O que é pós-verdade?

por Mário Gaudêncio

Ultimamente, estamos presenciando uma série de textos, vídeos ou áudios produzidos sobre os meios de comunicação de massa (antiga mídia) ou as mídias alternativas (nova mídia), que promovem o surgimento de fatos unilaterais que muitas vezes são no mínimo duvidosas ou até “inventadas” por interesses particulares.

Ao fantasiar uma “possível informação verídica”, sem uma verdade legitimada, ou seja, que comprove e represente o real cenário do fato ocorrido e noticiado, se aberto espaço para viabilizar um ambiente de perjúrio à pessoas, instituições e/ou conjunturas sociais, políticas, culturais e econômicas, por exemplo.

A Ideia de “pós-verdade” lembra muito o ditado popular “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Entretanto o termo transcende o ditado que remete a ressignificação de gerar um fato a partir de outro. Nesse sentido a “pós-verdade” é mais perversa fazendo com que os

“[…] regimes de pós-verdade produzam mais do que fatos e informações, trabalham com os regimes de crença. Visões de mundo, preconceitos, sentimentos. Se antes o propósito da mentira política era criar uma falsa visão do mundo, agora trata-se de reforçar preconceitos e sentimentos, não apresentar ou analisar fatos. É algo do campo da irracionalidade” (BENTES, 2016, online).

A “pós-verdade” funciona como um “lobista”, que a partir de interesses pessoais leva você a acreditar que o dito é verdadeiro e consequentemente necessário. Daí a preocupação com a expressão e ação do pseudo”produtor de conteúdo”, que necessariamente deve ser visto e encarado com responsabilidade, pois

“[…] pessoas […] individualmente começam a se ver e assumir como produtores relevantes de conteúdos. Essa percepção de que a mídia somos nós, esse conjunto de singularidades que podemos acessar, com quem podemos interagir e trocar realmente é uma mutação antropológica”. (BENTES, 2016, online).

Passa-se a impressão de que basta assumir um perfil em uma rede social virtual qualquer, para “sair por aí destilando veneno” e alimentando o ódio e os valores identitários apocalípticos. No caso das mídias, a informação lançada e reverberada  por meio de redes direcionadas e não direcionadas, possibilitando a um determinado grupo de domínio ampliar o alcance da pseudo-informação.

Essencialmente com a “pós-verdade”, valoriza-se a celebre frase de Maquiavel onde “os fins justificam os meios” e que por meio disso, erroneamente considera-se que no jogo do interesse, tudo pode, tudo deve. Para exemplificar estas considerações, mostram-se cenários onde a “pós-verdade” atuou com profunda força:

a) O cenário político brasileiro (2013-2016);

b) A Eleição Estadunidense 2016;

c) O Brexit Inglês;

d) Emigração Síria.

Assim, e considerando os mais variados contextos, percebe-se que os fatos são “inventados” para viabilizar o cenário necessário de justificar um ato, que jamais terá em vista o bem comum, ao contrário, haverá sempre uma busca pelo interesse individual, onde a disputa pelo poder sempre irá subjugar e silenciar um grupo em detrimento do outro.

REFERÊNCIAS

BENTES, I. A Memética e a era da pós-verdade. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/a-memetica-e-a-era-da-pos-verdade>. Acesso em: 24 nov. 2016.

CASTILHO, C. Apertem os cintos, estamos entrando na era da pós-verdade. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/apertem-os-cintos-estamos-entrando-na-era-da-pos-verdade>. Acesso em: 24 nov. 2016.

COUTINHO, L. A Escolha de pós-verdade como vocábulo do ano confirma a sensação de que a veracidade está fora de moda. Disponível em: <http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/whats-up/noticia/2016/11/a-escolha-de-pos-verdade-como-vocabulo-do-ano-confirma-a-sensacao-de-que-a-veracidade-esta-fora-de-moda-8437308.html>. Acesso em: 24 nov. 2016.

FÁBIO, A. C. O que é “pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford>. Acesso em: 24 nov. 2016.

FILHO, J. A Semana da pós-verdade brasileira. Disponível em: <https://theintercept.com/2016/11/20/a-semana-da-pos-verdade-brasileira>. Acesso em: 24 nov. 2016.

