Carta de uma bibliotecária que vê sentindo na estabilidade

escrito pela bibliotecária Suzelayne Eustáquio de Azevedo*
colaboração de Fábio Cordeiro

Sr. Helio Gurovitz, enquanto leitora assídua de sua coluna na Revista Época e do seu blog no G1 gostaria de registrar um esclarecimento acerca do que foi escrito no dia 12 de março do presente ano. O texto denominado “Os privilégios do funcionalismo”, sem dúvida é de uma relevância indiscutível para a sociedade civil, no entanto o Sr. cometeu um grave descuido ao citar bibliotecários e faxineiros enquanto profissões cuja estabilidade “não faz sentido” na Administração Pública, o que revela claramente uma visão equivocada por parte de sua pessoa, não só quanto às categorias supracitadas, mas quanto ao funcionamento do serviço público como um todo.

Que ironia ler eu texto no dia em que se celebra a profissão (12/03), e vê-la citada, segundo o Sr., num rol de profissões que não deveriam ter direito à estabilidade do serviço público.

Para sua curiosidade Sr. Hélio, a citada profissão reconhecida e consolidada, só pode ser exercida por graduados em biblioteconomia (sim, para ser bibliotecário é preciso ter nível superior). Profissão esta, que sem dúvida, foi elementar à formação intelectual que hoje o Sr. possui, o que certamente proporcionou subsídios para que alcançasse a posição de status que atualmente ocupa… ou será que ao longo de seus cinquenta anos o Sr., enquanto jornalista conceituado, jamais frequentou uma biblioteca, mesmo que na infância?

A Biblioteconomia trouxe grandes contribuições para o avanço da Educação, Ciência e Tecnologia no Brasil por meio do suporte ao ensino, pesquisa e extensão. Atualmente continua sendo aparato à produção intelectual no País, inclusive em instituições governamentais, reunindo, organizando e disponibilizando a documentação bibliográfica destas entidades em meio impresso ou eletrônico, incentivando assim, a construção e gestão do conhecimento. Tarefa de alta complexidade que requer conhecimento especializado para, sobretudo, garantir o direito de acesso à informação aos cidadãos (conforme determina o Art. 5º, inciso XIV da Constituição Federal), o que configura um desafio em muitas repartições públicas que sofrem com o “câncer” da corrupção e do ataque à liberdade de expressão que assolam este país.

Além da Ciência e Tecnologia, acredite Sr. Hélio, os bibliotecários prestam outros inúmeros serviços nesses órgãos como atendimento ao setor jurídico, assessoria em comunicação, gestão e fiscalização de contratos, planejamento estratégico, gestão documental e arquitetura de informação. Surpreso?? Deixe-me revelar mais coisas: instituições internacionalmente conhecidas pela sua seriedade, compromisso e credibilidade como a Nasa e a ONU recorrem aos préstimos dos bibliotecários e de outros profissionais em ciência da informação para manter seus repositórios informacionais e conferir o tratamento necessário aos seus registros documentais. Isto, certamente, deve-se ao reconhecimento destes órgãos à real importância do papel do profissional em questão.

Sem falar nos órgãos públicos nos quais os referidos profissionais compõem parcial ou integralmente a área finalística como no caso da Fundação Biblioteca Nacional, instituição centenária, criada ainda no tempo colonial, que incessantemente assume a difícil função de reunir, monitorar e salvaguardar toda a produção bibliográfica brasileira (nosso legado memorial).

O que falar então dos faxineiros?? Acho que nem preciso ressaltar a importância destes em qualquer organização. Certamente, imagino eu, que antes do Sr. tomar o seu café e ler este texto (se é que se dará ao trabalho de lê-lo), alguém limpou e organizou a sua mesa, o banheiro que o Sr. usa, a escada por onde passa, tornando seu ambiente de trabalho salubre, enquanto arrisca a própria saúde e integridade física

Bom… pelo menos aqueles que prestaram concurso público tem um regime que lhes é um pouco mais favorável nesta árdua tarefa de servir aos que muitas vezes os desqualificam. Agora “faz sentido” Sr. Hélio?

O Sr. que é um jornalista tão renomado, ao tratar de tema tão importante deveria avaliar melhor os exemplos que usa, pois, um mestre das palavras deve ter ciência de sua responsabilidade na hora de usá-las para não tirar o foco da mensagem principal, que não era o bibliotecário, mas a estabilidade. Infelizmente o seu comentário acabou causando um tremendo mal-estar em toda uma categoria que poderia até mesmo concordar com seu ponto de vista.

