Resenha da obra o que é pós-moderno

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Coleção Primeiros Passos, 165). Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A obra escrita por Jair Ferreira dos Santos tem a sua primeira edição escrita em 1986. Quanto a esta atual edição, a mesma foi dividida em sete seções capitulares abordados sob definições peculiarmente metafóricas, considerando as seguintes questões: 1) Vem comigo que no caminho eu explico; 2) Do boom ao bit ao blip; 3) Do sacrossanto não ao zero patafísico; 4) Anarquistas em nuliverso; 5) Adeus às ilusões; 6) A massa fria com narciso no trono; 7) Demônio terminal e anjo anunciador.

A primeira seção capitular irá considerar como relevantes os seguintes aspectos: a) Caçando o fantasma; b) Bye, bye, real; c) Breve babado teórico; d) O pós contém um des. O autor considerou aqui, que o pós-modernismo como um fantasma ao moderno. Depreende-se que provavelmente esta observação se dê por perceber que a ideia de pós-modernidade tenha surgido para em virtude de uma possível crise epistemológica e cultural causada pela modernidade, o positivismo e o capitalismo industrial, por não conseguirem mais responder as demandas lançadas pela sociedade. Nesse sentido o autor considerou que o “pós-modernismo é um nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950” (SANTOS, 1988, p. 7). Coincidentemente, é esta época é denominada de revolução técnica, científica e informacional, onde os princípios fundamentais do capitalismo neoliberal são aprofundados através das tecnologias de informação e comunicação, tendo como horizonte fim a sociedade de consumo e a indústria cultural. Assim, “o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida […] na ausência de valores e de sentido para a vida […]”, entregando-se ao “consumo e ao individualismo exacerbado” (SANTOS, 1988, p. 8; 18). Percebendo este cenário, torna-se essência do modernismo “apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência”. Gera-se deste modo uma sociedade baseada no “espetáculo” e na “simulação” (SANTOS, 1988, p. 12-13). Entretanto, o autor chama a atenção para que, se existe um fenômeno que cause transformações na sociedade, independentemente dos avanços tecnológicos, esta é a linguagem, e ela como aspecto constituinte do indivíduo, ou seja, do homem. É através da linguagem que se “[…] dá forma tanto ao nosso mundo […], quanto ao nosso pensamento […]”. A passo que não se observa esses fatores, a pós-modernidade se tornará “frágil, sua identidade, evanesce” (SANTOS, 1988, p. 15). É preciso visualizar a pós-modernidade como produto de transformação e hibridismo de uma linguagem potencializada por repertório de signos que representam e influenciam o contexto com o qual as transformações estão ocorrendo pelo e com o homem. Portanto, o pós-modernismo é algo “inacabado, sem definição precisa, […]” que para “dor dos corações dogmáticos, […] por enquanto flutua no indecidível” (SANTOS, 1988, p. 19).

O segundo capítulo abordará olhares a partir dos aspectos: a) Apocalipse, Uau!; b) A dama de ferro; c) Rede pensante, gandaia global; d) Cá na Belíndia. O pós-modernismo, simbolicamente parte da explosão atômica ocorrida no Japão da II Guerra Mundial (1945) e historicamente a partir de 1950, onde, concretamente a “imagem da civilização moderna industrial, assentada na produção e na máquina, iria se modificar desde os anos 50, ao rumar para sociedade pós-industrial, mobilizada pelo consumo e a informação” (SANTOS, 1988, p. 23). A tecnociência passa a dar o tom das discussões, passando a influenciar a vida das pessoas, e é em virtude disso que o “ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica […]” e outros, promovendo uma desmaterialização e uma pulverização do mundo (SANTOS, 1988). Nesse contexto, o “indivíduo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos”. O indivíduo torna-se influenciável a “um show constante de estímulos desconexos onde as vedetes são o design, a moda, a publicidade, os meios de comunicação” gerando “circuito informação-estetização-erotização-personalização do cotidiano […]”. Assim, na pós-modernidade “só há revolução no cotidiano” (SANTOS, 1988, p. 27-29). Tudo se torna flexível, fazendo inclusive com que o signo pós-moderno favoreça o debate de temas que antes eram silenciados como o da sexualidade.

Ao terceiro capítulo, o autor realizou a sua análise pontuando questões face as questões de: a) Merda aos museus, abaixo o luar; b) O alegre desbundar; c) Escrituras exóticas, escribas excêntricos; d) Tô in, tô out. Aqui, abre-se o debate considerando uma modernidade em crise, que não consegue mais responder as demandas lançadas pela sociedade pós 1950. Terá como elemento motivador a arte, que com o pós-modernismo surge como arte pop, também vista como antiarte tendo como fator diferenciador do que já vinha sendo historicamente pela cultura modernista o fato de ser “lançada nas ruas com outras linguagens (sic), assimilável pelo público: os signos e objetos de massa”, com isso a antiarte passa a ser vista como a “desestetização e a desdefinição da arte” (SANTOS, 1988, p. 36-37). Ou seja, é claro movimento de ruptura ao que que preconcebido ao entendimento que se tinha de arte. Esta nova forma de fazer arte, se apresenta em espaços que antes eram inimagináveis. Daí a antiarte irá trabalhar “sobre a arte dos ilustradores de revistas, publicitários e designers, e acaba sendo uma ponte entre a arte culta e a arte de massa; pela singularização do banal”. Com isso “Elite e massa se fundem na antiarte” (SANTOS, 1988, p. 37). Consolida-se nesse contexto um cenário ideal à indústria cultural, ao promover a arte de maneira articulada a dinâmica da sociedade de consumo. A arte rompe as barreiras dos museus, pinacotecas, bibliotecas, teatros. Ela agora se apresenta de forma “sorrateira” a partir da televisão, do rádio, etc. mostrando-se como uma invenção participativa, pois segundo Santos (1988), o público reage se envolvendo de maneira sensorial e corporal. Influenciada por esta forma artística da pós-modernidade, a literatura busca caminhar nessa mesma perspectiva, tendenciando a valorizar “o pastiche, a paródia, o uso de formas gastas […] e de massa”. Vê-se um anacronismo profundo entre os fundamentos modernos e pós-modernos, tendo em vista a sua singularização.

