Dito, mas não acredito

Há uma tendência natural
de mostrar o homem pobre
como constante presença imoral
e hipocrisia descomunal

Favela, roubo e incerteza,
são cernes contagiadores.
Visto e dito
de perto ou de longe,
representam na prática
cenário de submissão
de uma estrutura social
dicotômica, desigual.

Por muitos, falado.
Por poucos, vivido
e enaltecido a beleza da periferia.
Para muitos, a roupa presente do dia-a-dia.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).

Outonicidade

O tempo mudou,
o óbvio ficou diferente,
o sol, as nuvens, o vento
os bichos, os sorrisos, aquela gente.

Surgira uma nova razão:
os passarinhos com muita imaginação
tornaram mágico o flutuar do polém
que, puxado pelas raízes
para alimentar o caulém
fortalecem as folhas
que acabam de tornarem-se vibrantes
para embelezar
o respirar e o gosto de estarem
frutas amargas e doces,
velhas e moças.

Essa é a outonicidade
dos jardins e roças
da potiguaridade
que não ganharam as graças
da falada outonicidade
da estação ¼
mas que na ½
é a colorança misturada a chuvidade
que não diminuem a vaidade
da claridade irradiada de bondade
que deixam os cariris cheios de esperança
e os tupis com jeito de criança
a bonança chegara
a plantação saíra
a sorte apresentara
das nuvens se molhará a terra
pro frutejar se mostrar.

Esse é o outono
do povo potiguar.

Mário Gaudêncio (26 de junho de 2007).

O Canto da sereia

O canto da sereia
encanta o menino,
de noite clara à lua cheia.

Emersa ao mar,
agita quem estar na areia
e esgazeado deixa
aquele que à rodeia.

O canto da sereia,
apaixonado torna
quem loucamente à anseia.

Areia…
Mareia…
Sereia…

Mário Gaudêncio (06/07/07).

Paralelpípedo

Meus pés sobre ti,
ti tocam

Meu corpo em ti
é suportando.

Meus dedos
contigo é uma cumplicidade.

Estes “tentáculos” nesta estrutura
é um suporte.

Este todo,
no todo que passo e caminho,
quando caminho é compasso
é paralelepípedo.

Mário Gaudêncio (18 de junho de 2007).

Silabicamente

Por – ra – da,
Fa – ca – da,
Ca – ga – da.

Tapa – mata – chata.
Falta – gata – solta.

Mita – quita – vita.
Tita – pinta – chita.

Mulata – Renata – maltrata.
Batata – mata – enfarta.

Pataca – catraca – matraca.
Caraca – Tanaka – panaca.

Taça – cachaça – chalaça.

Apólice – police – tolice.

Mário Gaudêncio (05 de julho de 2007).

Vejo através de minha cegueira

Apesar de minha cegueira ser notória e fatídica,
sinto sobre meu corpo
com coração e minh’alma
toda uma sensação
de orgulho e ternura,
por ver a partir de órgãos que outrora
são importantes e capazes
de fazer sentir tudo aquilo,
que um mortal
sem visão multiangular
pode enxergar.

Fico eternamente contente
de poder proporcionar-me
o gosto de ver, diferente de você, claro
mesmo assim, oportunizando constatar
a beleza do escuro-claro.

Acredito veementemente que
nem tudo aquilo que se vê é verdade
mas, tudo que sinto, desejo,
materializo, cheiro, sonho e ouço.

A minha verdade
é aquela “visagem”
que sai de minhas entranhas
corre todo o meu corpo,
estoura por todos os meus poros
sua todos os meus membros
e exala o meu cheiro
por todos os cantos
contagiando a vida de todos65
aqueles que me rodeiam,
onde idealiza-se a vontade
de que os meus xodós sejam
absorvidos por uma terra bem quista.

Mário Gaudêncio (14 de junho de 2007).