Aos faxineiros e bibliotecários, um brinde a nós! Que trabalhamos honestamente, ainda que alguns não nos achem merecedores de estabilidade.

*Com adaptações
#Bibliotecari@s #Junt@sSomosMaisFortes

Educação versus mídia

Por Mário Gaudêncio

Historicamente a Educação tem produzido inúmeras contribuições e investigações frente aos mais diversos anseios da sociedade. Se levarmos em consideração esse objeto ao contexto do Estado e dos direitos fundamentais garantidos por Ele, em dados momentos teremos contextos de retraimento e em outros de avanços. Assim, teremos uma relação pendular que dar-se-á sob práticas dicotômicas de poder ou de silenciamento entre o Estado e o Povo.

Independente disso, a Educação em suas mais diversas conjunturas, ao longo do tempo também tem produzido notícia e deve ser considerado como tal, dentre muitos motivos por ser essencial como um instrumento comunicacional e que produz informação, conhecimento e que fortalece e estabelece profundas relações cognitivas.

Tomando por base essa assertiva, levanta-se o seguinte problema: Por que a Educação não é noticiada como deveria? ou porque Ela não é tratada verdadeiramente como um objeto estratégico de comunicação e mídia, tendo em vista que é justamente através dela que deveria ser estabelecido o contrato social de uma sociedade.

Portanto, se observarmos os elementos levantados e compararmos ao ato de produzir notícia, vamos concluir que muitos meios de comunicação não estão preocupados em criar espaços de mediação midiática para comunicar o objeto Educação de forma perene, estratégica e articulada a um modelo social de produção de conteúdo. Isso fica cada vez cristalizado em cidades menores ou distante dos grandes centros urbanos. Parece que a educação não é notícia, salvas pequenas exceções, que noticiam esporadicamente informações influenciadas pelas grandes corporações da mídia ou por ações isoladas de maior ou menor proporção. Mesmo assim, quando ocorre, em certa medida a notícia é direcionada ao factoide e não ao fato. Será que não seria hoje hora dos canais de comunicação investirem em “Observatórios Jornalísticos” para promover um debate constante e de longo prazo em torno das vivências e práticas educacionais?

O que é pós-verdade?

por Mário Gaudêncio

Ultimamente, estamos presenciando uma série de textos, vídeos ou áudios produzidos sobre os meios de comunicação de massa (antiga mídia) ou as mídias alternativas (nova mídia), que promovem o surgimento de fatos unilaterais que muitas vezes são no mínimo duvidosas ou até “inventadas” por interesses particulares.

Ao fantasiar uma “possível informação verídica”, sem uma verdade legitimada, ou seja, que comprove e represente o real cenário do fato ocorrido e noticiado, se aberto espaço para viabilizar um ambiente de perjúrio à pessoas, instituições e/ou conjunturas sociais, políticas, culturais e econômicas, por exemplo.

A Ideia de “pós-verdade” lembra muito o ditado popular “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Entretanto o termo transcende o ditado que remete a ressignificação de gerar um fato a partir de outro. Nesse sentido a “pós-verdade” é mais perversa fazendo com que os

“[…] regimes de pós-verdade produzam mais do que fatos e informações, trabalham com os regimes de crença. Visões de mundo, preconceitos, sentimentos. Se antes o propósito da mentira política era criar uma falsa visão do mundo, agora trata-se de reforçar preconceitos e sentimentos, não apresentar ou analisar fatos. É algo do campo da irracionalidade” (BENTES, 2016, online).

A “pós-verdade” funciona como um “lobista”, que a partir de interesses pessoais leva você a acreditar que o dito é verdadeiro e consequentemente necessário. Daí a preocupação com a expressão e ação do pseudo”produtor de conteúdo”, que necessariamente deve ser visto e encarado com responsabilidade, pois

“[…] pessoas […] individualmente começam a se ver e assumir como produtores relevantes de conteúdos. Essa percepção de que a mídia somos nós, esse conjunto de singularidades que podemos acessar, com quem podemos interagir e trocar realmente é uma mutação antropológica”. (BENTES, 2016, online).

Passa-se a impressão de que basta assumir um perfil em uma rede social virtual qualquer, para “sair por aí destilando veneno” e alimentando o ódio e os valores identitários apocalípticos. No caso das mídias, a informação lançada e reverberada  por meio de redes direcionadas e não direcionadas, possibilitando a um determinado grupo de domínio ampliar o alcance da pseudo-informação.

