Um pequeno instante eterno

Com ausência de sono
e a marcado pela incerteza
de uma resposta indesejada,
a loucura massageia o coração,
aquieta o espírito
e ordena que a escrita
seja a única forma de rasgar o verbo
e manifestar o instinto desejado.

No corrido dia,
da festiva noite,
de luar pernambucano,
sinergia baiana
e hospitalidade de palmares,
registrou-se um momento!
Marcou-se o tempo…
o fleche explodio.

Aquilo que parecia
ser imperceptível
torna-se público
e esperadamente
um fato desejado.

Constata-se outrora,
a dúvida e o receio.

Mesmo assim,
olhares místicos exalam!
Subitamente um instante
é eternizado por uma cumplicidade
inexplicável frente a caricata
vida humana terrena.

A estática fotografia
mostrou que a qualquer segundo,
marcar-se-ia a história
de duas personalidades
que implicitamente desejavam-se
sobre a perfeita “astúcia”
da vibrante ternura soteropo-tiguar.

Marca-se no exclamar…
o flagrante amar,
a súplica pelo falar,
a vontade do tocar
e a agonia para te tomar.

O ambiente (bar) não é tão belo,
mas com o calor que há sobre teu corpo
e a emoção do pulsar de tua alma,
certamente, existirá beleza
e magnetividade para atrair um cúmplice.

Neste público-privado momento,
ainda que queira,
não pode haver publicização
do introspectivo,
que sente vontade
de expulsar sobre gritos despudorados
a infinita alegria
de adocicar a boca
com um doce
conhecido por paixão
e um chocolate
com a marca, amor.

Mário Gaudêncio (16 de setembro de 2007 – 4h da manhã – Palmares/ PE).

Potira, Poti

Menina sempre Poti.
Cachos, caracóis em ti, vi.
Quero que venha me sentir.

Cara Potíra, Poti,
“virgem dos lábios de mel”
que a tupã,
nos vai representar junto ao céu
e com cheiro de romã
és beleza que provoca até o mais sério menestrel.

Potíra, querida poti.
Nunca vais sem mim,
pois sem ti,
nunca conseguirei “vim”
e ser um pouco de ti.

Mim sou eu.
Ti es tu.
Sem tu não sou eu.
Sem ti, ficarei nu.
Contigo serei eu.
Pra sempre seu.

Bela…
Terna…
Potíra.

Mário Gaudêncio (04 de dezembro de 2007).

Demasiadamente livre

Preguiça, ócio e devaneio.
Eu quero devanear.

No viver da terrena labuta,
minha vontade é de espreguiçar-me.

A tarde chega, o dia esvai-se
e o ócio suplica-me.

Espreguiço-me para devanear…
devaneio e sempre ocioso quero estar.

Mário Gaudêncio. (07 dez. 2007).

Batizado de potiguar

Do litoral ao agreste,
passando pelo oeste e o seridó,
chegando ao mato grande de cabra da peste,
ficando em Angicos ou Bodó.

No pé de caju do cajueiro gigante,
avistei o morro de ponta negra,
vi o camelo das areias de Genipabu,
e até cidade de Serra Negra.

Na Descansada de Barreta,
Conversei com a benzedeira dona tita,
Senti o cheiro do Sal de Macau
e ainda nadei na rica Santa Rita.

No sonho doméstico de São Paulo do Potengi,
vi a negritude do petróleo mossoroense,
o dorso do Cabugi
e a alegria do Norte-Riograndense.

Ao chegar em Acari
misturei-me aos cordelistas de Caraúbas,
Conversei com jovens de Apodi
e fui à casa de uma senhora de baraúnas.

Quando o último verso versou-se
falavam de macaíba
num tal de ferreiro torto
e de um mel vindo de Jandaíra.

Numa recente viagem feita,
passava em Taipu,
lá, lembrei-me de São Gonçalo do Amarante
daqueles acampamentos de Uruaçu.

Naquele berço cultural
filmaram pelejas de Ojuara
que muito me fez lembrar
de causos potiguara.

Lá no botequim que aparecia
tinha gente como nós
uns cantando repente
outros, comendo grude chegado de Extremoz.

Santana, São João,
São Pedro, N. S. da Conceição
são Santos fortes
que mexem nosso coração.

No roupeiro, na parede ou estante
todos guardam ao menos um
é proteção de mão cheia
para guardar a vida de qualquer um.