WYLLYS, J. A Pós-verdade é a aliança da mentira com o preconceito. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-pos-verdade-e-a-alianca-da-mentira-com-o-preconceito>. Acesso em: 24 nov. 2016.

O que queremos das bibliotecas?

por Mário Gaudêncio

CONTEXTUALIZAÇÃO

Ao longo da história, a educação brasileira tem vivido sob constantes transformações. Nesse contexto, percebemos cenários dicotômicos de avanços e retrocessos.

A partir desta conjuntura, quando tratamos de educação também pensamos nas bibliotecas, que ao longo de sua existência tem sido em sua maioria negligenciada pelo Estado, salvas as últimas iniciativas provocadas pela sociedade e as entidades de classe ligadas a educação e ciência da informação. A exemplo disso, está o Conselho Federal de Biblioteconomia, que tem ampliado o número de debates em torno da importância da biblioteca para o processo de democratização da informação e fortalecimentos frente as ações docentes nos ambientes educacionais.

Não é uma tarefa fácil, pois requer de uma complexa engenharia para reunir forças, ampliar e aprofundar o debate, sem contar na difícil tarefa de sensibilizar o poder público para que seja percebida a necessidade de dispor de unidades de informação nos mais diversos lugares, seja na cidade ou no campo.

Face a isso e mesmo com o atual cenário brasileiro de instabilidade, vitórias podem ser comemoradas, como é o caso da Lei 12.244 (BRASIL, 2010, online), que trata da “universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País”. Felizmente, existe um entendimento de que esta luta não será finalizada com a lei mencionada, tanto é que novos debates estão em curso. Dentre eles, podemos observar dois, respectivamente:

a) Projeto de Lei 28 (SENADO, 2015, online), que “institui a Política Nacional de Bibliotecas” (SENADO, 2015, online);

b) Projeto de Lei 6.038 (CÂMARA, 2010, online), que “regulamenta o exercício da atividade profissional de Técnico em Biblioteconomia”.

Do ponto de vista legal, ações estão refletidas com a intenção de propor uma política de Estado capaz de responder a diversas demandas educacionais, que por muitos anos foi silenciada ou negligenciada pelos representantes políticos.

AMEAÇAS

Recentemente vínhamos visualizando investimentos que valorizavam as estruturas físicas e de equipamentos para renovação ou criação de bibliotecas face ao que estava determinado pela  Lei 12.244 que, inclusive propunha como meta a necessidade de tornar obrigatória a presença de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas em torno o território nacional.

Porém, muito deste sonho estava alicerçado no processo de partilha do pré-sal que, destinaria recursos substanciais à educação. Aliado a isso estão os possíveis congelamento de investimentos à área de educação, preconizada pela PEC-241 (CÂMARA, 2016, online), que “altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal”.

Observando este cenário, aquele que poderia ser o “período de ouro” às bibliotecas brasileiras, pode se transformar em uma época de “sonhos perdidos”, finalizados pelas mãos do próprio Estado, aquele mesmo que formalizou o sonho, agora ameaçado.

SONHOS ESPERADOS

Bem, mesmo com atual cenário de incertezas, se me fizessem a pergunta:

– O você quer de uma biblioteca?

Eu simplesmente responderia:

– Quero tudo! Quero que seja pensada a partir de uma política de Estado de longo prazo, onde as bibliotecas sejam concebidas e reconhecidas como espaços estratégicos voltados para promoção da educação e valorização da cultura. Que permita que, desde a mais tenra idade possibilite o acesso ao conhecimento registrado, independentemente de classe, ou gênero, por exemplo. Que este espaço seja apresentado como um lugar de encontro,convívio, integração e libertação comunitária. Que este ambiente permita revelar valores culturais silenciados para minoria hegemônica, que em condições normais, dificilmente poderá ascender aos palcos das artes populares ou eruditas. Que permite um lugar prazeroso onde bibliotecários, professores, artistas convivam em harmonia, celebrando a arte do saber.