Seguindo o debate em torno dos princípios que fundamentam a pós-modernidade, o quarto capítulo abordará olhares a partir de aspectos como: a) Desordem e Pangresso; b) Pau de Bauhaus; c) Pintando/esculpindo o sete no pedaço; d) O real vira hiper-real; e) Menos é mais; f) Pensar, espectador, pensar; g) Ambientes: assim na terra como no céu; h) Anarquistas no agito – happenings, processos, performances; i) Novos bichos – a geração 80; j) O bode entrópico; k) Absurdetes americanas ou “Foda-se o Dia das Mães”; l) Cerebráticos franceses ou o romance morto pela masturbação; m) Back to Belíndia; n) No som, no corpo, na cena, no cinema; o) Bit balanço. Neste momento o autor da obra dará continuidade as reflexões em torno do pós-modernismo ainda tomando por base a ideia de antiarte. Agora, a antiarte será formalizada como algo que “não apresenta propostas definidas, nem coerência, nem linha evolutiva”. Isso fará o leitor depreender que está se propondo onde a arte pós-moderna é concebida como uma manifestação “Desestetizada, desdefinida, desmaterializada, […]” (SANTOS, 1988, p. 43; 52). Partindo desse princípio tudo pode ser arte e ela pode estar em qualquer lugar. Assim, segundo Santos (1988, p. 52), ela “utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para desencadear um acontecimento criativo”. Influenciados por estes princípios, diversas outras manifestações de arte alinham-se ao que se propondo o pensamento pós-moderno. Na literatura, abre-se espaço para ser “marginal, diluidora, anticultural […]”. São textos “espontâneos, mal-acabados, irônicos, em linguagem coloquial, que falam do mundo imediato […]. Na música, ele assume formas diversas. […] a dança […] põe no tablado até mesmo o grotesco, a feiúra […]. no teatro, as experiências mais chocantes começam com o Living Theater […]. não tem texto nem enredo, só corpos a imitar no palco fenômenos […]. No cinema, […] com altos efeitos especiais, corre solta a nostalgia acoplada à ficção científica. Reina o ecletismo […] e o pastiche” (SANTOS, 1988, p. 65-69). Portanto, a arte pós-moderna “Abala preconceitos, põe abaixo o muro entre arte culta e de massa, rompe as bandeiras entre os gêneros, […]”. Sugere-se então, algo totalmente desregulado onde o próprio mercado, representado aqui pela indústria cultural e o indivíduo sejam os filtros frente a esta fértil desordem de múltiplos estilos.

O quinto capítulo observará os seguintes aspectos: a) O fliperama do nada; b) Viver não é sobreviver ou o profeta de Walk-man; c) Abaixo o Ocidente; d) Marx & Freud Ilimitada. O autor abrirá o debate considerando que o período pós-moderno tem contribuído para desconstruir o discurso da modernidade. Não no sentido destruir, mas percebendo a possibilidade de revisão, crítica e/ou evolução à crise gerada pelo positivismo do período industrial. Esta crise, de caráter cultural, se pensada a sociedade e epistemológica, se considerada a ciência, abre uma fissura sem precedentes ao em seguida seria considera revolução técnica, científica e informacional. Nesse entremeio a consolidação da pós-modernidade, existia um cenário de descredito ou dúvida a que caminho a sociedade pós-guerra iria rumar, dadas as consequências dos conflitos entre as nações. Havia niilismo que exacerbado que fazia com as pessoas vivenciassem um anacronismo crônico, tendo em vista o que se vinham preconizando para a sociedade da época, mesmo percebendo que o capitalismo neoliberal se fortalecia, se consolidava a corrida aeroespacial e as transnacionais rompiam os muros imaginários de suas bases. Parece que tudo estava fora do lugar. O modelo de produção capitalista ou mesmo os resquícios do socialismo stalinista que se apresentavam, não respondia mais as demandas da sociedade. Em virtude dessa “falta de valores para agir, descrença em um sentido para existência” (SANTOS, 1988, p. 72), a pós-modernidade se apresenta. No entanto, os valores e princípios propostos pela pós-modernidade, em certa medida não concretiza, inclusive de “novo iluminismo” (SERRA, 1998). Na verdade, o que se tem de concreto é o fato da “tecnociência invadir o cotidiano com mil artefatos e serviços, mas não oferece nenhum valor moral além do hedonismo consumista” (SANTOS, 1988, p. 73). Com “decadência acelerada” da modernidade industrial, chega-se a inferir que de alguma forma “a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida”, que de repente pudesse propor novas práticas culturais no contexto de uma indústria cultural que se fortalecia cotidianamente. Do ponto de vista da ciência, buscava-se um novo logos (SANTOS, 1988), uma nova razão para que se pudesse rever práticas ainda hegemônicas oriundas do positivismo. Nessa mesma linha de pensamento, Santos (1988) expressa a partir do Lyotard, que influenciado por Marx e Freud, conclui em “A Condição Pós-Moderna” que esta fase da história não está mais preocupada com a verdade, mas sim com a melhor performance, o melhor resultado.