Essencialmente com a “pós-verdade”, valoriza-se a celebre frase de Maquiavel onde “os fins justificam os meios” e que por meio disso, erroneamente considera-se que no jogo do interesse, tudo pode, tudo deve. Para exemplificar estas considerações, mostram-se cenários onde a “pós-verdade” atuou com profunda força:

a) O cenário político brasileiro (2013-2016);

b) A Eleição Estadunidense 2016;

c) O Brexit Inglês;

d) Emigração Síria.

Assim, e considerando os mais variados contextos, percebe-se que os fatos são “inventados” para viabilizar o cenário necessário de justificar um ato, que jamais terá em vista o bem comum, ao contrário, haverá sempre uma busca pelo interesse individual, onde a disputa pelo poder sempre irá subjugar e silenciar um grupo em detrimento do outro.

REFERÊNCIAS

BENTES, I. A Memética e a era da pós-verdade. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/a-memetica-e-a-era-da-pos-verdade>. Acesso em: 24 nov. 2016.

CASTILHO, C. Apertem os cintos, estamos entrando na era da pós-verdade. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/apertem-os-cintos-estamos-entrando-na-era-da-pos-verdade>. Acesso em: 24 nov. 2016.

COUTINHO, L. A Escolha de pós-verdade como vocábulo do ano confirma a sensação de que a veracidade está fora de moda. Disponível em: <http://dc.clicrbs.com.br/sc/colunistas/whats-up/noticia/2016/11/a-escolha-de-pos-verdade-como-vocabulo-do-ano-confirma-a-sensacao-de-que-a-veracidade-esta-fora-de-moda-8437308.html>. Acesso em: 24 nov. 2016.

FÁBIO, A. C. O que é “pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford>. Acesso em: 24 nov. 2016.

FILHO, J. A Semana da pós-verdade brasileira. Disponível em: <https://theintercept.com/2016/11/20/a-semana-da-pos-verdade-brasileira>. Acesso em: 24 nov. 2016.

WYLLYS, J. A Pós-verdade é a aliança da mentira com o preconceito. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-pos-verdade-e-a-alianca-da-mentira-com-o-preconceito>. Acesso em: 24 nov. 2016.

O que é mídia?

Texto escrito por
Adriano Duarte Rodrigues

Reflexão Analítica
Mário Gaudêncio
salemario@gmail.com

Mayara de S. G. Fonseca
mayarasgfonseca@gmail.com

Elys Ana S. R. Tavares
jornalelys@yahoo.com.br

Introdução

Ao longo da história, a ideia de mídia vem fazendo parte do nosso cotidiano, seja pensando ou discutindo-a positiva ou negativamente. Em torno da mídia e do seu sentido são construídos discursos semânticos onde pessoas, “ora […] idolatram, ora […] demonizam as inovações técnicas que fazem parte da sua experiência” (RODRIGUES, 2015, online).

Nesta vertente, o leitor é provocado para refletir algumas questões permeiam este debate, conforme é expressado por (RODRIGUES, 2015, online):

  1. Será que a mídia faz discursos?
  2. De que mídia se trata quando se diz que produzem discursos?
  3. Será que afinal a mídia fala?
  4. Falar de discurso dos mídia não é uma maneira disfarçada de magia, uma versão atual das fábulas do tempo em que os animais falavam?

Uma série de provocações são lançadas, que por um lado podem clarificar o entendimento, mas também podem gerar ruídos, aumento assim a possibilidade de entendimento. Mesmo assim, diante das questões levantadas, torna-se evidente a necessidade de um diálogo em torno da questão.

Assim, aproveitando este enredo que acabara de ser provocado, Rodrigues (2015, online), o mesmo levanta 7 (sete) seções que para aprofundar este debate, sendo eles:

O que é mídia?

  • A dimensão técnica dos media
  • A linguagem, a mídia constitutiva de toda a experiência possível
  • Utensílios, instrumentos, máquinas,  dispositivos
  • Para uma antropologia da experiência técnica
  • A lógica da invenção técnica
  • As diferentes modalidades de dispositivos mediáticos

O que é mídia?

Historicamente o termo mídia passou a ser adotado no final do século XIX para tratar das invenções tecnológicas criadas para envio de mensagens de pessoas que estão distantes, conforme é dito por (RODRIGUES, 2015, online):

[…] introduzido em inglês, no final do século XIX, nos Estados Unidos da América, no contexto cultural específico dessa época, para designar três inventos recentemente inventados: o telégrafo, a fotografia e a rádio. O que levava os americanos a designar estes inventos como mídia era o fato de tornarem possível a transmissão de mensagens entre pessoas distantes […].