Talvez pensando assim, não só nos tornaremos instrumentos da mudança educacional, mas também daremos respostas às concepções arraigadas um modelo de sociedade que fortalece, mesmo que intuitivamente, ou seja, sem a intenção de fortalecer o estereótipo de que a biblioteca é apenas percebida como “um lugar para pesquisar ou estudar”, e tendo motivação, simplesmente”ler livros para pesquisar ou estudar”, conforme é expresso pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, promovida pelo (FAILLA, 2016, online).

Na minha concepção, ela vai muito mais além do que isso, conforme expresso anteriormente, contudo, com a atual realidade, será de se comemorar se sua cidade existir uma biblioteca, seja qual for a modalidade para que você possa viver o sonho de “surfar nas ondas do saber”, com toda liberdade possível e imaginável.

ILUMINAÇÕES TEÓRICAS

BRASIL. Lei n. 12.244, de 24 de maio de 2010.Dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 24 maio 2010. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/UserFiles/File/Legislacao/Lei%2012244.pdf>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n. 28, de 11 de fevereiro de 2015. Institui a Política Nacional de Bibliotecas. Senado [da] República Federativa do Brasil. Brasília,  11 fev. 2015. Disponível em: <http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/119687>. Acesso em: 21 out. 2016.

BRASIL. Câmara Federal. Proposta de Emenda à Constituição n. 241, de 15 de junho de 2016. Câmara [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 10 out. 2016. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2088351>. Acesso em: 21 out. 2016.

CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA. Projetos de lei de interesse da classe bibliotecária em tramitação no Congresso Nacional. Disponível em: <http://www.cfb.org.br/projetos.php?codigo=24>. Acesso em: 21 out. 2016.

FAILLA, Z. (Org.). Retratos da leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Sextante; Instituto Pró-Livro, 2016. Disponível em: <http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf>.

O que pode significar “paz”?

por Mário Gaudêncio

Hoje foi divulgado pela Organizações das Nações Unidas – ONU, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz, tendo ganhador Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia. O motivo foi por contribuir para um processo de negociação de PAZ entre o governo colombiano e a FARC, que a 52 anos vivem sob constantes conflitos, em uma “[…] guerra civil, que deixou mais de 200 mil mortos” (DW, 2016, online).

Salvas as polêmicas em torno do merecimento do presidente colombiano ser lareado com esta honraria, a ideia de paz é algo bem mais complexo, que ao tentar refletir e entender o que é e qual a sua importância, logo percebemos que, sabemos de menos, de mais, ou até banalizamos o assunto.

Segundo o Portal Etimologia (2016, online, tradução nossa), paz significa período de estabilidade, onde este tempo de tranquilidade é resultado de um pacto.

Partindo deste pressuposto, e voltando o nosso olhar para esta ideia de “estável” a partir de um pacto social comprometido com o interesse coletivo, vemos que a paz é uma necessidade fundamental para subsistência humana.

Encarando desta forma, fica fácil pensar a sociedade, isso é claro se, deixarmos de lado o egoísmo, a prepotência, arrogância, inveja e diversos outros termos gestados para alimentar um modelo de sistema individualista, seletivo e promotor da intolerância.

Se a paz é tão importante, qual o motivo de existir guerra? Simplesmente para alimentar interesses escusos e realimentar o ímpeto da violência, vingança é do capital que sobrevive da morte.

Acredito que seria bem melhor favorecer a vitória a partir da paz, mas não aquela construída sob a força da morte. Deveria ser uma paz que se manifesta  poética e utopicamente a partir do “espírito”, capaz de motivar um perene estado de comunhão, partilha, vivência, solidariedade e respeito ao outro, ao coletivo, a tolerância e o bem comum, sem xenofobia, etnocentrismo ou qualquer outro tipo de preconceito.

Portanto, só desejando ao outro aquilo que se deseja para si, se conseguirá abrir uma janela para ser vivida uma paz permanente, pois a paz começa dentro de cada um nós.

REFERÊNCIAS

DEUTSCHE WELLE BRASIL. Presidente da Colômbia leva Nobel da Paz. Bonn, Germany, 2016. Disponível em: https://bit.ly/2kqnKBw. Acesso em: 07 out. 2016.

ANDERS, Valetín et al. (Org.). Diccionario etimológico. 2016. Disponível em: https://bit.ly/2lUGTw2. Acesso em: 07 out. 2016.

