Demasiadamente livre

Preguiça, ócio e devaneio.
Eu quero devanear.

No viver da terrena labuta,
minha vontade é de espreguiçar-me.

A tarde chega, o dia esvai-se
e o ócio suplica-me.

Espreguiço-me para devanear…
devaneio e sempre ocioso quero estar.

Mário Gaudêncio. (07 dez. 2007).

Batizado de potiguar

Do litoral ao agreste,
passando pelo oeste e o seridó,
chegando ao mato grande de cabra da peste,
ficando em Angicos ou Bodó.

No pé de caju do cajueiro gigante,
avistei o morro de ponta negra,
vi o camelo das areias de Genipabu,
e até cidade de Serra Negra.

Na Descansada de Barreta,
Conversei com a benzedeira dona tita,
Senti o cheiro do Sal de Macau
e ainda nadei na rica Santa Rita.

No sonho doméstico de São Paulo do Potengi,
vi a negritude do petróleo mossoroense,
o dorso do Cabugi
e a alegria do Norte-Riograndense.

Ao chegar em Acari
misturei-me aos cordelistas de Caraúbas,
Conversei com jovens de Apodi
e fui à casa de uma senhora de baraúnas.

Quando o último verso versou-se
falavam de macaíba
num tal de ferreiro torto
e de um mel vindo de Jandaíra.

Numa recente viagem feita,
passava em Taipu,
lá, lembrei-me de São Gonçalo do Amarante
daqueles acampamentos de Uruaçu.

Naquele berço cultural
filmaram pelejas de Ojuara
que muito me fez lembrar
de causos potiguara.

Lá no botequim que aparecia
tinha gente como nós
uns cantando repente
outros, comendo grude chegado de Extremoz.

Santana, São João,
São Pedro, N. S. da Conceição
são Santos fortes
que mexem nosso coração.

No roupeiro, na parede ou estante
todos guardam ao menos um
é proteção de mão cheia
para guardar a vida de qualquer um.

Onde chego encontro
é em Afonso Bezerra e São Rafael,
tem em Lajes e Pedro Avelino
há também no Alto do Rodrigues e na Serra do Mel.

Pra lados do baixo Assu
me contaram de touros
por lá, existe uma árvore do amor
que é melhor do que certos tesouros.

No voar da passarada em Japi
fiquei abasbacado, meio bebé,
foi naquela animação de revoada
que lembrei-me da eterna alegria de São Tomé.

Quando, do boi reis corri...
daquele de Galinhos!
Fui parar em baixa do meio,
acabei encontrando uns amiguinhos.

Por lá, achei Pendências,
lugar formador de Dama.
Vi também, uns cabras da Caicó,
parecidos com os de Canguaretama.

É! Parece terem me batizado de potiguar
e de poti eu há de estar
pra que em todos os cantos eu possa falar
que tenho orgulho de 3 coisas:
da família, da PJMP e de ter sido batizado de potiguar.

Há! Acabei de passar por Natal pra poder aterrissar
na Parnamirim da vida, transformação e arte
encontrar com queridos companheiros
e celebrar o 8º Pastorarte.

Mário Gaudêncio
31 de julho de 2007.
Em comemoração ao VIII Pastorarte da PJMP da Arquidiocese de Natal.

Cachaça dá versos

Aos Bubús.

Da cachaça de alambique
a wisk 12 anos
por aqui “todo o mundo” bebe
e se distancia dos planos
de rei, torna-se plebe

Há quem beba pra divertir-se
mas, também quem extrapole
talvez pra que sentisse
o poder de um porre
e que revelasse
ser gente que comove.

Muitos ficam alegres
outros, meio “burucuxu”.
Há quem desabroche
e quem fique sem nenhum tutu.
Uns, até ficam entorpe
e há quem fique nu.

Há “metidos” a beijoqueiros
e até aconselhadores.
Vê-se gente se transformar em fofoqueiros
e também em namoradores,
basta “tomar uma dose” daquelas que vem dos canavieiros
pra querer novos amores.

No meio de tudo isso, existem coisas bacanas
Basta ver as mentiras que aparecem,
nas mesas dos bares, de uns cabras bem sacanas,
contam estórias que beberrões não esquecem
e enganam até quem não tomam aquelas canas.

