universitários, seja na própria instituição ou fora dela, quando os mesmos eram colocados a prova no mercado de trabalho.

Em virtude de os jovens universitários não vislumbrarem perspectiva de mudança, seja para atender as reformas estruturantes necessárias ou pelas mudanças culturais quanto às liberdades de expressão, a classe estudantil inicia um processo de alargamento do debate político baseado nas demandas sociais que o governo não conseguia ou não queria visualizar.

Esse inquietamento educacional, é antagonicamente construído em um contexto de relativa satisfação econômica e social, e que por esse motivo assustou a comunidade representativa partidária, tenha ela um viés ideológico direcionado à direita ou a esquerda. Dois outros aspectos relevantes e que normalmente estão diretamente relacionados são adicionados a esta realidade, mas que não foi a situação referencial à primavera francesa. Em primeiro lugar, trata que este momento não é essencialmente um processo fruto da luta de classes, condição singular ao processo de disputa pela garantia de direitos, historicamente tratado e evidenciado nas disputas na relação entre burguesia e proletariado. A segunda, que deriva da anterior, trata da não participação e envolvimento dos trabalhadores e dos partidos de esquerda no âmbito da luta estudantil, salvas as iniciativas excepcionais dos jovens trabalhadores que entenderam a importância da luta pela garantia de direitos em torno de temas que para muitos não eram considerados relevantes, e consequentemente silenciados pelo governo aos olhos da grande massa populacional e que em certa medida precisava ser descortinado pela juventude universitária e que a partir dela, estas pautas em maior ou menor proporção começam a ser aceitas e implantadas por diversos grupos estudantis em países da Europa, América do Norte e América do Sul. Temas como sexualidade e liberdade de expressão, antes relegados a marginalidade, começam a fazer parte da agenda de discussão social.

Apesar da luta travada na primavera Parisiense, o movimento era essencialmente ideológico, revelando uma mobilização horizontal, espontânea e orgânica, basilada em maior ou menor escala no Materialismo Histórico Dialético. Mesmo assim, o Maio de 1968, a partir da França, conseguiu revelar diversas lideranças políticas que emergiram a partir da “queda dos muros universitários”, dentre eles está o Franco-Alemão Daniel Cohn Bendit, atualmente deputado europeu e que mesmo sendo um refugiado alemão por sua condição judia, fez frente ao regime vigente. Este fato por sua vez, o fez retornar a Alemanha ainda no período da guerra fria.

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Atrelado ao que pensada o movimento estudantil, um dos fatores positivos que se percebeu foi a forma como as informações produzidas eram comunicadas, os grafites e os muros se revelaram como tecnologias diferenciais e significantes para apresentar as intenções do movimento e canalizar os seus discursos. Isso possibilitaria além de emitir juízo de valor aos pensamentos dos manifestantes, possibilitou tornar as suas intenções mais próximas da sociedade. Negativamente, um aspecto de desestabilização percebido é que não se tinha uma estrutura hierárquica e tática para articular melhor as formas de contrapor-se ao Poder legitimado, especialmente porque em meio as batalhas, piquetes e barricadas, o setor sindical e os partidos de esquerda, setores da sociedade de que se esperava um suposto apoio, de forma inesperada não ocorrera. Um dos possíveis motivos, talvez tenha sido possíveis acordos trabalhistas já fechados ou em fase de serem ratificados. Uma outra possibilidade, é que em virtude de suas visões e posturas unidimensionais estes setores que supostamente deveriam defender os interesses do povo em relação ao Estado, tenham ficado presos e/ou limitados apenas a bandeiras como o “aumento do consumo”, “redução da carga horária” e “ascensão ao poder”. A própria esquerda estava submersa e envolta ao jogo e as armadinhas do capitalismo global.

Portanto, é possível minimamente concluir que as manifestações Parisienses tentam fazer valer a ideia etimológica de “Democracia”, quanto “governo que emana do povo” e “Política”, como a “arte da busca pelo bem comum”. Fez a sociedade francesa perceber que o seu núcleo de representação política tinha se descolado do povo, das bases e não conseguia mais ver o que de fato eram as demandas sociais que surgiam em meio ao processo de reconstrução estatal e da promoção da modernização do modo de produção capitalista que ocorrera a partir do período pós-guerra, a guerra fria. Os estudantes conseguiram mostrar este momento foi um momento de revolta e revolução. Revolta porque era situacional e angustiava o descaso frente a problemas que não tinham respostas. Para isso era preciso lutar, ir as ruas, marchar para fazer ecoar o sentimento incompreensão. Revolução porque ela precisa ocorrer diariamente dentro de cada um, independentemente da bandeira de luta. É algo que se faz de dentro para fora, conforme os estudantes demonstravam. Era a luta pela liberdade de expressão das mais diversas maneiras, era o direito de acesso e de garantias ao modo de viver, se reunir, trabalhar e isso nem o comunismo ortodoxo tão pouco o capitalismo de consumo poderia possibilitar. Buscava-se um outro modelo de sociedade, novas utopias, um outro contrato social.

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Fonte: Domínio público via https://pixabay.com (2018).

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.