Ao que tange o sexto capítulo é possível observar os seguintes aspectos: a) Clip-extravagância; b) A massa não é mais aquela; c) O vazio cintilante; d) Eu me amo, eu me amo, eu não consigo viver sem mim. Aqui, o autor irá tocar em temas muito sensíveis e delicados ao contexto da pós-modernidade. Em primeira instância a obra tenta entender a forma como a sociedade de consumo se organiza. É possível compreender que é por meio da ideia de uma competividade construída sob o lastro de um individualismo narcisista que o consumismo se fortalece. Não se pode esquecer de mencionar que este modelo se torna ainda mais forte quando alia o poder da indústria cultural e a falta impressão estar bem informado pelos meios de comunicação de massa. Este cenário aliado a um Estado condescendente, ao sistema neoliberal, permite que a população tenha sua vida social programada nos seus menores detalhes (SANTOS, 1988). Se por um lado, os princípios indiciários da pós-modernidade buscavam questionar o sistema com vistas uma democracia ativa e uma emancipação cidadã, por outro, o próprio indivíduo pós-moderno é tragado por um jogo personalizado de bens e serviços tornando-se um instrumento manipulável. Este cenário contribui para haja um descolamento da sociedade frente ao seria direito coletivo, fazendo com o olhar narcisista contribua para uma desmobilização popular em relação as grandes pautas. Com isso, Santos (1988) observa que o “individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas”. Isto é aprofundado com a deserção social dos espaços de participação, sejam elas na família, política ou conforme explica Santos (1988). Com o apelo provocado pela mídia de massa, tem-se um ambiente aprofundado, provocando e promovendo um processo de espetacularização, seja qual for o espaço, tradicional ou virtual. Nesse jogo da midiático, a “espetacularização converte a vida em um show contínuo e as pessoas em espectadores permanentes”. Cria-se assim, uma hiper-realidade, conforme explica (SANTOS, 1988, p. 96), sempre com vistas a sedução, ao encantamento artificial (SANTOS, 1988). Com a pós-modernidade produziu um cidadão “confuso, indefinido, plural, feito de retalhos que não se fundem num todo” (SANTOS, 1988, p. 104).

No caso do sétimo e último capítulo, Jair Ferreira dos Santos irá apresentar informações em torno do seguinte aspecto: a) e, e, e, e, e, e, e. Nesse momento, o autor tenta emitir um desfecho ao que vinha sendo apresentado e refletido como pós-modernidade. Aqui, Santos (1988, p. 106) observa que neste cenário se tem “o cotidiano povoado pela tecnociência […] em bens e serviços para o indivíduo consumir […] onde é importante o papel dos modelos gerados pela publicidade e os mass media”. Vê-se claramente que o modelo pós-industrial impulsionado pela revolução técnica, científica e informacional, levanta como prioridade básica para sua razão de existir, a sociedade de consumo e a indústria cultural. Tudo irá passar por esses dois marcos “desenvolvimentistas”, inclusive a forma de governar e fazer política, seja, em micro ou macroestruturas. Estes fatos fazem com que o niilismo cultural continue presente, ocasionando “desencanto, desordem, descrença, deserto” (SANTOS, 1988, p. 108). Dessa forma, abre-se margem para ausência de controle social e democracia ativa, permitindo que a “tecnociência, inclusive com seus meios poderosos de simulação, estejam alterando as formas humanas de pensamento, percepção, tempo e espaço” (SANTOS, 1988, p. 109-110). Com as memórias coletivas são esfaceladas, a aldeia global fica “sem identidade, hierarquias no chão, estilos misturados, a pós-modernidade” é tudo e é nada ao mesmo tempo, de uma herança mal construída, onde a modernidade ficou líquida (BAUMAN, 2014), sem nada para se amparar.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra a teoria crítica: ontem e hoje

FREITAG, Barbara. A Teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 2004. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

A Obra retrata os aspectos históricos, teóricos e metodológicos com os quais a Teoria Crítica fora criada. Observa ainda que seu olhar investigativo se debruça por um lado, valorizando em certa medida o Materialismo Dialético Histórico e por outro refutando a forma como era empregado e a quem servia e se destinava o Positivismo.

O livro escrito por Barbara Freitag, reimpresso em 2004, estruturalmente traz um recorte orientado às três primeiras seções, respectivamente, a introdução, o histórico da Escola de Frankfurt e o conteúdo programático da teoria crítica.

Na introdução, a autora constrói as bases iniciais para uma gênese que articula o objeto da Teoria Crítica a partir uma conjuntura de profundas transformações históricas, políticas, culturais científicas.