Um olhar necessário à netnografia

pelo Mário Gaudêncio

A Sociedade da Informação e da Comunicação diariamente tem precisado dar respostas as mais diversas demandas do mundo contemporâneo.

A cada dia surgem novos objetos de estudos, provocando um realinhamento teórico-metodológico aos problemas levantados pelos seus ecossistemas da informação.

Nesse contexto, a comunidade científica precisa criar condições plausíveis para sanar questões dialéticas ou pragmáticas, por exemplo.

Percebendo isso, e mirando na cibercultura, podemos visualizar como uma saída alternativa para responder aos desafios do mundo atual, a abordagem metodológica Netnografia.

A Netnografia é derivada da Etnografia, e tem como um dos seus objetivos basilares, entender o processo de interação social e informacional a partir das relações sociais dentro da dinâmica comunicacional que ocorre por meio do diálogo mediado pelo computador.

Esta conjuntura se manifesta em virtude do ciberespaço por meio da cibercultura que tem apresentado os seus próprios paradigmas diante de uma sociedade cada vez mais exigente.

E é nesse contexto que a netnografia em sua concepção, a cada dia tem maturada uma evolução importante, dando um singular suporte a produção de conteúdos a partir de espaços digitais, sejam eles, mídias sociais, blogs, comunidades virtuais ou grupos de discussão por exemplo.

Com uma proposta hermeticamente articulada e construída, que pensa nas mais diversas possibilidades de análises e reflexões, a netnografia certamente pode ser percebida como uma possibilidade metodológica capaz de descortinar incertezas no campo da investigação científica eletrônica.

Portanto, o pesquisador que quiser entender as dimensões e complexidades do ciberespaço, certamente precisará conhecer o potencial metodológico da netnografia.

REFERÊNCIAS

KOZINETS, R. V. Netnografia: reaizando pesquisa etnográfica online. Tradução de Daniel
Bueno. Porto Alegre: Penso, 2014. (Métodos de Pesquisa).

ROCHA, P. J.; MONTARDO, S. P. Netnografia: incursões metodológicas na cibercultura. E-Compos, dez. 2005. Disponível em: <http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/55/55>. Acesso em: 03 out. 2016.

AMARAL, A.; NATAL, G.; VIANA, L. Netnografia como aporte metodológico da pesquisa em comunicação digital. Imaginário, ano 13, n. 20, p. 34-40, 2008. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/famecos/article/view/4829/3687>.

O que é mídia?

Texto escrito por
Adriano Duarte Rodrigues

Reflexão Analítica
Mário Gaudêncio
salemario@gmail.com

Mayara de S. G. Fonseca
mayarasgfonseca@gmail.com

Elys Ana S. R. Tavares
jornalelys@yahoo.com.br

Introdução

Ao longo da história, a ideia de mídia vem fazendo parte do nosso cotidiano, seja pensando ou discutindo-a positiva ou negativamente. Em torno da mídia e do seu sentido são construídos discursos semânticos onde pessoas, “ora […] idolatram, ora […] demonizam as inovações técnicas que fazem parte da sua experiência” (RODRIGUES, 2015, online).

Nesta vertente, o leitor é provocado para refletir algumas questões permeiam este debate, conforme é expressado por (RODRIGUES, 2015, online):

  1. Será que a mídia faz discursos?
  2. De que mídia se trata quando se diz que produzem discursos?
  3. Será que afinal a mídia fala?
  4. Falar de discurso dos mídia não é uma maneira disfarçada de magia, uma versão atual das fábulas do tempo em que os animais falavam?

Uma série de provocações são lançadas, que por um lado podem clarificar o entendimento, mas também podem gerar ruídos, aumento assim a possibilidade de entendimento. Mesmo assim, diante das questões levantadas, torna-se evidente a necessidade de um diálogo em torno da questão.

Assim, aproveitando este enredo que acabara de ser provocado, Rodrigues (2015, online), o mesmo levanta 7 (sete) seções que para aprofundar este debate, sendo eles:

O que é mídia?