Onde chego encontro
é em Afonso Bezerra e São Rafael,
tem em Lajes e Pedro Avelino
há também no Alto do Rodrigues e na Serra do Mel.

Pra lados do baixo Assu
me contaram de touros
por lá, existe uma árvore do amor
que é melhor do que certos tesouros.

No voar da passarada em Japi
fiquei abasbacado, meio bebé,
foi naquela animação de revoada
que lembrei-me da eterna alegria de São Tomé.

Quando, do boi reis corri...
daquele de Galinhos!
Fui parar em baixa do meio,
acabei encontrando uns amiguinhos.

Por lá, achei Pendências,
lugar formador de Dama.
Vi também, uns cabras da Caicó,
parecidos com os de Canguaretama.

É! Parece terem me batizado de potiguar
e de poti eu há de estar
pra que em todos os cantos eu possa falar
que tenho orgulho de 3 coisas:
da família, da PJMP e de ter sido batizado de potiguar.

Há! Acabei de passar por Natal pra poder aterrissar
na Parnamirim da vida, transformação e arte
encontrar com queridos companheiros
e celebrar o 8º Pastorarte.

Mário Gaudêncio
31 de julho de 2007.
Em comemoração ao VIII Pastorarte da PJMP da Arquidiocese de Natal.

Cachaça dá versos

Aos Bubús.

Da cachaça de alambique
a wisk 12 anos
por aqui “todo o mundo” bebe
e se distancia dos planos
de rei, torna-se plebe

Há quem beba pra divertir-se
mas, também quem extrapole
talvez pra que sentisse
o poder de um porre
e que revelasse
ser gente que comove.

Muitos ficam alegres
outros, meio “burucuxu”.
Há quem desabroche
e quem fique sem nenhum tutu.
Uns, até ficam entorpe
e há quem fique nu.

Há “metidos” a beijoqueiros
e até aconselhadores.
Vê-se gente se transformar em fofoqueiros
e também em namoradores,
basta “tomar uma dose” daquelas que vem dos canavieiros
pra querer novos amores.

No meio de tudo isso, existem coisas bacanas
Basta ver as mentiras que aparecem,
nas mesas dos bares, de uns cabras bem sacanas,
contam estórias que beberrões não esquecem
e enganam até quem não tomam aquelas canas.

Nesta brincadeira de bebe-morar,
todos querem participar,
nada de tristeza,
temos que comemorar.
Afinal, beber é se lançar
num mundo mágico, de imaginar
alegria sem parar,
o que vale é bebe-morar.

Mário Gaudêncio (18 de junho de 2007).

Cidade e sobrevivência

De longe vejo,
não são miragens,
nem naves espaciais,
são jumentos de carga
que carregam em seus “franzinos” lombos
garrafas recicláveis
apoiadas sobre carroças,
além de meia dezena de pessoas,
de uma única família.

Eles estão vindo,
numa rua, num lugar,
onde isso não é mais cenário
de um jumento caminhar,
quanto mais dois… o campo virou cidade!.

E agora, quem sustenta isso?
E quem nisso se sustenta?

Eles continuam vindo,
um no flanco direito,
outro no esquerdo.
A rua passa-se a fechar
e os passageiros a gritar.

Garrafeiro…!
Aqui se compra garrafa…!
Estou a esperar…!
Vamos lá…!
Vamos chegando…!

Mas, nada do povo chegar!
mesmo assim,
todos continuavam a trabalhar,
é um tempo difícil,
ruir até de contar,
pouco se tem a fazer,
emprego ninguém quer dar.
Por esses lados de cá,
nem terra há,
pra poder colher e plantar.

Num dado instante,
entre gritos, andanças e rouquidão,
começa chover,
também é mês de junho,
os Santos são fortes.
Pena que a sorte que vem do céu
para os sertanejos
não valem tanto para os coletores de garrafa e papel.

Pedaços de câmaras de ar rasgadas cobrem todos,
imediatamente, os burricos ficam presos
aquela súbita intempérie
que tremem os mais diversos corpos
pouco vestidos.

Inconsolados com o fato,
inconformados com o dia,
mas conformados que aquele momento
que será um dos poucos que ocorrerão,
alimentaria o calor que se forma nos corações
que estão juntos e apertados
corpo a corpo
e afinados com o sonho de sonhar,
e amadurece o êxtase do aquecimento
da vida idealizada
e amanhã alcançada.

Mário Gaudêncio (22 e 23 de junho de 2007).