Em seguida, ao considerar o histórico da Escola de Frankfurt, traz ao centro do debate os aspectos inerentes a “criação do Institut fuer Sozialforschung (1922-1932)”, o “período da emigração para os Estados Unidos (1933-1950)”, a reconstrução do Institut fuer Sozialforschung em Frankfurt (1950-1970)” e o “renascimento e a superação da teoria crítica”.

Com a criação do Institut fuer Sozialforschung, Freitag (2004, p. 14), se observa que a “grande preocupação de Horkheimer nesses primeiros anos de existência e funcionamento do Instituto” era de elaborar “o esboço de uma teoria materialista, social-psicológica dos processos históricos societários” (SCHMIDT, 1980, p. 27 apud FREITAG, 2004, p. 14). Via-se uma busca por uma teoria que fosse capaz de ir além de um pensamento unidimensional e geral pautado pelo positivismo de Auguste Comte e posteriormente, fortalecido por Karl Popper. Desta forma, Horkheimer “imaginava reorientar a reflexão filosófica da época, partindo de um patamar abstrato para um nível mais concreto que não se confundir-se, no entanto, com o puro ativismo da luta partidária”, assim como é revelado por (FREITAG, 2004, p. 15).

Contudo, a fase de criação sofreu profundos impactos a partir da política totalitária nazista Alemã entre o período Entreguerras e o pós-guerra, também conhecido como guerra fria. Neste sentido, para que o Instituto continue funcionando, seria necessário iniciar um processo de emigração, que ocorre através dos Estados Unidos. Mesmo com a mudança, o Instituto continuaria sendo financiado com recursos privados advindos da Argentina. Foi nesta fase que Horkheimer e Adorno escreveram a obra “A Dialética do Esclarecimento em 1947”, mas também foi neste mesmo período que intelectuais como Walter Benjamin e Maurice Halbwachs perderam a vida pelas mesmas razões com as quais houve a mudança geográfica do Instituto, ou seja, o nazismo. Nesta fase, também são revistos alguns posicionamentos teóricos, dentre eles, o abandono aos paradigmas do materialismo histórico e a desconstrução da ideia de “razão” estabelecido por Kant. Este será um “divisor de águas” à Teoria Crítica, que nesse entremeio o Instituto retorna à Alemanha para iniciar o seu processo de reconstrução, inclusive retomando o seu indiciário ao que era denominado de Escola de Frankfurt. A escola se defronta com novos desafios, por um lado, dispor de um número reduzido de pesquisadores, por outro, de responder a novas demandas e reflexões investigativas como a “questão do autoritarismo e do antissemitismo” (FREITAG, 2004, p. 23). Nesse mesmo período eclodem em grandes universidades um “novo potencial político de uma geração estudantil não conformista” (FREITAG, 2004, p. 23). Este cenário tem como epicentro, maio na “Paris 1968” conforme é relatado por (MATOS, 1998) e que inclusive vai de encontro ao Instituto em Frankfurt fazendo com que Adorno chamasse a polícia no momento em que os estudantes ameaçaram invadir. Segundo a autora, os estudantes “defendiam a transformação radical da sociedade capitalista […] tomando como ponto de partida a democratização da própria universidade” (FREITAG, 2004, p. 24).

Por meio desse contexto e no entendimento da autora, “isso gerou desilusão e incompreensão de ambas as partes” (FREITAG, 2004) que mais tarde, “acalmados os ânimos”, simbolicamente é iniciado o processo de renascimento e a superação da Teoria Crítica, que para Freitag (2002, p. 27), “se distinguem em duas tendências: uma, representada por Tiedemann e A. Schmidt, que consiste em preservar o pensamento de Benjamin, Horkheimer, Adorno e em parte Marcuse […] e outra, seguida por Habermas, Wellmer, Buerger e outros, que consiste em prosseguir de modo original e criador o pensamento dos mestres, não hesitando em criticá-lo e superá-los”. Considerando estes últimos aspectos, Habermas ao criar a Teoria da Ação Comunicativa, eleva-se a condição de “o pensador mais produtivo de uma nova versão da teoria crítica daquele (sic) momento” (FREITAG, 2002, p. 28-29). Contudo, o “renascimento da teoria crítica não é devido exclusivamente aos trabalhos de A. Schmidt, R. Tiedemann e J. Habermas. Há toda uma geração de jovens […] que têm usado a teorização dos frankfurtianos para novas reflexões e buscas de apropriação ou superação de seu pensamento, conforme explicou (FREITAG, 2002, p. 29).