  • A dimensão técnica dos media
  • A linguagem, a mídia constitutiva de toda a experiência possível
  • Utensílios, instrumentos, máquinas,  dispositivos
  • Para uma antropologia da experiência técnica
  • A lógica da invenção técnica
  • As diferentes modalidades de dispositivos mediáticos

O que é mídia?

Historicamente o termo mídia passou a ser adotado no final do século XIX para tratar das invenções tecnológicas criadas para envio de mensagens de pessoas que estão distantes, conforme é dito por (RODRIGUES, 2015, online):

[…] introduzido em inglês, no final do século XIX, nos Estados Unidos da América, no contexto cultural específico dessa época, para designar três inventos recentemente inventados: o telégrafo, a fotografia e a rádio. O que levava os americanos a designar estes inventos como mídia era o fato de tornarem possível a transmissão de mensagens entre pessoas distantes […].

Vale salientar que o termo mídia é derivado do termo médium, que na percepção de Rodrigues (2015, online), “remete as técnicas com o kardecismo (sic) e a prática do espiritismo, […] muito em voga nos Estados Unidos” que também tinha como finalidade básica, estreitar e/ou aproximar pessoas por meio de mensagens.

A dimensão técnica dos media

Em sua visão investigativa, Rodrigues (2015, online) entende a priori que “[…] o termo mídia compreende objetos técnicos ou artefatos (sic)“. Contudo, tais artefatos, por exemplo, exigem de algo maior para que a sua razão de existir seja justificada. Numa linha espaço-temporal, o homem sempre dependeu de inversões ou técnicas que permitissem e viabilizassem a existência da especie humana. Nesta lógica, Rodrigues (2015, online) afirma categoricamente que

a espécie humana esteve desde sempre dependente dos seus inventos técnicos, uma vez que o processo de hominização consiste precisamente na atrofia dos seus dispositivos naturais e na correspondente aquisição da tendência para a elaboração de artefatos (sic) que compensem os dispositivos naturais atrofiados.

Esta constante dependência, ratifica que o ser humano é o aspecto central frente aos dispositivos midiáticos, mesmo com todas as suas limitações. Em virtude disso, tem-se este olhar fundamental do Rodrigues (2015, online), ao perceber que “os dispositivos midiáticos, por mais extraordinários que pareçam ser à primeira vista as suas realizações no nosso tempo, só podem realizar aquilo que já estava desde sempre presente na experiência do mundo dos seres humanos”.

Mesmo em um cenário de dependência, é possível observar que nem sempre é assim. Se observamos a perspectiva biológica do ser humano, já na sua concepção o Berger e Luckman (2010 apud Rodrigues, 2015, online) chamou de “socialização primária”.

A linguagem, a mídia constitutiva de toda a experiência possível

Na perspectiva de Rodrigues (2015, online),primeiro e mais importante dispositivo midiático é a linguagem”. Talvez por entender que toda e qualquer manifestação ou interação social, só passe a existir de fato, em virtude das trocas comunicacionais, emitindo e recebendo mensagens, por exemplo.

A linguagem antecede qualquer expressão midiática após o que chamamos de “socialização primária”, simplesmente por perceber que “na mídia da linguagem estão predefinidos todos as outras mídias, está de antemão prevista a invenção de todas as outras mídias possíveis” (RODRIGUES, 2015, online).

Dessa maneira, podemos entender que a fonte geradora do poder da mídia se consolida através da natureza midiática da linguagem, que é fundamental para compreender a relação da mídia com o discurso, conforme é afirmado por Rodrigues (2015, online).

Utensílios, instrumentos, máquinas,  dispositivos

Rodrigues (2015, online) faz uma importante consideração quando diz que “aquilo a que nos habituamos (sic) a dar o nome de mídia são objetos técnicos distintos dos utensílios, dos instrumentos e das máquinas”.

Ao realizar esta observação, se faz necessário apontar as características individuais no que tange os utensílios, instrumentos, máquinas e dispositivos, conforme são expresso por Rodrigues (2015, online) a seguir:

Utensílios e Instrumentos: caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade e de a sua funcionalidade técnica depender da sua manipulação ou da sua acoplagem ao corpo. Exemplo: martelo e microscópio ótico

Máquinas: caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica também residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade, mas, ao contrário dos instrumentos e dos utensílios, a sua funcionalidade técnica não depende da sua acoplagem ao corpo, uma vez que se trata de artefatos (sic) dotados de individualidade ou autonomia em relação à sua manipulação.

