O que queremos das bibliotecas?

por Mário Gaudêncio

CONTEXTUALIZAÇÃO

Ao longo da história, a educação brasileira tem vivido sob constantes transformações. Nesse contexto, percebemos cenários dicotômicos de avanços e retrocessos.

A partir desta conjuntura, quando tratamos de educação também pensamos nas bibliotecas, que ao longo de sua existência tem sido em sua maioria negligenciada pelo Estado, salvas as últimas iniciativas provocadas pela sociedade e as entidades de classe ligadas a educação e ciência da informação. A exemplo disso, está o Conselho Federal de Biblioteconomia, que tem ampliado o número de debates em torno da importância da biblioteca para o processo de democratização da informação e fortalecimentos frente as ações docentes nos ambientes educacionais.

Não é uma tarefa fácil, pois requer de uma complexa engenharia para reunir forças, ampliar e aprofundar o debate, sem contar na difícil tarefa de sensibilizar o poder público para que seja percebida a necessidade de dispor de unidades de informação nos mais diversos lugares, seja na cidade ou no campo.

Face a isso e mesmo com o atual cenário brasileiro de instabilidade, vitórias podem ser comemoradas, como é o caso da Lei 12.244 (BRASIL, 2010, online), que trata da “universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País”. Felizmente, existe um entendimento de que esta luta não será finalizada com a lei mencionada, tanto é que novos debates estão em curso. Dentre eles, podemos observar dois, respectivamente:

a) Projeto de Lei 28 (SENADO, 2015, online), que “institui a Política Nacional de Bibliotecas” (SENADO, 2015, online);

b) Projeto de Lei 6.038 (CÂMARA, 2010, online), que “regulamenta o exercício da atividade profissional de Técnico em Biblioteconomia”.

Do ponto de vista legal, ações estão refletidas com a intenção de propor uma política de Estado capaz de responder a diversas demandas educacionais, que por muitos anos foi silenciada ou negligenciada pelos representantes políticos.

AMEAÇAS

Recentemente vínhamos visualizando investimentos que valorizavam as estruturas físicas e de equipamentos para renovação ou criação de bibliotecas face ao que estava determinado pela  Lei 12.244 que, inclusive propunha como meta a necessidade de tornar obrigatória a presença de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas em torno o território nacional.

Porém, muito deste sonho estava alicerçado no processo de partilha do pré-sal que, destinaria recursos substanciais à educação. Aliado a isso estão os possíveis congelamento de investimentos à área de educação, preconizada pela PEC-241 (CÂMARA, 2016, online), que “altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal”.

Observando este cenário, aquele que poderia ser o “período de ouro” às bibliotecas brasileiras, pode se transformar em uma época de “sonhos perdidos”, finalizados pelas mãos do próprio Estado, aquele mesmo que formalizou o sonho, agora ameaçado.

SONHOS ESPERADOS

Bem, mesmo com atual cenário de incertezas, se me fizessem a pergunta:

– O você quer de uma biblioteca?

Eu simplesmente responderia:

– Quero tudo! Quero que seja pensada a partir de uma política de Estado de longo prazo, onde as bibliotecas sejam concebidas e reconhecidas como espaços estratégicos voltados para promoção da educação e valorização da cultura. Que permita que, desde a mais tenra idade possibilite o acesso ao conhecimento registrado, independentemente de classe, ou gênero, por exemplo. Que este espaço seja apresentado como um lugar de encontro,convívio, integração e libertação comunitária. Que este ambiente permita revelar valores culturais silenciados para minoria hegemônica, que em condições normais, dificilmente poderá ascender aos palcos das artes populares ou eruditas. Que permite um lugar prazeroso onde bibliotecários, professores, artistas convivam em harmonia, celebrando a arte do saber.

Talvez pensando assim, não só nos tornaremos instrumentos da mudança educacional, mas também daremos respostas às concepções arraigadas um modelo de sociedade que fortalece, mesmo que intuitivamente, ou seja, sem a intenção de fortalecer o estereótipo de que a biblioteca é apenas percebida como “um lugar para pesquisar ou estudar”, e tendo motivação, simplesmente”ler livros para pesquisar ou estudar”, conforme é expresso pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, promovida pelo (FAILLA, 2016, online).

