Começo dizendo que me sinto satisfeita em participar de encontros e atividades sobre cuidados paliativos na minha cidade (Mossoró-RN), bem como com a maior amplitude que a temática e a prática vêm tomando pelo Brasil e lá fora. Quando comecei a estudar, pensar e falar a respeito, cheguei a me sentir quase como um peixe fora d’água, uma “estranha no pedaço”… Apesar dos muitos entraves visíveis, as coisas vêm se modificando, e contamos com pessoas e profissionais implicados em fazer isso acontecer de forma devida.
Falar sobre cuidados paliativos é urgente nos tempos passado, presente e futuro. Precisamos pensar e articular medidas a curto prazo, mas entendendo que os efeitos disso não ficarão somente no futuro próximo. É prudente reconhecer a dívida que temos, enquanto sociedade, com aqueles que não puderam ser cuidados e assistidos por essa perspectiva e que poderiam ter se afinado a ela e se sentido mais amplamente acolhidos. É válido, ainda, perceber que nós um dia também poderemos ser favorecidos com o trabalho dessa terapêutica e que, para tanto, faz-se necessário agir no hoje.
Quem não gostaria de ser visto em sua totalidade enquanto paciente, em caso de doença ameaçadora da vida, seja crônica ou não, com ou sem possibilidade de reversão curativa, tendo ainda o seu sofrimento e o de seus familiares respeitados?
“Se em outras especialidades, os protocolos muitas vezes definem os tratamentos, nos cuidados paliativos, observamos que a clínica de cada caso ganha destaque e são as necessidades e demandas dos pacientes e seus familiares que devem ser priorizadas” (Netto & Moretto, 2022).
Pecamos com a ideia de que cuidados paliativos são para quem está morrendo, mas, ultimamente, tenho refletido sobre o fato de que todos nós estamos. Entretanto, isso não anula o que se passa para alguns em nível de corpo.
Nesse ensejo de olhar para o que ocorre em nível de corpo, aproveito para ressaltar que isso não deve, de forma alguma, se sobrepor à humanidade de cada um. Como nos dizem Sheyna Vasconcelos e Denise Moraes: “cuida-se do adoecido em detrimento da doença”.
É aí que entram as ofertas dos saberes psis: ao validar o que é mais singular, particular e íntimo de cada um e cada uma. Com isso, cabe destacar: o cuidado paliativo é feito por uma equipe multiprofissional, do diagnóstico ao tratamento, no curso da doença e na finitude, incluindo o luto antecipatório e o pós-perda.
Assim, devemos levar em consideração que essa integridade é atravessada por algo que é muitíssimo humano: o sofrimento. Mesmo com todas as vias de suporte, não estamos blindados. No caso da confirmação de uma doença delicada, por exemplo, o profissional psi é convocado a lidar com alguém em sofrimento e a cuidar dessa pessoa diante da evidência que estabelece a relação direta entre o adoecimento do corpo e o adoecimento psíquico, como assinala Maria Lívia Tourinho Moretto.
Se estamos falando em adoecimento, cuidados, desconstrução de estigmas e validação do sujeito em sua história e completude, cabe-nos trabalhar partindo do entendimento do quão importantes são os aspectos emocionais, psíquicos, sociais e espirituais. Afinal, estamos lidando com a existência. Existência esta que engloba muitas relações em uma história de vida. Por isso, resgato Angelita Silva e Mario Sanches, quando estes ressaltam que os familiares também necessitam de apoio para atravessar a condição de adoecimento e o seu sofrimento, uma vez que as experiências do paciente irão incidir sobre eles (mudanças de imagem, rotina e outras perdas).
Quem nunca escutou alguém dizer que gostaria de ter passado por tal coisa no lugar de tal pessoa?
Dado o cenário, vamos percebendo que a oferta dos cuidados paliativos é para pessoas que podem ter a sua qualidade de vida comprometida por uma doença, mas que não estão necessariamente em terminalidade. O objetivo é apaziguar os desconfortos, independentemente do anúncio de morte.
Portanto, não estamos falando nem de cura exclusiva nem de morte necessariamente iminente; fala-se em cuidar do outro em sua dimensão, em assistir aos seus familiares no curso do processo, mas também após a perda, quando esta ocorrer. Nem toda história se encerra com a morte… Os que ficam ficam com a ausência e com a demanda de reconfigurar a vida por esse motivo.
Afinal, lidar com o homem em sua completude é entender que o fim da vida também faz parte. Os cuidados paliativos, pautados na ortotanásia, nos convidam a ver a morte como algo inerente à vida. Diante disso, a elaboração dos lutos faz-se imprescindível… Quem está partindo está lidando com a perda da própria vida e com a própria ausência no futuro; e os que se despedem de quem está indo vão ficando com a sua continuidade e com a parte que faltará.

Para encerrar, trago Christian Dunker ao reforçar o luto como um trabalho de subjetivação e resposta à perda, definindo-o da seguinte forma: “O trabalho de luto não é tão difícil de descrever: algo se perde tornando-se passado, algo se transforma vigorosamente no presente e algo é reconstruído e permanece conosco no futuro”.
Apesar do bom trabalho somado à Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída no Brasil em 2024, podemos ter sim ainda o que temer, mas cientes de que não precisamos sofrer além do inevitável. Graças aos interesses despertados pelo conhecimento em cuidados paliativos, uma turma ímpar se reuniu e agora vem realizando um trabalho fantástico na nossa Mossoró: Barrocas Compassiva, uma comunidade que vale a pena conhecer e cuja atividade está registrada na fotografia cedida pelos membros para ilustrar essa coluna.
Julita Sena
Psicóloga clínica (CRP-17/2145) e psicanalista
Doutora em Psicologia com pós-doutorado em Ciências Sociais e Humanas
Descubra mais sobre BIBNEWSBR
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