Dispositivos:  distinguem-se, portanto, tanto dos utensílios e dos instrumentos como das máquinas, pelo fato de a sua natureza técnica não ser exteriorizada e de a sua funcionalidade técnica não depender da sua acoplagem ao corpo, mas da sua interiorização no organismo.

Assim, temos a “linguagem como o dispositivo que constitui o nosso mundo e, por isso, nos permite, ao mesmo tempo, interagir com o mundo que ele constitui e dar conta dos dispositivos que o constituem” (RODRIGUES, 2015, online).

Para uma antropologia da experiência técnica

O ser humano em sua essência reside suas experiências e necessidades sob práticas de invenções, descobertas, experiências orais, escritas e/ou técnicas que propõem um diálogo social constante entre pessoas.

É por isso que, por mais que recuemos no tempo, não encontramos vestígios da presença humana que não estejam acompanhados de vestígios de artefatos (sic) reveladores da sua experiência técnica, indiciadora da necessidade de constituição do seu mundo próprio. Daí também que observemos, desde as épocas mais recuadas, o processo de invenção de técnicas destinadas, tanto a perpetuar a linguagem no tempo, como a alargar a sua ressonância no espaço (RODRIGUES, 2015, online).

A exemplo disso, está o caso da invenção da impressa, que revolucionou o modelo de sociedade a partir do século XVI, onde o poder do discurso através da linguagem promoveu profundos desdobramentos em todas as cadeias econômicas e sociais, no que diz respeito ao modo de mediar informação e possibilitar a comunicação.

A lógica da invenção técnica

Esta vertente enquanto possibilidade midiática, permite e trás a ideia de aproximação da sociedade frente aos inventos e descobertas. Em função disso, é importante trazer ao centro desse debate, Gilbert Simondon. Este por sua vez, na opinião de Rodrigues (2015, online), “foi provavelmente o autor que melhor definiu a lógica da invenção técnica, considerando-a como um processo sociogenético de progressiva concretização dos objetos técnico”.

Nesta mesma lógica, “vemos assim que, para este autor, o conceito de interação sinergética é o conceito chave da lógica a que obedece o processo sociogenético de invenção técnica.

Significa dizer que a interação, da forma como está sendo concebida, será fio condutor entre a capacidade de articulação do ser humano (com todas as suas peculiaridades) com as técnicas inventivas de comunicação.

Nesse contexto, McLuhan e Powers (1989 apud RODRIGUES, 2015, online), aproveitam para considerar “os media como dispositivos que prolongam os nossos órgãos dos sentidos que, deste modo, formam o fundo de que recortamos as figuras das nossas percepções”.

Estas percepções, por natureza, podem ocorrer por meio da escrita alfabética ou de dispositivos eletrônicos, por exemplo, é necessário as capacidades motoras de interação e de aprendizagem precisam ir além, estabelecendo inclusive uma condição de equilíbrio e valorizando as mais diversas formas de produção de sentido.

Assim, “é por isso que, se faz necessário a aprendizagem de uma percepção do mundo que equilibre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais, valorizando de igual modo a percepção visual e as visões acústica e tátil (sic) […]”.

As diferentes modalidades de dispositivos mediáticos

É possível identificar a “existência de duas categorias de dispositivos midiáticos”, conforme são expressos por (RODRIGUES, 2015, online).

a) próteses e das órteses

Vemos que “As próteses são dispositivos midiáticos utilizados sobretudo em medicina e que se destinam, respetivamente, a substituir órgãos inexistentes ou a tornar mais eficiente o funcionamento de órgãos deficientes” (RODRIGUES, 2015, online).