Vale salientar que o termo mídia é derivado do termo médium, que na percepção de Rodrigues (2015, online), “remete as técnicas com o kardecismo (sic) e a prática do espiritismo, […] muito em voga nos Estados Unidos” que também tinha como finalidade básica, estreitar e/ou aproximar pessoas por meio de mensagens.

A dimensão técnica dos media

Em sua visão investigativa, Rodrigues (2015, online) entende a priori que “[…] o termo mídia compreende objetos técnicos ou artefatos (sic)“. Contudo, tais artefatos, por exemplo, exigem de algo maior para que a sua razão de existir seja justificada. Numa linha espaço-temporal, o homem sempre dependeu de inversões ou técnicas que permitissem e viabilizassem a existência da especie humana. Nesta lógica, Rodrigues (2015, online) afirma categoricamente que

a espécie humana esteve desde sempre dependente dos seus inventos técnicos, uma vez que o processo de hominização consiste precisamente na atrofia dos seus dispositivos naturais e na correspondente aquisição da tendência para a elaboração de artefatos (sic) que compensem os dispositivos naturais atrofiados.

Esta constante dependência, ratifica que o ser humano é o aspecto central frente aos dispositivos midiáticos, mesmo com todas as suas limitações. Em virtude disso, tem-se este olhar fundamental do Rodrigues (2015, online), ao perceber que “os dispositivos midiáticos, por mais extraordinários que pareçam ser à primeira vista as suas realizações no nosso tempo, só podem realizar aquilo que já estava desde sempre presente na experiência do mundo dos seres humanos”.

Mesmo em um cenário de dependência, é possível observar que nem sempre é assim. Se observamos a perspectiva biológica do ser humano, já na sua concepção o Berger e Luckman (2010 apud Rodrigues, 2015, online) chamou de “socialização primária”.

A linguagem, a mídia constitutiva de toda a experiência possível

Na perspectiva de Rodrigues (2015, online),primeiro e mais importante dispositivo midiático é a linguagem”. Talvez por entender que toda e qualquer manifestação ou interação social, só passe a existir de fato, em virtude das trocas comunicacionais, emitindo e recebendo mensagens, por exemplo.

A linguagem antecede qualquer expressão midiática após o que chamamos de “socialização primária”, simplesmente por perceber que “na mídia da linguagem estão predefinidos todos as outras mídias, está de antemão prevista a invenção de todas as outras mídias possíveis” (RODRIGUES, 2015, online).

Dessa maneira, podemos entender que a fonte geradora do poder da mídia se consolida através da natureza midiática da linguagem, que é fundamental para compreender a relação da mídia com o discurso, conforme é afirmado por Rodrigues (2015, online).

Utensílios, instrumentos, máquinas,  dispositivos

Rodrigues (2015, online) faz uma importante consideração quando diz que “aquilo a que nos habituamos (sic) a dar o nome de mídia são objetos técnicos distintos dos utensílios, dos instrumentos e das máquinas”.

Ao realizar esta observação, se faz necessário apontar as características individuais no que tange os utensílios, instrumentos, máquinas e dispositivos, conforme são expresso por Rodrigues (2015, online) a seguir:

Utensílios e Instrumentos: caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade e de a sua funcionalidade técnica depender da sua manipulação ou da sua acoplagem ao corpo. Exemplo: martelo e microscópio ótico

Máquinas: caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica também residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade, mas, ao contrário dos instrumentos e dos utensílios, a sua funcionalidade técnica não depende da sua acoplagem ao corpo, uma vez que se trata de artefatos (sic) dotados de individualidade ou autonomia em relação à sua manipulação.

Dispositivos:  distinguem-se, portanto, tanto dos utensílios e dos instrumentos como das máquinas, pelo fato de a sua natureza técnica não ser exteriorizada e de a sua funcionalidade técnica não depender da sua acoplagem ao corpo, mas da sua interiorização no organismo.

Assim, temos a “linguagem como o dispositivo que constitui o nosso mundo e, por isso, nos permite, ao mesmo tempo, interagir com o mundo que ele constitui e dar conta dos dispositivos que o constituem” (RODRIGUES, 2015, online).

