MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco M.; SILVA, Juremir M. (Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
Resenha por Mário Gaudêncio¹
Neste capítulo, Edgar Morin busca construir uma proposta teórico-filosófica a cerca criação de um novo paradigma, intitulado de “pensamento complexo”. Para tecer sua proposição em torno da tese, o autor subdivide o texto em seis partes, sendo respectivamente: 1) Política de civilização e problema mundial; 2) Vencer a especialização; 3) A Falsa racionalidade; 4) O Pano de fundo filosófico; 5) Por uma reforma da universidade do pensamento; 6) Os desafios do século XX.
Na
primeira
parte,
Morin irá trazer à tona a reflexão de que a razão de existir do
pensamento complexo se baseia na completude entre as partes e o todo.
Para isso, o autor irá questionar a valorização ao pensamento
moderno, especialmente ao que tange a ideia de especialização a
partir da teoria positivista e do pensamento determinista. Para
fortalecer essa premissa, Morin (2003, p.1) irá recorrer a investida
de Pascal, ao refletir que “só podemos conhecer […] as partes se
conhecermos o todo em que se situam, e só podemos conhecer o todo se
conhecermos as partes que o compõem”. Essa posição lembra em
certa medida a posição de Adorno, com a Teoria Crítica, onde o
mesmo evidencia que, o conhecimento que veio a questionar o
positivismo, não surgiu para suplantá-lo, ao contrário, emerge
para criticá-lo e melhorá-lo (FREITAG, 1986). Esta proposição de
Morin também é apresentada como uma possibilidade de diálogo com o
que teria sido concebido como “Agenda 21”, cujas reflexões se
davam no sentido de contribuir para um desenvolvimento sustentável,
iluminados pela ideia de “Pensar Globalmente e Agir Localmente”,
conforme tinha sido forjada por Ulrich Beck (2004). Como isso Morin
irá questionar a percepção unidimensional vigente, fruto do
processo cognitivo construído a partir do pensamento moderno que não
condiz mais a realidade. Daí abre-se espaço para um processo
“multidimensional”, onde o conhecimento e a sociedade passam a
ser construídos em regime de imbricamento, fusão e simultaneidade
sob influências “econômicas, psicológicas, mitológicas,
sociológicas, mas que estudamos estas dimensões separadamente, e
não umas em relação com as outras” (MORIN, 2003, p. 2). Isso
leva a pensar que é preciso passar a migrar a um outro estágio
paradigmático, onde seja oportunizada uma visão circular em
detrimento da visão linear, presente na ciência normal, conforme é
enunciado por Kuhn (2017) na obra “A estrutura das revoluções
científicas”. O fato é que, ao considerar essa relação cíclica
de um processo que visa retroalimentação entre os espaços, o todo
e o individual, automaticamente valorizar-se-á a ideia de unidade na
diversidade. Isso faz com que Morin (2003, p. 6) considere que “o
tesouro da humanidade é a sua diversidade”. Essa diversidade por
sua vez mostra como o reflexo do complexo, do plural e que se origina
da “incerteza” (MORIN, 2003, grifo nosso), ao contrário, do que
se concebia na modernidade, com a busca pelo universal, fruto de uma
razão instrumental e condicionada a uma verdade unívoca.
Na
segunda
parte,
o autor irá aprofundar o debate anterior partindo do questionamento
sobre a concepção de especialização. Seu posicionamento é
enfático ao observar que mesmo sendo “impossível conhecer tudo do
mundo ou captar todas as suas multiformes transformações. […] por
mais aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas
essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a imbecilidade
cognitiva” (MORIN, 2003, p. 12). Ou seja, o conhecimento jamais
deverá ser concebido de maneira reducionista e determinista, fechado
a um único ponto de vista ou verdade científica. Para que esta
assertiva apontada por Edgar Morin seja viabilizada, ele indica é
necessário “adquirir a possibilidade de articular e organizar as
informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-las e
organizá-las, necessita-se de uma reforma de pensamento” (MORIN,
2003, p. 13).
