Coisas de crianças

A criançada de Jardim Primavera.

To no poço, amarelinha,
“jogar bola” a esconde-esconde,
todos querem brincar,
mesmo sem saber
o resultado que pode dar.

Meninas misturadas com meninos
pra zorra começar,
não tem hora, nem lugar,
basta bater a vontade de brincar.

É um tempo bom!
Tudo acontece nos quintais,
terreiros, tabuleiros e arruados.
Quando falta espaço,
pula-se o muro dos vizinhos,
sem que os mesmos vejam, claro.

Quando a artimanha falha,
gritos correm soltos ao avistar a gente.
Meninos…! Saiam d’aqui!
Deixem minha goiaba! Soltem minhas acerolas!
Desçam do jenipapeiro! Soltei minha galinha!
Saiam daí de cima suas pestes!
Coitado do seu Macena!
Mas bem feito praquele chato
do velho rancoroso do Lucena.

Todos correm…
Pula vai… rápido… por aqui não… por ali…
Eita lá vem ele com a espingarda
que dá tiro de sal! Corre… vai… vai…
Por medo ou adrenalina
todos conseguem fugir
com o rabinho entre as pernas.

No dia seguinte,
tudo recomeça.
As vezes as coisas dão certo,
outras tudo se dana.
Alegrias e namoros.
Brigas e reconciliações.
Sapecas e levados.
Basta juntar os amigos
que todas as criancices se manifestam,
com as mais diversas sensações
de brincança, ludicidade, liberdade
e imaginando sempre um presente,
a esperada certeza que todos os dias
serão alegres, sem regras e cheios de bagunça.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).

Dito, mas não acredito

Há uma tendência natural
de mostrar o homem pobre
como constante presença imoral
e hipocrisia descomunal

Favela, roubo e incerteza,
são cernes contagiadores.
Visto e dito
de perto ou de longe,
representam na prática
cenário de submissão
de uma estrutura social
dicotômica, desigual.

Por muitos, falado.
Por poucos, vivido
e enaltecido a beleza da periferia.
Para muitos, a roupa presente do dia-a-dia.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).

Outonicidade

O tempo mudou,
o óbvio ficou diferente,
o sol, as nuvens, o vento
os bichos, os sorrisos, aquela gente.

Surgira uma nova razão:
os passarinhos com muita imaginação
tornaram mágico o flutuar do polém
que, puxado pelas raízes
para alimentar o caulém
fortalecem as folhas
que acabam de tornarem-se vibrantes
para embelezar
o respirar e o gosto de estarem
frutas amargas e doces,
velhas e moças.

Essa é a outonicidade
dos jardins e roças
da potiguaridade
que não ganharam as graças
da falada outonicidade
da estação ¼
mas que na ½
é a colorança misturada a chuvidade
que não diminuem a vaidade
da claridade irradiada de bondade
que deixam os cariris cheios de esperança
e os tupis com jeito de criança
a bonança chegara
a plantação saíra
a sorte apresentara
das nuvens se molhará a terra
pro frutejar se mostrar.

Esse é o outono
do povo potiguar.

Mário Gaudêncio (26 de junho de 2007).

O Canto da sereia

O canto da sereia
encanta o menino,
de noite clara à lua cheia.

Emersa ao mar,
agita quem estar na areia
e esgazeado deixa
aquele que à rodeia.

O canto da sereia,
apaixonado torna
quem loucamente à anseia.

Areia…
Mareia…
Sereia…

Mário Gaudêncio (06/07/07).

Paralelpípedo

Meus pés sobre ti,
ti tocam

Meu corpo em ti
é suportando.

Meus dedos
contigo é uma cumplicidade.

Estes “tentáculos” nesta estrutura
é um suporte.

Este todo,
no todo que passo e caminho,
quando caminho é compasso
é paralelepípedo.

Mário Gaudêncio (18 de junho de 2007).

Silabicamente

Por – ra – da,
Fa – ca – da,
Ca – ga – da.

Tapa – mata – chata.
Falta – gata – solta.

Mita – quita – vita.
Tita – pinta – chita.

Mulata – Renata – maltrata.
Batata – mata – enfarta.

Pataca – catraca – matraca.
Caraca – Tanaka – panaca.

Taça – cachaça – chalaça.

Apólice – police – tolice.

Mário Gaudêncio (05 de julho de 2007).