Para uma antropologia da experiência técnica

O ser humano em sua essência reside suas experiências e necessidades sob práticas de invenções, descobertas, experiências orais, escritas e/ou técnicas que propõem um diálogo social constante entre pessoas.

É por isso que, por mais que recuemos no tempo, não encontramos vestígios da presença humana que não estejam acompanhados de vestígios de artefatos (sic) reveladores da sua experiência técnica, indiciadora da necessidade de constituição do seu mundo próprio. Daí também que observemos, desde as épocas mais recuadas, o processo de invenção de técnicas destinadas, tanto a perpetuar a linguagem no tempo, como a alargar a sua ressonância no espaço (RODRIGUES, 2015, online).

A exemplo disso, está o caso da invenção da impressa, que revolucionou o modelo de sociedade a partir do século XVI, onde o poder do discurso através da linguagem promoveu profundos desdobramentos em todas as cadeias econômicas e sociais, no que diz respeito ao modo de mediar informação e possibilitar a comunicação.

A lógica da invenção técnica

Esta vertente enquanto possibilidade midiática, permite e trás a ideia de aproximação da sociedade frente aos inventos e descobertas. Em função disso, é importante trazer ao centro desse debate, Gilbert Simondon. Este por sua vez, na opinião de Rodrigues (2015, online), “foi provavelmente o autor que melhor definiu a lógica da invenção técnica, considerando-a como um processo sociogenético de progressiva concretização dos objetos técnico”.

Nesta mesma lógica, “vemos assim que, para este autor, o conceito de interação sinergética é o conceito chave da lógica a que obedece o processo sociogenético de invenção técnica.

Significa dizer que a interação, da forma como está sendo concebida, será fio condutor entre a capacidade de articulação do ser humano (com todas as suas peculiaridades) com as técnicas inventivas de comunicação.

Nesse contexto, McLuhan e Powers (1989 apud RODRIGUES, 2015, online), aproveitam para considerar “os media como dispositivos que prolongam os nossos órgãos dos sentidos que, deste modo, formam o fundo de que recortamos as figuras das nossas percepções”.

Estas percepções, por natureza, podem ocorrer por meio da escrita alfabética ou de dispositivos eletrônicos, por exemplo, é necessário as capacidades motoras de interação e de aprendizagem precisam ir além, estabelecendo inclusive uma condição de equilíbrio e valorizando as mais diversas formas de produção de sentido.

Assim, “é por isso que, se faz necessário a aprendizagem de uma percepção do mundo que equilibre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais, valorizando de igual modo a percepção visual e as visões acústica e tátil (sic) […]”.

As diferentes modalidades de dispositivos mediáticos

É possível identificar a “existência de duas categorias de dispositivos midiáticos”, conforme são expressos por (RODRIGUES, 2015, online).

a) próteses e das órteses

Vemos que “As próteses são dispositivos midiáticos utilizados sobretudo em medicina e que se destinam, respetivamente, a substituir órgãos inexistentes ou a tornar mais eficiente o funcionamento de órgãos deficientes” (RODRIGUES, 2015, online).

Seguindo esta mesma lógica:

Constata-se que “As órteses são, por exemplo, os óculos, os relógios de pulso, os pacemakers ou marcapassos, dispositivos técnicos midiáticos que são incorporados na experiência humana para intervirem, respetivamente, na percepção visual, na percepção do tempo e no funcionamento do coração” (RODRIGUES, 2015, online).

b) dispositivos midiáticos de enunciação ou dispositivos midiáticos discursivos

Além dos citados anteriormente, uma outra possibilidade se constrói em torno dos tipos de dispositivos. Assim, observamos que

“os dispositivos midiáticos de enunciação, tais como o grafismo, as diferentes modalidades de escrita, a imprensa de caráter (sic) móvel, o telégrafo, a fotografia, o telefone, a rádio, a televisão, os mais recentes dispositivos cibernéticos são inventos que intervêm no desencadeamento das interações discursivos dos seres humanos” (RODRIGUES, 2015, online).

Nesse entender, podemos comprovar que provavelmente

a característica mais importante dos dispositivos midiáticos é o fato de só nos apercebermos do seu funcionamento quando deixam de funcionar, quando falham, quando o seu funcionamento é deficiente. Esta característica distingue-os evidentemente das outras modalidades de objetos técnicos e decorre do fato de serem dispositivos técnicos, isto é, de serem artefatos (sic) incorporados, de estarem interiorizados no nosso organismo.