Nesta brincadeira de bebe-morar,
todos querem participar,
nada de tristeza,
temos que comemorar.
Afinal, beber é se lançar
num mundo mágico, de imaginar
alegria sem parar,
o que vale é bebe-morar.

Mário Gaudêncio (18 de junho de 2007).

Cidade e sobrevivência

De longe vejo,
não são miragens,
nem naves espaciais,
são jumentos de carga
que carregam em seus “franzinos” lombos
garrafas recicláveis
apoiadas sobre carroças,
além de meia dezena de pessoas,
de uma única família.

Eles estão vindo,
numa rua, num lugar,
onde isso não é mais cenário
de um jumento caminhar,
quanto mais dois… o campo virou cidade!.

E agora, quem sustenta isso?
E quem nisso se sustenta?

Eles continuam vindo,
um no flanco direito,
outro no esquerdo.
A rua passa-se a fechar
e os passageiros a gritar.

Garrafeiro…!
Aqui se compra garrafa…!
Estou a esperar…!
Vamos lá…!
Vamos chegando…!

Mas, nada do povo chegar!
mesmo assim,
todos continuavam a trabalhar,
é um tempo difícil,
ruir até de contar,
pouco se tem a fazer,
emprego ninguém quer dar.
Por esses lados de cá,
nem terra há,
pra poder colher e plantar.

Num dado instante,
entre gritos, andanças e rouquidão,
começa chover,
também é mês de junho,
os Santos são fortes.
Pena que a sorte que vem do céu
para os sertanejos
não valem tanto para os coletores de garrafa e papel.

Pedaços de câmaras de ar rasgadas cobrem todos,
imediatamente, os burricos ficam presos
aquela súbita intempérie
que tremem os mais diversos corpos
pouco vestidos.

Inconsolados com o fato,
inconformados com o dia,
mas conformados que aquele momento
que será um dos poucos que ocorrerão,
alimentaria o calor que se forma nos corações
que estão juntos e apertados
corpo a corpo
e afinados com o sonho de sonhar,
e amadurece o êxtase do aquecimento
da vida idealizada
e amanhã alcançada.

Mário Gaudêncio (22 e 23 de junho de 2007).

Coisas de crianças

A criançada de Jardim Primavera.

To no poço, amarelinha,
“jogar bola” a esconde-esconde,
todos querem brincar,
mesmo sem saber
o resultado que pode dar.

Meninas misturadas com meninos
pra zorra começar,
não tem hora, nem lugar,
basta bater a vontade de brincar.

É um tempo bom!
Tudo acontece nos quintais,
terreiros, tabuleiros e arruados.
Quando falta espaço,
pula-se o muro dos vizinhos,
sem que os mesmos vejam, claro.

Quando a artimanha falha,
gritos correm soltos ao avistar a gente.
Meninos…! Saiam d’aqui!
Deixem minha goiaba! Soltem minhas acerolas!
Desçam do jenipapeiro! Soltei minha galinha!
Saiam daí de cima suas pestes!
Coitado do seu Macena!
Mas bem feito praquele chato
do velho rancoroso do Lucena.

Todos correm…
Pula vai… rápido… por aqui não… por ali…
Eita lá vem ele com a espingarda
que dá tiro de sal! Corre… vai… vai…
Por medo ou adrenalina
todos conseguem fugir
com o rabinho entre as pernas.

No dia seguinte,
tudo recomeça.
As vezes as coisas dão certo,
outras tudo se dana.
Alegrias e namoros.
Brigas e reconciliações.
Sapecas e levados.
Basta juntar os amigos
que todas as criancices se manifestam,
com as mais diversas sensações
de brincança, ludicidade, liberdade
e imaginando sempre um presente,
a esperada certeza que todos os dias
serão alegres, sem regras e cheios de bagunça.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).

Dito, mas não acredito

Há uma tendência natural
de mostrar o homem pobre
como constante presença imoral
e hipocrisia descomunal

Favela, roubo e incerteza,
são cernes contagiadores.
Visto e dito
de perto ou de longe,
representam na prática
cenário de submissão
de uma estrutura social
dicotômica, desigual.

Por muitos, falado.
Por poucos, vivido
e enaltecido a beleza da periferia.
Para muitos, a roupa presente do dia-a-dia.

Mário Gaudêncio (17 de maio de 2007).