Na minha concepção, ela vai muito mais além do que isso, conforme expresso anteriormente, contudo, com a atual realidade, será de se comemorar se sua cidade existir uma biblioteca, seja qual for a modalidade para que você possa viver o sonho de “surfar nas ondas do saber”, com toda liberdade possível e imaginável.

ILUMINAÇÕES TEÓRICAS

BRASIL. Lei n. 12.244, de 24 de maio de 2010.Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/UserFiles/File/Legislacao/Lei%2012244.pdf>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n. 28, de 11 de fevereiro de 2015. Institui a Política Nacional de Bibliotecas. Senado [da] República Federativa do Brasil. Brasília,  11 fev. 2015. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/119687>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Câmara Federal. Proposta de Emenda à Constituição n. 241, de 15 de junho de 2016. Câmara [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 10 out. 2016. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2088351>. Acesso em: 21 out. 2016.

CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA. Projetos de lei de interesse da classe bibliotecária em tramitação no Congresso Nacional. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/projetos.php?codigo=24>. Acesso em: 21 out. 2016.

FAILLA, Z. (Org.). Retratos da leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante; Instituto Pró-Livro, 2016. Disponível em: <http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf>.

Onde está sua Biblioteca Escolar?

Por Mário Gaudêncio

Desde de 2010, uma série de ações e dispositivos estão sendo discutidos e implementados no Brasil quanto a Universalização, Parâmetros e Políticas para garantir as Bibliotecas Escolares em todo o Brasil. Isso se justifica por se perceber que existe um cenário preocupante quanto a quantidade e a qualidade destas Unidades de Informação. Temos seguramente um ambiente complexo e dicotômico.

Complexo, porque uma série de agentes sociais e públicos estão envolvidos dentro de um contexto de disputa e ideológico, onde o sonho de tornar real esta iniciativa, na maioria das vezes esbarra na condição política de cidade, periferia, vila, campo ou rincão.

Dicotômico, em virtude de, por um lado viabilizar uma legislação própria, mas com distorções locais sérias, pois na maioria das vezes órgãos executivos não estão nem um pouco preocupados com a execução da Lei, seja por uma questão cultural, de sensibilidade educacional ou por falta de conhecimento ou vontade política.

Pensar um Plano Nacional da Educação (PNE) ou um Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) sem assegurar nas bases da educação a inclusão das Bibliotecas Escolares e de Profissionais Bibliotecários, é o mesmo que mutilar os princípios básicos da educação, assegurados e garantidos como fundamentais frente as garantias constitucionais. É impossível refletir e gerir o fortalecimento educacional visualizando todas as suas condições, independente do nível de complexidade.

O que preocupa nesse contexto é o fator de, passados vários anos após a aprovação da Lei n. 12.244/2010, termos acompanhados pequenos impactos quanto a implementação efetiva destas Unidades Infoeducacionais, seja por ausência de mobilização dos movimentos de classe, dos profissionais ou pela ausência de disponibilidade e compromisso das representações políticas nos mais diversos níveis, nacional, estadual e municipal.

Várias legislaturas passaram nos últimos anos, mas pouco se fez. Estamos a poucos anos do prazo limite para que de fato a ideia de “universalização” seja efetiva, mas fica dúvida se de fato teremos Bibliotecas Escolares em todas instituições educacionais do Brasil.

Neste sentido, é cada vez mais preocupante visualizar o cenário que se aproxima! Será que ao final do prazo estabelecido pela Lei n. 12.244/2010, conforme expressa o artigo terceiro, teremos motivos para comemorar ou para lamentar?

A meu ver, se faz necessário uma forte articulação e pressão popular para possibilitar uma possível vontade política em efetivar a Lei nos mais diversos (5.570) municípios brasileiros (BRASIL, 2013, online).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto nº 7.559, de 1 de setembro de 2011. Dispõe sobre o Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil. Brasília,  05 set. 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7559.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Lei nº 12.244 de 24 de maio 2010. Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. República Federativa [do] Brasil. Brasília,  24  maio 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12244.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil. Brasília, 25 jun. 2014. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm>. Acesso em: 09 set. 2016.

BRASIL. Cresce número de municípios no Brasil. Brasília: IBGE; Senado Federal, 2013. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2013/06/cresce-numero-de-municipios-no-brasil-em-2013>. Acesso em: 09 set. 2016.