Seguindo esta mesma lógica:

Constata-se que “As órteses são, por exemplo, os óculos, os relógios de pulso, os pacemakers ou marcapassos, dispositivos técnicos midiáticos que são incorporados na experiência humana para intervirem, respetivamente, na percepção visual, na percepção do tempo e no funcionamento do coração” (RODRIGUES, 2015, online).

b) dispositivos midiáticos de enunciação ou dispositivos midiáticos discursivos

Além dos citados anteriormente, uma outra possibilidade se constrói em torno dos tipos de dispositivos. Assim, observamos que

“os dispositivos midiáticos de enunciação, tais como o grafismo, as diferentes modalidades de escrita, a imprensa de caráter (sic) móvel, o telégrafo, a fotografia, o telefone, a rádio, a televisão, os mais recentes dispositivos cibernéticos são inventos que intervêm no desencadeamento das interações discursivos dos seres humanos” (RODRIGUES, 2015, online).

Nesse entender, podemos comprovar que provavelmente

a característica mais importante dos dispositivos midiáticos é o fato de só nos apercebermos do seu funcionamento quando deixam de funcionar, quando falham, quando o seu funcionamento é deficiente. Esta característica distingue-os evidentemente das outras modalidades de objetos técnicos e decorre do fato de serem dispositivos técnicos, isto é, de serem artefatos (sic) incorporados, de estarem interiorizados no nosso organismo.

A exemplo disso, podemos evidenciar a linguagem, que tem uma capacidade autônoma de interação e que está interiorizado ao nosso organismo.

Considerações finais

Fomos chamados a fazer uma releitura da ideia de mídia. Vimos que o objeto investigado tem um foco epistemológico amplo, mas um viés científico único, a ciência da comunicação. Na medida em que nos debruçamos sob a questão, vamos podendo ter ciência que para entender todas as dimensões dos estudos da mídia, é primaz refletir tanto suas questões metafísicas quanto aquelas que concernem a sua perspectiva empírica, seja qual for a sua corrente teórica e filosófica. Assim,

os estudos de comunicação que pretendem ter as mídias como objeto, mas que ignoram esta característica não têm, por conseguinte, as mídias como objeto de estudo, mas outras questões que não têm propriamente nada a ver com as mídias, mas com questões particulares que têm a ver com o funcionamento da sociedade, tais como o poder, as desigualdades sociais, determinados estereótipos, tais como o racismo, o sexismo, a violência. Partem do pressuposto de que estas questões  dependem do funcionamento das mídias, como se o funcionamento das mídias fosse uma realidade exterior à própria experiência do mundo própria da sociedade que as inventou e que as utiliza. Os dispositivos midiáticos […] têm influência sobre os nossos comportamentos e têm poder, mas essa influência e esse poder escapam à nossa percepção e, por isso, somos incapazes de os discernir, uma vez que coincidem com a própria experiência que nós próprios constituímos (RODRIGUES, 2015, online).

Portanto, a mídia vai muito mais além de instrumentos ou dispositivos. É algo que transcende e mobiliza a forma de conceber e de comunicar-se através de meios viabilizadores para promover a interação social entre seres humanos. Pessoalmente, chego a dizer que a maior representação simbólica que temos sobre a mídia, é o próprio ser humano a partir de toda a sua complexidade inerente.

ANEXO A – SOBRE O AUTOR

Licenciado em Sociologia e doutor em Comunicação. Professor Catedrático emérito da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Autor de vários livros, entre eles Estratégias da comunicação (Presença, 2001, 3ª ed.), Comunicação e cultura (Presença, 2010, 3ª ed.), A partitura invisível (Colibri, 2005, 2ª ed.) e O paradigma comunicacional (Calouste Gulbenkian, 2011).

ANEXO B – GLOSSÁRIO

Sociogenético: Referente à origem e conservação da sociedade considerada em seus aspectos claramente humanos, como o estético, o espiritual e o intelectual.

Hominização: evolução física e intelectual do homem desde a sua fase primitiva até ao estádio de desenvolvimento atual.

REFERÊNCIAS

RODRIGUES, Adriano Duarte. Afinal o que é mídia? Japaratinga, AL: CISECO, 2015. Disponível em: <http://www.ciseco.org.br/index.php/noticias/280-adriano-duarte-rodrigues-afinal-o-que-e-a-midia>. Acesso em: 23 set. 2016.

Sites consultados

  1. http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/hominiza%C3%A7%C3%A3o
  2. https://www.dicio.com.br/sociogenetico
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Simondon