Na sequência a autora explorou os princípios que fortalecem, consolidam e diferenciam a Teoria Crítica de outras correntes de pensamento, especialmente do Positivismo. Isso é viabilizado ao passo que são tecidas as teias de articulação do conteúdo programático da Crítica enquanto fundamento diferencial desta Teoria que sugere um Novo Paradigma ao campo da ciência, especialmente por provocar um outro olhar ao que é estabelecido como “razão”. A reflexão privilegiou a “dialética da razão e a crítica da ciência”. Estas estão divididas em três momentos fundamentais. Ao que tange o primeiro momento, se deu para fazer uma contraposição entre a teoria tradicional (cartesianismo) e a teoria crítica (marxismo). Sugere-se que seja denunciado a exclusividade do “caráter sistêmico e conservador do primeiro” em relação ao segundo, que busca “enfaticamente a dimensão humanística, emancipatória” (FREITAG, 2002, p. 37). Na prática, ao “confrontar o pensamento de Descartes e Marx, Horkheimer não está querendo invalidar um em favor do outro”, ele esclarece que busca “englobar o primeiro no segundo” (FREITAG, 2002, p. 37). A Teoria Crítica sempre partirá de algo que já foi construído, elaborado. Assim, a “teoria crítica começa, pois, com uma ideia relativamente geral […] (FREITAG, 2002, p. 39). Mesmo considerando estes aspectos como complementares, Horkheimer faz uma avaliação crítica em torno dos “equívocos” da própria teoria marxista e chega as seguintes questões, conforme são expressados por Freitag (2002, p. 40), “1) a tese da proletarização progressiva da classe operária; 2) a tese das crises cíclicas do capitalismo; 3) a esperança de Marx de que a justiça poderia se realizar simultaneamente com a liberdade revelou-se ilusória”, mas “apesar da renúncia a certas teses do materialismo histórico, Horkheimer sustenta a necessidade da sobrevivência da teoria crítica. Ela deve visar [..] uma humanidade emancipada”. Ao que se refere ao segundo momento, a questão se dá no embate ente Popper e Adorno, onde primeiro defendia o positivismo (derivado do cartesianismo) e o segundo a dialética (derivado da teoria crítica). Com isso, instaura-se um impasse que não favorece o dialogo conforme buscava Horkheimer no momento anterior. Se para Popper o “sujeito do conhecimento não se envolve com seu objeto, e deve respeitar (sic) o princípio da neutralidade das ciências, constatando ‘o que é’ e silenciando, enquanto cientista, face ao que poderia ou deveria ser” e que consequentemente os “juízos de valor não fazem parte do arcabouço científico do pesquisador” (FREITAG, 2002, p. 45), para Adorno o processo deve ser encarado de maneira diferente, ou seja, é preciso que “a sociologia seja concebida como dialética e crítica” e que ela não possa “deixar de guiar-se pela perspectiva do todo, ainda quando estuda um objeto particular, vendo esse todo não como sistema estabelecido, mas como produto histórico do passado e como aspiração de realização no futuro” (FREITAG, 2002, p. 47). Daí surge a obra Dialética Negativa, escrita por Adorno em 1970, que “consistiria no esforço permanente de evitar as falsas sínteses, de desconfiar de toda e qualquer proposta definitiva para solução de problemas, de rejeição de toda visão sistêmica, totalizante da sociedade” (FREITAG, 2002, p. 48), assim como estabelecia de forma contrária o positivismo de sugerido por Popper. Quanto ao que remete o terceiro momento, será considerado o embate entre Habermas e Luhmann. Habermas ao propor uma teoria da sociedade, se aproximará da Teoria Crítica, entretanto, quando Luhmann sugere uma teoria sistêmica, automaticamente dialogará com o Positivismo. Dessa forma, Habermas buscou “elaborar uma ‘nova’ teoria da sociedade como alternativa à teoria sistêmica, representada por Luhmann” (FREITAG, 2002, p. 53). Nesse contexto, “Habermas critica Luhmann, mostrando e confirmando que a incompatibilidade entre as duas formas sistêmicas, e ressalta a dificuldade de utilizar de forma produtiva o conceitual cibernético para sistemas socioculturais (sic) ” (FREITAG, 2002, p. 54). Essas divergências também avançam em outros cenários, que “em última instância”, ocorre “em torno da concepção e do surgimento de significados”. Tomando por base esta concepção, Habermas se mostra “convencido de que o conceito de sistema e o de informação são incompatíveis com uma análise efetiva dos fenômenos sociais”. Ao considerar as facetas deste embate teórico-filosófico, Habermas responderá a Luhmann em definitivo através da Teoria da Ação Comunicativa, onde a ideia central de é a de “elaborar um novo conceito de racionalidade comunicativa, propondo um novo paradigma para a discussão sociológica”, incluindo inclusive “um novo conceito de razão […]. A razão comunicativa […]”. O diferencial da razão comunicativa é ela “no ponto de intersecção de três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e o mundo subjetivo dos afetos” (FREITAG, 2002, p. 59-61). Portanto, a Teoria da Ação Comunicativa “permite reconstruir os processos evolutivos das sociedades do passado ao presente, na medida em que fornece um conceitual que permite dar conta da complexidade e da contradição inerente a nossas modernas sociedades” (FREITAG, 2002, p. 63).

Ao buscar fechar o pensamento em relação ao recorte da obra “A Teoria crítica: ontem e hoje” escrito por Barbara Freitag, é possível considerar que apesar da Escola de Frankfurt e através dela, da Teoria Crítica ao longo da história tem vivenciado constantes mutações, seja pelas mudanças em virtude totalitarismo alemão, pela perda de importantes teóricos, pela necessidade adaptação, avaliação ou autocrítica ou pela sua mudança paradigmática, o importante é que ela não apenas sobreviveu, mas fez ecoar suas reflexões e debates acadêmicos pelas mais diversas partes do mundo, influenciando variadas universidades e cientistas que buscam cotidianamente entender a complexidade da sociedade a partir de métodos ou abordagens capazes de provocar no pesquisador o sentimento contínuo pelo entendimento do todo, em todas as dimensões, sempre considerando que não existe verdade incondicional e que tudo na relação sujeito e objeto precisa ser considerado e respeitado em todas as suas particularidades, sejam elas históricas, culturais, sociais, econômicas ou informacionais.