A exemplo disso, podemos evidenciar a linguagem, que tem uma capacidade autônoma de interação e que está interiorizado ao nosso organismo.

Considerações finais

Fomos chamados a fazer uma releitura da ideia de mídia. Vimos que o objeto investigado tem um foco epistemológico amplo, mas um viés científico único, a ciência da comunicação. Na medida em que nos debruçamos sob a questão, vamos podendo ter ciência que para entender todas as dimensões dos estudos da mídia, é primaz refletir tanto suas questões metafísicas quanto aquelas que concernem a sua perspectiva empírica, seja qual for a sua corrente teórica e filosófica. Assim,

os estudos de comunicação que pretendem ter as mídias como objeto, mas que ignoram esta característica não têm, por conseguinte, as mídias como objeto de estudo, mas outras questões que não têm propriamente nada a ver com as mídias, mas com questões particulares que têm a ver com o funcionamento da sociedade, tais como o poder, as desigualdades sociais, determinados estereótipos, tais como o racismo, o sexismo, a violência. Partem do pressuposto de que estas questões  dependem do funcionamento das mídias, como se o funcionamento das mídias fosse uma realidade exterior à própria experiência do mundo própria da sociedade que as inventou e que as utiliza. Os dispositivos midiáticos […] têm influência sobre os nossos comportamentos e têm poder, mas essa influência e esse poder escapam à nossa percepção e, por isso, somos incapazes de os discernir, uma vez que coincidem com a própria experiência que nós próprios constituímos (RODRIGUES, 2015, online).

Portanto, a mídia vai muito mais além de instrumentos ou dispositivos. É algo que transcende e mobiliza a forma de conceber e de comunicar-se através de meios viabilizadores para promover a interação social entre seres humanos. Pessoalmente, chego a dizer que a maior representação simbólica que temos sobre a mídia, é o próprio ser humano a partir de toda a sua complexidade inerente.

ANEXO A – SOBRE O AUTOR

Licenciado em Sociologia e doutor em Comunicação. Professor Catedrático emérito da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Autor de vários livros, entre eles Estratégias da comunicação (Presença, 2001, 3ª ed.), Comunicação e cultura (Presença, 2010, 3ª ed.), A partitura invisível (Colibri, 2005, 2ª ed.) e O paradigma comunicacional (Calouste Gulbenkian, 2011).

ANEXO B – GLOSSÁRIO

Sociogenético: Referente à origem e conservação da sociedade considerada em seus aspectos claramente humanos, como o estético, o espiritual e o intelectual.

Hominização: evolução física e intelectual do homem desde a sua fase primitiva até ao estádio de desenvolvimento atual.

REFERÊNCIAS

RODRIGUES, Adriano Duarte. Afinal o que é mídia? Japaratinga, AL: CISECO, 2015. Disponível em: <http://www.ciseco.org.br/index.php/noticias/280-adriano-duarte-rodrigues-afinal-o-que-e-a-midia>. Acesso em: 23 set. 2016.

Sites consultados

  1. http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/hominiza%C3%A7%C3%A3o
  2. https://www.dicio.com.br/sociogenetico
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gilbert_Simondon

Chegamos a marca de 100 mil visualizações

O Blog Para bibliotecários acabou de superar a marca 100 mil visualizações.

Esse número é fruto do cuidado e zelo com o seu público, majoritariamente de estudantes e pesquisadores que buscam informações em torno do mundo do livro, leitura e da biblioteca, seja qual for o meio, suporte ou posição ideológica.

A partir deste marco, serão ampliadas e aprofundadas posts de releituras em português, também por meio do que tem sido comunicado pelos principais jornais de língua espanhola que foquem olhares em torno das práticas de leitura que estejam em consonância com o mundo da ciência da informação.

Então, siga e acompanhe as nossas reflexões e releituras. Aqui será possível encontrar um olhar alternativo e crítico em torno do que é discutido pela sociedade.

Capes lança edital de apoio à publicação científica de Acesso Aberto

Capes lança importante de apoio a publicação científica brasileira.

Segundo a Capes (2016, online), a ideia é de

“apoiar e incentivar a editoração e a publicação de periódicos científicos brasileiros em todas as áreas de conhecimento, sendo considerado prioritário o apoio às revistas divulgadas por meio eletrônico, na Internet, em modo de acesso aberto, ou de forma impressa/eletrônica simultaneamente”.

É importante salientar que são disponíveis recursos para custeio.

Veja a íntegra do edital no Portal da Capes.

Fonte: Capes