Quanto
a terceira
parte,
é apresentado que o pensamento completo “busca distinguir (mas não
separar) e ligar” tendo como objetivo “ao mesmo tempo unir
(contextualizar e globalizar) e aceitar o desafio da incerteza”
(MORIN, 2003, p. 14-15). Para são lançados princípios basilares
para orientar a adesão do conhecimento a teoria da complexidade,
respectivamente: 1) Princípio sistêmico ou organizacional; 2)
Princípio “hologramático”; 3) Princípio do anel retroativo; 4)
Princípio do anel recursivo; 5) Princípio de auto-eco-organização;
6) Princípio dialógico; 7) Princípio da reintrodução daquele que
conhece em todo conhecimento. Esses princípios convertidos nos sete
saberes fundamentais para embasar o pensamento complexo permitiu a
Edgar Morin considerar que este “opera a união da simplicidade e
da complexidade” (MORIN, 2003, p. 18), sendo e valendo-se ao mesmo
tempo de ser pensado como integrativo, singular e plural, específico
e geral, global e local.
Ao
que é refletido na quarta
parte,
Edgar Morin tomou como ponto de partida as influencias que puderam
ser derivativas à consolidação do pensamento complexo. A isto são
mencionadas influencias ocidentais e orientais indiciárias como Lao
Tsé e Heráclito. Mais recentemente, pode ser observado como
“alimento para uma concepção da complexidade” (MORIN, 2003, p.
20), a teoria crítica representada por Horkheimer, Adorno e
Habermas, chegando a contemporaneidade sob influência de duas
grandes revoluções científicas. Considerando as influencias e
contribuições de diversas correntes teóricas e filosóficas, o
“pensamento completo, é, portanto, essencialmente aquele que trata
com a incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir,
contratualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o
singular, o individual e o concreto. O pensamento completo não se
reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas permite a comunicação
entre elas, servindo-lhes de ponte” (MORIN, 2003, p. 21).
Buscando
entender a quinta
parte
deste texto capitular, Edgar Morin inicia a sua exposição de
maneira enfática ao constatar que a “complexidade exige uma
reforma de pensamento” (MORIN, 2003, p. 22). Contudo para se
articular uma iniciativa com vistas a uma possível reformulação,
se faz necessário articular uma relação com a universidade, que em
sua concepção fundante de universidade e contexto científico, a
mesma é considerada ao mesmo tempo “conservadora, regeneradora e
geradora. Conserva, memoriza, integra, ritualiza um patrimônio
cognitivo; regenera-o pelo reexame, atualizando-o, transmitindo-o;
gera saber e cultura que entram nessa herança”. Este por sua vez
por ser “vital ou estéril” (MORIN, 2003, p. 22). Considerando
essa linha tênue sinalizada anteriormente, ressalta-se que a
universidade se baseia e fundamenta-se em uma posição “transecular
pela qual […] conclama a sociedade a adotar sua mensagem e suas
normas” (MORIN, 2003, p. 23). Com isso, fica visível que o
contexto de mudança deve acontecer dentro dos limites fronteiriços
da academia e pela a sua comunidade científica. Porém, com esta
conjuntura, Morin comenta que o desafio é ainda maior, especialmente
porque “não se trata somente de modernizar a cultura, trata-se de
culturalizar a modernidade” (MORIN, 2003, p. 24).
Por fim, ao que se refere a sexta e última parte, Edgar Morin tece suas considerações constatando que o “século XX impôs vários desafios” fazendo com que “tudo isso exigisse uma reforma do pensamento” (MORIN, 2003, p. 25), capaz de “substituir um pensamento que separa por um […] que une”, permitindo “que o conhecimento da integração das partes num todo seja completada pelo reconhecimento da integração do todo no interior das partes”. Baseado nisso, será possível ventilar uma “reforma […] paradigmática, que diz respeito à nossa atitude em relação à organização do conhecimento” (MORIN, 2003, p. 26). Mas para que isso possa ocorrer se faz necessário anteceder este processo, com a concomitante reforma da instituição e das suas respectivas mentes. Para isso é preciso “que eles se auto eduquem, e se eduquem prestando atenção às gritantes necessidades do século, as quais são encarnadas também pelos estudantes”. Portanto, é possível concluir que a “universidade deve ultrapassar-se para se reencontrar”.
¹Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.