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

Resenha da obra Paris 1968: as barricadas do desejo

MATOS, O. C. F. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo, 1998. Resenha.

Resenha por Mário Gaudêncio¹

 

Neste livro, Matos (1998), irá considerar 6 (seis) aspectos estruturais para basilar a sua escrita histórico-sociológica, conforme temos: a) Maio de 1968: poesia e revolução; b) Pour une planète plus bleue (slogan do movimento); c) Uma internacional estudantil; d) Os antecedentes; e) A primavera do assalto ao céu; f) Maio: revolta ou revolução. A Obra por Olgaria C. F. Matos escrita por se dá tentando analisar os fatos e contexto com as quais foram inseridas as manifestações ocorreram mundialmente a partir do movimento “Paris 1968”.

Sinteticamente a obra nos conduz a perceber que, havia uma insatisfação estudantil, especialmente, universitária quando a garantia de direitos oferecidos a sociedade. Observava-se que essa insatisfação se fortalecia por ter evidenciado um cenário onde os representantes populares, sejam eles comunistas, socialistas e/ou capitalistas não conseguiam mais visualizar as reais demandas da população francesa, fazendo com que surgisse uma fissura social e política que sedimentaria o ambiente propício que se fossem lançadas dúvidas, questionamentos e manifestações. O berço dos estopins são as universidades, dentre elas, está a tradicional Sorbonne e aqueles que a representavam. Reconhecida como um símbolo estratégico para cultura francesa, segundo os estudantes, esta já não falava mais a língua deles, tão pouco atendia os anseios dos universitários, seja na própria instituição ou fora dela, quando os mesmos eram colocados a prova no mercado de trabalho.

Em virtude de os jovens universitários não vislumbrarem perspectiva de mudança, seja para atender as reformas estruturantes necessárias ou pelas mudanças culturais quanto às liberdades de expressão, a classe estudantil inicia um processo de alargamento do debate político baseado nas demandas sociais que o governo não conseguia ou não queria visualizar.

Esse inquietamento educacional, é antagonicamente construído em um contexto de relativa satisfação econômica e social, e que por esse motivo assustou a comunidade representativa partidária, tenha ela um viés ideológico direcionado à direita ou a esquerda. Dois outros aspectos relevantes e que normalmente estão diretamente relacionados são adicionados a esta realidade, mas que não foi a situação referencial à primavera francesa. Em primeiro lugar, trata que este momento não é essencialmente um processo fruto da luta de classes, condição singular ao processo de disputa pela garantia de direitos, historicamente tratado e evidenciado nas disputas na relação entre burguesia e proletariado. A segunda, que deriva da anterior, trata da não participação e envolvimento dos trabalhadores e dos partidos de esquerda no âmbito da luta estudantil, salvas as iniciativas excepcionais dos jovens trabalhadores que entenderam a importância da luta pela garantia de direitos em torno de temas que para muitos não eram considerados relevantes, e consequentemente silenciados pelo governo aos olhos da grande massa populacional e que em certa medida precisava ser descortinado pela juventude universitária e que a partir dela, estas pautas em maior ou menor proporção começam a ser aceitas e implantadas por diversos grupos estudantis em países da Europa, América do Norte e América do Sul. Temas como sexualidade e liberdade de expressão, antes relegados a marginalidade, começam a fazer parte da agenda de discussão social.

Apesar da luta travada na primavera Parisiense, o movimento era essencialmente ideológico, revelando uma mobilização horizontal, espontânea e orgânica, basilada em maior ou menor escala no Materialismo Histórico Dialético. Mesmo assim, o Maio de 1968, a partir da França, conseguiu revelar diversas lideranças políticas que emergiram a partir da “queda dos muros universitários”, dentre eles está o Franco-Alemão Daniel Cohn Bendit, atualmente deputado europeu e que mesmo sendo um refugiado alemão por sua condição judia, fez frente ao regime vigente. Este fato por sua vez, o fez retornar a Alemanha ainda no período da guerra fria.

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Atrelado ao que pensada o movimento estudantil, um dos fatores positivos que se percebeu foi a forma como as informações produzidas eram comunicadas, os grafites e os muros se revelaram como tecnologias diferenciais e significantes para apresentar as intenções do movimento e canalizar os seus discursos. Isso possibilitaria além de emitir juízo de valor aos pensamentos dos manifestantes, possibilitou tornar as suas intenções mais próximas da sociedade. Negativamente, um aspecto de desestabilização percebido é que não se tinha uma estrutura hierárquica e tática para articular melhor as formas de contrapor-se ao Poder legitimado, especialmente porque em meio as batalhas, piquetes e barricadas, o setor sindical e os partidos de esquerda, setores da sociedade de que se esperava um suposto apoio, de forma inesperada não ocorrera. Um dos possíveis motivos, talvez tenha sido possíveis acordos trabalhistas já fechados ou em fase de serem ratificados. Uma outra possibilidade, é que em virtude de suas visões e posturas unidimensionais estes setores que supostamente deveriam defender os interesses do povo em relação ao Estado, tenham ficado presos e/ou limitados apenas a bandeiras como o “aumento do consumo”, “redução da carga horária” e “ascensão ao poder”. A própria esquerda estava submersa e envolta ao jogo e as armadinhas do capitalismo global.

