Cavalo alado

Ao senhor “Campina”.

Nos lampejos do sertão “asertanejado”,
subi no meu cavalo alado,
saí da minha terrinha Seridó,
passei em Lages, no Trampolim da Vitória…
Meu objetivo era chegar na lua de São Jorge.

Meu cavalo é bonito, um pouco loiro,
um tanto rajado.
Tem a força de um touro,
coragem de onça pintada e alma de corsário grego,
igual a aqueles que tinha no passado, cultuado como ouro.

Sei que dizem por aí…
Olha, lá vem um “bangalô” sem dentes,
“manga curta”, sem estirpe, sabe como é!
mas é o meu cavalo alado, um cabra decente,
que por onde passa deixa todos de cabelo em pé.

É verdade que, vez ou outra,
ele ficava meio bisonho,
um pouco gerico,
mesmo assim,
era o meu querido quadrúpede fuxico.

Mário Gaudêncio (06/06/2007).

Coisas de crianças

A criançada de Jardim Primavera.

To no poço, amarelinha,
“jogar bola” a esconde-esconde,
todos querem brincar,
mesmo sem saber
o resultado que pode dar.

Meninas misturadas com meninos
pra zorra começar,
não tem hora, nem lugar,
basta bater a vontade de brincar.

É um tempo bom!
Tudo acontece nos quintais,
terreiros, tabuleiros e arruados.
Quando falta espaço,
pula-se o muro dos vizinhos,
sem que os mesmos vejam, claro.

Quando a artimanha falha,
gritos correm soltos ao avistar a gente.
Meninos…! Saiam d’aqui!
Deixem minha goiaba! Soltem minhas acerolas!
Desçam do jenipapeiro! Soltei minha galinha!
Saiam daí de cima suas pestes!
Coitado do seu Macena!
Mas bem feito praquele chato
do velho rancoroso do Lucena.

Todos correm…
Pula vai… rápido… por aqui não… por ali…
Eita lá vem ele com a espingarda
que dá tiro de sal! Corre… vai… vai…
Por medo ou adrenalina
todos conseguem fugir
com o rabinho entre as pernas.

No dia seguinte,
tudo recomeça.
As vezes as coisas dão certo,
outras tudo se dana.
Alegrias e namoros.
Brigas e reconciliações.
Sapecas e levados.
Basta juntar os amigos
que todas as criancices se manifestam,
com as mais diversas sensações
de brincança, ludicidade, liberdade
e imaginando sempre um presente,
a esperada certeza que todos os dias
serão alegres, sem regras e cheios de bagunça.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).

Memórias de João Grandão

Depois de muito tempo, alimentando um egoísto sobrecomum…
Caiu João Grandão.
Chuá, lá, pá.
Deita,
eita,
taahh.
Morreu!.

Querido pião

Oh! pião!
Pira, roda,
gira, bate,
quebra, nada!

Oh! pião!
fica aqui.
Só na minha mão…
fica aqui

Pião que bate, bate
e não morre por quebrar,
tem 100 anos pra rodar,
tem 100 anos pra matar.

Linha firme me segure,
sou forte e rechuchudo.
Tenho uma ponta grande,
sou do tamanho do mundo.

Ninguém se atreva
me desafiar.
Sou bicho grande
e nesse terreiro posso mandar.

Nesses tempos de brincança
onde tem uma grande meninada
ninguém quer estudar
eu me sinto o cara, o homem da criançada.

Mário Gaudêncio (29/06/2008).
Postado por Sale Mário Gaudêncio

A Barroca e a Biloca

A Barroca e a Biloca*
Jogando a biloca,
acertei na borroa,
a barroca esborrotou
e Carlos ganhou.

O jogo passou,
o dia raiou,
o dia é de Carlos,
ninguém o derrubou.

Outro dia virá.
Quem o derrotará?
Será que existirá?

A brincadeira recomeçou.
A todos, Carlos desafiou,
mas ninguém desabrochou.

Mário Gaudêncio (08/07/2008).

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*Também conhecida como “bila” ou “bola de gude”.

Pipa

A pipa do menino voa.
É quando flutua sua alegria.
O menino não voa,
mas se sente pássaro
quando seu instrumento parece:
um colibri, uma sabiá, uma cacatua,
um papagaio, uma arara, toda sua.
É uma sensação de onipotência
na presença do lançar-se sob as nuvens um vôo,
como objeto que seja ou não, identificado.

Minha’alma é pipa quando voa,
a pipa é linha, carretel, rabiola
e sensibilidade para adestrá-la.
É uma grande sinfonia
é um relógio cheio de engrenagens,
onde um depende do outro.
É a relação do concreto com o abstrato.
É a fusão da alma, do corpo e do objeto.
É o encontro da terra e do vento.
É o amor de uma infância sem desalento.

Mário Gaudêncio (9 jan. 2007).