Portanto, é possível minimamente concluir que as manifestações Parisienses tentam fazer valer a ideia etimológica de “Democracia”, quanto “governo que emana do povo” e “Política”, como a “arte da busca pelo bem comum”. Fez a sociedade francesa perceber que o seu núcleo de representação política tinha se descolado do povo, das bases e não conseguia mais ver o que de fato eram as demandas sociais que surgiam em meio ao processo de reconstrução estatal e da promoção da modernização do modo de produção capitalista que ocorrera a partir do período pós-guerra, a guerra fria. Os estudantes conseguiram mostrar este momento foi um momento de revolta e revolução. Revolta porque era situacional e angustiava o descaso frente a problemas que não tinham respostas. Para isso era preciso lutar, ir as ruas, marchar para fazer ecoar o sentimento incompreensão. Revolução porque ela precisa ocorrer diariamente dentro de cada um, independentemente da bandeira de luta. É algo que se faz de dentro para fora, conforme os estudantes demonstravam. Era a luta pela liberdade de expressão das mais diversas maneiras, era o direito de acesso e de garantias ao modo de viver, se reunir, trabalhar e isso nem o comunismo ortodoxo tão pouco o capitalismo de consumo poderia possibilitar. Buscava-se um outro modelo de sociedade, novas utopias, um outro contrato social.

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Fonte: Domínio público via https://pixabay.com (2018).

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Nota:

¹ Resenha escrita a partir da disciplina “Tecnologias da Informação e da Comunicação” no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, nível de doutorado, da Universidade Federal da Paraíba em 2017.

O que esperar de uma Biblioteconomia EaD?

por Mário Gaudêncio
Postado em: 23/03/2018
Atualizado em: 09/04/2018

O que a fazer para responder a ausência de bibliotecários em unidades informacionais escolares? Para tentar responder a este problema-chave, a Capes lançou no dia 23/03/2018, o curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância (BibEaD).

Para viabilizar a proposta, a UAB (2018, online), recomenda que o BibEAD seja “um curso do Sistema Universidade Aberta do Brasil, com projeto pedagógico de curso nacional de bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância […]”.

Nesse sentido, a Capes (2018, online), observa que o curso “[…] é resultado de uma parceria entre a CAPES, o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem por objetivo suprir a carência de bibliotecários, bem como a necessidade de atender a Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino até 2020, com a presença e atuação do profissional bibliotecário em todas as bibliotecas instaladas no país”.

Esta proposta na modalidade a distância, apesar de buscar responder a demandas sociais e de mercado, terá profundos desafios para que se consolide no cenário nacional. Vê-se que, a partir do momento que seu funcionamento for efetivado, será preciso concomitantemente construir uma forte rede de articulações ativas e altivas para que os profissionais oriundos destes possam ser inseridos ao mercado de trabalho, especialmente em bibliotecas escolares.

Vale lembrar que estas unidades de informação citadas, por um lado, funcionam de maneira precária, por outro, nem existem enquanto estrutura física. Nesse entremeio, está a total despreocupação com “coisa pública” pelos parlamentares e executivos das esferas públicas.

Portanto, a tarefa da implementação do curso de biblioteconomia traz a reboque diversas questões, que para serem solucionadas, será necessário muito mais que consciência de classe.

Para acessar o Projeto Pedagógico do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia na modalidade a distância, clique aqui.

Para acessar a Bibliografia do Projeto Pedagógico do Curso (versão preliminar), clique aqui.

Para acessar o Folheto Informativo, clique aqui.

Para maiores informações, acessar o portal da Capes e da UAB.

Carta de uma bibliotecária que vê sentindo na estabilidade

escrito pela bibliotecária Suzelayne Eustáquio de Azevedo*
colaboração de Fábio Cordeiro

Sr. Helio Gurovitz, enquanto leitora assídua de sua coluna na Revista Época e do seu blog no G1 gostaria de registrar um esclarecimento acerca do que foi escrito no dia 12 de março do presente ano. O texto denominado “Os privilégios do funcionalismo”, sem dúvida é de uma relevância indiscutível para a sociedade civil, no entanto o Sr. cometeu um grave descuido ao citar bibliotecários e faxineiros enquanto profissões cuja estabilidade “não faz sentido” na Administração Pública, o que revela claramente uma visão equivocada por parte de sua pessoa, não só quanto às categorias supracitadas, mas quanto ao funcionamento do serviço público como um todo.

Que ironia ler eu texto no dia em que se celebra a profissão (12/03), e vê-la citada, segundo o Sr., num rol de profissões que não deveriam ter direito à estabilidade do serviço público.

Para sua curiosidade Sr. Hélio, a citada profissão reconhecida e consolidada, só pode ser exercida por graduados em biblioteconomia (sim, para ser bibliotecário é preciso ter nível superior). Profissão esta, que sem dúvida, foi elementar à formação intelectual que hoje o Sr. possui, o que certamente proporcionou subsídios para que alcançasse a posição de status que atualmente ocupa… ou será que ao longo de seus cinquenta anos o Sr., enquanto jornalista conceituado, jamais frequentou uma biblioteca, mesmo que na infância?

A Biblioteconomia trouxe grandes contribuições para o avanço da Educação, Ciência e Tecnologia no Brasil por meio do suporte ao ensino, pesquisa e extensão. Atualmente continua sendo aparato à produção intelectual no País, inclusive em instituições governamentais, reunindo, organizando e disponibilizando a documentação bibliográfica destas entidades em meio impresso ou eletrônico, incentivando assim, a construção e gestão do conhecimento. Tarefa de alta complexidade que requer conhecimento especializado para, sobretudo, garantir o direito de acesso à informação aos cidadãos (conforme determina o Art. 5º, inciso XIV da Constituição Federal), o que configura um desafio em muitas repartições públicas que sofrem com o “câncer” da corrupção e do ataque à liberdade de expressão que assolam este país.

Além da Ciência e Tecnologia, acredite Sr. Hélio, os bibliotecários prestam outros inúmeros serviços nesses órgãos como atendimento ao setor jurídico, assessoria em comunicação, gestão e fiscalização de contratos, planejamento estratégico, gestão documental e arquitetura de informação. Surpreso?? Deixe-me revelar mais coisas: instituições internacionalmente conhecidas pela sua seriedade, compromisso e credibilidade como a Nasa e a ONU recorrem aos préstimos dos bibliotecários e de outros profissionais em ciência da informação para manter seus repositórios informacionais e conferir o tratamento necessário aos seus registros documentais. Isto, certamente, deve-se ao reconhecimento destes órgãos à real importância do papel do profissional em questão.

Sem falar nos órgãos públicos nos quais os referidos profissionais compõem parcial ou integralmente a área finalística como no caso da Fundação Biblioteca Nacional, instituição centenária, criada ainda no tempo colonial, que incessantemente assume a difícil função de reunir, monitorar e salvaguardar toda a produção bibliográfica brasileira (nosso legado memorial).

O que falar então dos faxineiros?? Acho que nem preciso ressaltar a importância destes em qualquer organização. Certamente, imagino eu, que antes do Sr. tomar o seu café e ler este texto (se é que se dará ao trabalho de lê-lo), alguém limpou e organizou a sua mesa, o banheiro que o Sr. usa, a escada por onde passa, tornando seu ambiente de trabalho salubre, enquanto arrisca a própria saúde e integridade física

Bom… pelo menos aqueles que prestaram concurso público tem um regime que lhes é um pouco mais favorável nesta árdua tarefa de servir aos que muitas vezes os desqualificam. Agora “faz sentido” Sr. Hélio?

O Sr. que é um jornalista tão renomado, ao tratar de tema tão importante deveria avaliar melhor os exemplos que usa, pois, um mestre das palavras deve ter ciência de sua responsabilidade na hora de usá-las para não tirar o foco da mensagem principal, que não era o bibliotecário, mas a estabilidade. Infelizmente o seu comentário acabou causando um tremendo mal-estar em toda uma categoria que poderia até mesmo concordar com seu ponto de vista.

Aos faxineiros e bibliotecários, um brinde a nós! Que trabalhamos honestamente, ainda que alguns não nos achem merecedores de estabilidade.

*Com adaptações
#Bibliotecari@s #Junt@sSomosMaisFortes

Educação versus mídia

Por Mário Gaudêncio

Historicamente a Educação tem produzido inúmeras contribuições e investigações frente aos mais diversos anseios da sociedade. Se levarmos em consideração esse objeto ao contexto do Estado e dos direitos fundamentais garantidos por Ele, em dados momentos teremos contextos de retraimento e em outros de avanços. Assim, teremos uma relação pendular que dar-se-á sob práticas dicotômicas de poder ou de silenciamento entre o Estado e o Povo.

Independente disso, a Educação em suas mais diversas conjunturas, ao longo do tempo também tem produzido notícia e deve ser considerado como tal, dentre muitos motivos por ser essencial como um instrumento comunicacional e que produz informação, conhecimento e que fortalece e estabelece profundas relações cognitivas.

Tomando por base essa assertiva, levanta-se o seguinte problema: Por que a Educação não é noticiada como deveria? ou porque Ela não é tratada verdadeiramente como um objeto estratégico de comunicação e mídia, tendo em vista que é justamente através dela que deveria ser estabelecido o contrato social de uma sociedade.

Portanto, se observarmos os elementos levantados e compararmos ao ato de produzir notícia, vamos concluir que muitos meios de comunicação não estão preocupados em criar espaços de mediação midiática para comunicar o objeto Educação de forma perene, estratégica e articulada a um modelo social de produção de conteúdo. Isso fica cada vez cristalizado em cidades menores ou distante dos grandes centros urbanos. Parece que a educação não é notícia, salvas pequenas exceções, que noticiam esporadicamente informações influenciadas pelas grandes corporações da mídia ou por ações isoladas de maior ou menor proporção. Mesmo assim, quando ocorre, em certa medida a notícia é direcionada ao factoide e não ao fato. Será que não seria hoje hora dos canais de comunicação investirem em “Observatórios Jornalísticos” para promover um debate constante e de longo prazo em torno das vivências e práticas educacionais?